Home Acervo Balaio Incomun XI 965, Folha Porreta, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 19 de maio de 1997, apresenta Brasil à Venda, uma contundente intervenção satírica sobre o Brasil dos anos 1990.

Balaio Incomun XI 965, Folha Porreta, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 19 de maio de 1997, apresenta Brasil à Venda, uma contundente intervenção satírica sobre o Brasil dos anos 1990.

Moacy Cirne

-Balaio+Incomun+,+Folha+Porreta+,+Moacy+Cirne+,+XI-965+,+Rio+de+Janeiro,+19+de+Maio+de+1997,+Brasil+a+Venda+.jpg

04337 - 19 de maio de 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS

Balaio Incomun XI 965, Folha Porreta, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 19 de maio de 1997, apresenta Brasil à Venda, uma contundente intervenção satírica sobre o Brasil dos anos 1990. A folha articula crítica política, humor, ironia, denúncia do neoliberalismo, privatização, poder econômico, comportamento social, imprensa, cinema, história e crítica aos papéis impostos às mulheres.

No alto da página aparece uma provocação anunciando o futuro Balaio 969 e dirigindo sua crítica aos neoliberais. Logo abaixo, Brasil à Venda assume a forma paródica de um edital governamental. Moacy Cirne imagina que o Governo Federal, usando suas prerrogativas neoliberais, colocaria à venda todo o território brasileiro, incluindo estados, capitais, cidades, vilarejos, rios, praias, serras e dunas. O leilão imaginário seria realizado em 7 de setembro de 1999, data carregada de significado por corresponder à Independência do Brasil.

O preço simbólico do país seria composto por 219 garrafas de Coca Cola, 341 adesivos do McDonald's, 469 fotografias exclusivas de Madonna, 26 comics do Tio Patinhas e 44 toneladas de bananas. A seleção combina símbolos do consumo internacional, cultura de massa, indústria cultural, imaginário econômico e estereótipos associados ao Brasil. A paródia determina ainda que somente empresas multinacionais poderiam participar do leilão.

A sátira alcança seu ponto mais radical quando o texto afirma que indígenas, negros, mestiços, homossexuais, comunistas e libertários, habitantes da República Federativa do Brasil, seriam vendidos posteriormente. O exagero deliberado denuncia processos de exclusão, mercantilização da sociedade, autoritarismo e transformação de pessoas, territórios e identidades em mercadorias.

Na seção Uma pergunta para o país, Moacy Cirne aborda diretamente a política brasileira e pergunta quantos deputados teriam se vendido em Brasília no contexto do esquema da reeleição de FHC. O texto menciona os cinco denunciados pela Folha e amplia ironicamente a pergunta com uma sequência crescente de números, transformando a suspeita política em recurso poético e crítico.

Outra seção, intitulada Uma pergunta para Serran, reúne referências internacionais do cinema, da literatura e da cultura revolucionária. São citados Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Vsevolod Pudovkin, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Vladimir Maiakovski e Bertolt Brecht. A pergunta repetida sobre quem teria sido melhor artista funciona como provocação crítica sobre valores estéticos, julgamento cultural e compromisso político na arte.

A folha apresenta ainda a seção O que as revistas femininas aconselhavam às mulheres, reunindo exemplos publicados entre 1945 e 1962 em Jornal das Moças, Querida e Cláudia. Os fragmentos defendem comportamentos como manter a casa organizada para agradar ao marido, evitar noivados longos, permanecer no espaço doméstico, não demonstrar ciúmes, não incomodar o marido com serviços domésticos e responder à possível infidelidade masculina com maior demonstração de carinho. Moacy Cirne utiliza esses registros para revelar o caráter patriarcal e disciplinador presente em parte da imprensa feminina brasileira de meados do século XX. Como referência aparece Gilberto Cotrim, História e consciência do Brasil, publicado em São Paulo pela Saraiva em 1995.

Na parte inferior surge também uma máxima do Barão de Itararé sobre homens solteiros e loucos, atribuída ao Almanaque para 1949 em reedição publicada em São Paulo em 1991. A inclusão de Barão de Itararé reforça o papel do humor, da sátira e do absurdo como instrumentos de crítica política e social.

Balaio Incomun XI 965 constitui importante documento da produção crítica de Moacy Cirne e da cultura brasileira dos anos 1990. Brasil à Venda relaciona neoliberalismo, multinacionais, reeleição presidencial, Congresso Nacional, imprensa, consumo, cultura de massa, desigualdade, racismo, sexualidade, pensamento libertário, feminismo, representação das mulheres, cinema político e humor brasileiro. A folha amplia o campo de atuação do Balaio Incomun e da Folha Porreta como espaços de poesia, intervenção cultural, crítica social e experimentação intelectual.

TEXTO SALSA EM INGLÊS

Balaio Incomun XI 965, Folha Porreta, by Moacy Cirne, produced in Rio de Janeiro on 19 May 1997, presents Brasil à Venda, a forceful satirical intervention concerning Brazil in the 1990s. The sheet combines political criticism, humor, irony, criticism of neoliberalism, privatization, economic power, social behavior, the press, cinema, history and criticism of roles imposed on women.

At the top of the page appears a provocative announcement concerning the future Balaio 969 and directing its criticism toward neoliberals. Immediately below, Brasil à Venda takes the parodic form of a government public notice. Moacy Cirne imagines that the Federal Government, exercising its neoliberal prerogatives, would place the entire Brazilian territory up for sale, including states, capitals, cities, villages, rivers, beaches, mountains and dunes. The imaginary auction would take place on 7 September 1999, a date charged with symbolic significance because it marks Brazilian Independence.

The symbolic price of the country would consist of 219 bottles of Coca Cola, 341 McDonald's stickers, 469 exclusive photographs of Madonna, 26 Uncle Scrooge comics and 44 tons of bananas. The selection combines symbols of international consumption, mass culture, the cultural industry, economic imagery and stereotypes associated with Brazil. The parody further establishes that only multinational corporations would be allowed to participate in the auction.

The satire reaches its most radical point when the text states that Indigenous people, Black people, mixed race people, homosexuals, communists and libertarians living in the Federative Republic of Brazil would be sold at a later date. This deliberate exaggeration denounces exclusion, the commodification of society, authoritarianism and the transformation of people, territories and identities into merchandise.

In the section Uma pergunta para o país, Moacy Cirne directly addresses Brazilian politics and asks how many members of Congress had sold themselves in Brasília in connection with the political scheme surrounding the reelection of FHC. The text mentions the five denounced by Folha and ironically expands the question through an increasing sequence of numbers, transforming political suspicion into a poetic and critical device.

Another section, titled Uma pergunta para Serran, brings together international references from cinema, literature and revolutionary culture. Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Vsevolod Pudovkin, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Vladimir Mayakovsky and Bertolt Brecht are cited. The repeated question concerning who might have been a better artist functions as a critical provocation about aesthetic values, cultural judgment and political engagement in art.

The sheet also contains the section O que as revistas femininas aconselhavam às mulheres, bringing together examples published between 1945 and 1962 in Jornal das Moças, Querida and Cláudia. These fragments advocate behaviors such as keeping the home organized to please the husband, avoiding long engagements, remaining within the domestic sphere, avoiding jealousy, not disturbing the husband with household tasks and responding to possible male infidelity with greater demonstrations of affection. Moacy Cirne uses these historical records to expose the patriarchal and disciplinary character present in part of the Brazilian women's press of the mid twentieth century. Gilberto Cotrim and his book História e consciência do Brasil, published by Saraiva in São Paulo in 1995, are cited as a reference.

The lower section also contains an aphorism by Barão de Itararé concerning unmarried men and madmen, attributed to the Almanaque para 1949 in a São Paulo reedition from 1991. The inclusion of Barão de Itararé reinforces the role of humor, satire and absurdity as instruments of political and social criticism.

Balaio Incomun XI 965 is an important document of Moacy Cirne's critical production and of Brazilian culture during the 1990s. Brasil à Venda connects neoliberalism, multinational corporations, presidential reelection, the National Congress, the press, consumerism, mass culture, inequality, racism, sexuality, libertarian thought, feminism, representations of women, political cinema and Brazilian humor. The sheet expands the role of Balaio Incomun and Folha Porreta as spaces for poetry, cultural intervention, social criticism and intellectual experimentation.