Balaio 909, Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, composição de poesia visual ligada ao universo editorial e experimental de Moacy Cirne e de Balaio Incomum, Folha Porreta.
Moacy Cirne
04300 - Novembro de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS
Balaio 909, Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, composição de poesia visual ligada ao universo editorial e experimental de Moacy Cirne e de Balaio Incomum, Folha Porreta. A obra transforma letras, palavras, repetição gráfica, desenho e estrutura espacial em um poema que deve ser percebido simultaneamente como texto e imagem. Em vez de uma organização tradicional por versos, a composição constrói uma grande massa visual formada principalmente pela repetição da letra A em diferentes dimensões, orientações e agrupamentos.
O campo central é ocupado por centenas de caracteres que se acumulam, se cruzam e formam uma estrutura irregular de grande densidade gráfica. A letra A deixa de funcionar apenas como unidade do alfabeto e passa a atuar como forma visual, ritmo, textura e matéria do poema. A repetição produz uma espécie de paisagem tipográfica na qual leitura e visão se confundem.
No interior dessa concentração de letras aparece uma grande forma circular composta por numerosos círculos concêntricos. O elemento cria um ponto de atração óptica e introduz uma dinâmica de profundidade, movimento e concentração. O círculo pode ser percebido como alvo, olho, espiral, centro de energia ou foco visual, sem que a obra determine uma única interpretação.
A oposição entre a dispersão das letras A e a extrema regularidade dos círculos concêntricos constitui uma das principais tensões formais da composição. De um lado existe proliferação, irregularidade e multiplicidade. Do outro, ordem geométrica, repetição organizada e concentração em um único centro.
Entre as letras aparecem palavras e pequenos fragmentos verbais parcialmente incorporados à estrutura. É possível reconhecer referências que se relacionam ao título Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, enquanto outras inscrições se confundem deliberadamente com a massa tipográfica. Na região inferior aparece também a identificação Balaio 909, permitindo relacionar diretamente a composição à sequência editorial de Balaio.
O título Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo produz um encontro entre tradição literária e experimentação visual. A palavra soneto remete a uma das formas mais codificadas da poesia ocidental, enquanto a estrutura apresentada abandona versos regulares e transforma o poema em imagem. Azul introduz uma referência cromática mesmo na reprodução monocromática observada, enquanto chocolate amargo introduz associações sensoriais relacionadas a gosto, prazer, intensidade e amargor.
Essa combinação amplia o poema para além do domínio verbal. Visão, cor imaginada, sabor e percepção gráfica participam da experiência. O título convoca uma leitura sinestésica, aproximando linguagem, imagem e sensação.
A presença dominante da letra A também permite compreender a obra como investigação do elemento mínimo da escrita. Uma única letra é multiplicada até perder parcialmente sua condição linguística e adquirir autonomia visual. Esse procedimento aproxima a composição das pesquisas da poesia concreta, poesia visual, poema processo e outras vertentes experimentais que questionaram a separação entre palavra e imagem.
A construção solicita participação ativa do observador. Não existe um começo único ou uma trajetória obrigatória. O olhar pode seguir as letras, penetrar na estrutura circular, procurar palavras escondidas ou percorrer as bordas da composição. O processo de leitura torna se parte fundamental do poema.
Balaio 909, Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, constitui documento relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomum, Folha Porreta, poesia visual brasileira, poesia experimental, Poema Processo, tipografia experimental, repetição, letra A, poesia concreta, círculo, círculos concêntricos, arte óptica, linguagem gráfica, palavra e imagem, sinestesia, soneto experimental e publicações independentes brasileiras.
TEXTO SALSA EM INGLÊS
Balaio 909, Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, is a visual poetry composition connected with the editorial and experimental universe of Moacy Cirne and Balaio Incomum, Folha Porreta. The work transforms letters, words, graphic repetition, drawing and spatial structure into a poem that must be perceived simultaneously as text and image. Instead of a traditional organization through verses, the composition constructs a large visual mass formed primarily through the repetition of the letter A in different dimensions, orientations and groupings.
The central field is occupied by hundreds of characters that accumulate, intersect and form an irregular structure of considerable graphic density. The letter A ceases to function only as an alphabetic unit and begins to operate as visual form, rhythm, texture and poetic material. Repetition produces a typographic landscape in which reading and seeing become inseparable.
Within this concentration of letters appears a large circular form composed of numerous concentric circles. The element creates an optical point of attraction and introduces a dynamic of depth, movement and concentration. The circle may be perceived as a target, eye, spiral, energy center or visual focus without the work imposing a single interpretation.
The opposition between the dispersion of the letters A and the extreme regularity of the concentric circles constitutes one of the principal formal tensions of the composition. On one side there is proliferation, irregularity and multiplicity. On the other there is geometric order, organized repetition and concentration around a single center.
Words and small verbal fragments appear among the letters and are partially absorbed into the visual structure. References related to the title Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo can be perceived, while other inscriptions deliberately merge with the typographic mass. The identification Balaio 909 also appears in the lower area, directly connecting the composition with the editorial sequence of Balaio.
The title Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo creates an encounter between literary tradition and visual experimentation. The word sonnet evokes one of the most codified forms of Western poetry, while the actual structure abandons regular verses and transforms the poem into an image. Blue introduces a chromatic reference even within the monochromatic reproduction shown, while bitter chocolate introduces sensory associations with taste, pleasure, intensity and bitterness.
This combination expands the poem beyond verbal language. Vision, imagined color, taste and graphic perception become part of the experience. The title invites a synesthetic reading that connects language, image and sensation.
The dominant presence of the letter A also allows the work to be understood as an investigation into the minimal element of writing. A single letter is multiplied until it partially loses its linguistic condition and acquires visual autonomy. This procedure connects the composition with investigations in concrete poetry, visual poetry, Poema Processo and other experimental movements that questioned the separation between word and image.
The construction requires active viewer participation. There is no single beginning or compulsory reading direction. The eye may follow the letters, enter the circular structure, search for hidden words or move along the edges of the composition. The reading process itself becomes a fundamental part of the poem.
Balaio 909, Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo, is a relevant document for research on Moacy Cirne, Balaio Incomum, Folha Porreta, Brazilian visual poetry, experimental poetry, Poema Processo, experimental typography, repetition, the letter A, concrete poetry, circles, concentric circles, optical art, graphic language, word and image, synesthesia, experimental sonnet and Brazilian independent publications.
