Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 947, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1997
Moacy Cirne
04326 - 10 de Abril de 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
Texto Salsa em português
Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 947, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1997, integra o conjunto comemorativo 1967 1997, 30 Anos de Poema Processo. A edição possui especial importância documental porque combina fragmentos da Proposição do Poema Processo, de 1967, com o Poema Comestível, projeto de Álvaro de Sá também datado de 1967 e apresentado nesta folha em versão de Moacy Cirne realizada em 1997. A página estabelece assim uma relação direta entre a formulação histórica do movimento, uma de suas experiências participativas mais significativas e sua recuperação três décadas depois.
A primeira parte reproduz Fragmentos da Proposição do Poema Processo, de 1967. O material está organizado pelos conceitos Quantidade mais Qualidade, Técnica, Forma Útil, Operatório e Época. Essas formulações condensam princípios fundamentais do movimento e oferecem uma fonte direta para compreender sua ruptura com modelos tradicionais de poesia e literatura.
Na seção Quantidade mais Qualidade aparece a formulação de que só o consumo é lógica. A ideia de consumo deve ser compreendida dentro da dinâmica do processo, na qual o poema deixa de ser concebido apenas como objeto literário permanente e passa a admitir uso, participação, transformação e desgaste.
Na seção Técnica surge a definição de humanismo funcional para as massas. Essa proposição aproxima criação poética, comunicação e função social, destacando o interesse do Poema Processo por formas capazes de atuar em contextos ampliados de comunicação e não somente dentro do circuito tradicional do livro e da literatura.
Em Forma Útil são apresentadas novas possibilidades para cada novo material e a visualização da estrutura como leitura do processo. A formulação evidencia uma concepção na qual o material empregado interfere diretamente na construção da obra. Forma, estrutura, suporte e transformação tornam se componentes inseparáveis da leitura.
A seção Operatório apresenta princípios particularmente importantes. Não se busca o definitivo. Também não se trabalha com a oposição convencional entre bom e ruim, mas com opção. O ato é definido como sensação de comunicação contra o contemplativo, enquanto a integração com o objeto aparece como oposta à alienação. Essas formulações revelam a intenção de substituir a contemplação passiva por participação, operação e envolvimento direto com o poema.
Na seção Época aparece a ideia das imagens cotidianas transformando se em siglas, associada explicitamente à semiótica. O fragmento demonstra o interesse do Poema Processo pela transformação de imagens comuns em sistemas de signos, códigos e estruturas de comunicação, ampliando o poema para além da organização verbal tradicional.
A segunda grande seção da folha apresenta Poema Comestível. O documento identifica a obra como Projeto de 1967 de Álvaro de Sá e Versão de 1997 de Moacy Cirne. Essa informação é fundamental para a catalogação, pois distingue claramente o projeto histórico de Álvaro de Sá da reelaboração ou apresentação realizada por Moacy Cirne trinta anos depois.
Poema Comestível transforma alimentos em unidades de um código alfabético. Em recipientes e quantidades adequados, diferentes alimentos representam ou codificam letras. Fatias de abacaxi correspondem à letra A. Pão integral e pão integral com alho correspondem às letras B e P. Carne de sol e carne de sol com manteiga de garrafa correspondem a C e D. Pedaços de goiaba representam E. Beterraba e beterraba com cenoura correspondem a F e V. Espinafre e brócolis representam G e J. Pedaços de manga representam I. Aipim cozido e aipim frito correspondem a H e L. Arroz integral e arroz de leite correspondem a M e N. Fatias de laranja representam O. Feijão verde e feijão preto correspondem a R e T. Suco de umbu representa U. Bife de soja e bife de soja temperado correspondem a S e Z.
Esse sistema transforma a alimentação em linguagem e faz com que o poema possa ser construído, servido, lido, consumido e fisicamente eliminado pelo próprio participante. Letras deixam de existir apenas como sinais gráficos e passam a possuir equivalentes materiais, táteis, gustativos e corporais.
Moacy Cirne oferece exemplos de funcionamento do código. Para formar a palavra liberdade, o participante deveria organizar um prato com aipim frito, pedaços de manga, pão integral, pedaços de goiaba, feijão verde, carne de sol com manteiga de garrafa, fatias de abacaxi, novamente carne de sol com manteiga e mais goiaba. A palavra deixa assim de ser apenas lida e passa a existir como sequência alimentar codificada.
Para construir a palavra libertinagem, a página propõe aipim frito, manga, pão integral, goiaba, feijão verde, feijão preto, manga, arroz de leite, abacaxi, espinafre, mais goiaba e arroz integral. O procedimento transforma cada palavra em receita, sequência, objeto, código e ação.
A conclusão radicaliza a proposta participativa. O leitor é convidado a fazer seu próprio poema comendo o ser amado, isto é, comendo o nome da pessoa amada. Em seguida, deve devorar o poema acompanhado por uma boa cachaça mineira ou paraibana. O humor, o erotismo, a alimentação e a participação são incorporados ao processo poético, dissolvendo as fronteiras entre linguagem, corpo e experiência cotidiana.
Poema Comestível possui relação direta com conceitos fundamentais do Poema Processo, como participação, consumo, operação, transformação, codificação e integração com o objeto. O poema não é apenas contemplado. Ele deve ser montado e consumido. O desaparecimento material do poema depois de sua ingestão torna o processo mais importante do que a permanência física do objeto.
A escolha dos alimentos também estabelece forte relação com a cultura alimentar brasileira. Abacaxi, pão integral, carne de sol, manteiga de garrafa, goiaba, beterraba, cenoura, espinafre, brócolis, manga, aipim, arroz, laranja, feijão, umbu e soja são convertidos em elementos de um alfabeto experimental. A utilização de carne de sol, manteiga de garrafa, aipim, umbu e cachaça introduz referências culturais particularmente associadas ao Brasil e ao Nordeste.
Na parte inferior da folha inicia se ainda uma seção intitulada Dos Poemas Slogans de Janeiro de 1968. É possível ler a formulação O verso é anti higiênico e o início de outra proposição, Abaixo a ditadura do Canto e do, cujo restante não aparece integralmente na reprodução disponível. Essa presença amplia a importância histórica da página ao relacionar a comemoração de 1997 também aos poemas slogans produzidos no contexto inicial do movimento.
Balaio Incomun XI 947 funciona simultaneamente como documento teórico, arquivo histórico, reativação poética e publicação comemorativa. A página aproxima a Proposição do Poema Processo, o projeto Poema Comestível de Álvaro de Sá, a versão de Moacy Cirne e referências aos poemas slogans de janeiro de 1968. O resultado oferece uma síntese particularmente rica das ideias de processo, comunicação, operação, participação, consumo, semiótica e transformação que marcaram o movimento.
Documento fundamental para pesquisas e indexação sobre Moacy Cirne, Álvaro de Sá, Poema Comestível, Proposição do Poema Processo, Poema Processo, 1967, 1968, 1997, 30 anos de Poema Processo, poesia visual brasileira, poesia experimental, poema processo, poema participativo, poesia semiótica, arte participativa, arte conceitual, alimentação como linguagem, poesia comestível, comunicação, código, semiótica, consumo, operação, integração com o objeto, humanismo funcional, forma útil, estrutura, poemas slogans, cultura brasileira, cultura nordestina e história das vanguardas brasileiras.
Salsa text in English
Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 947, by Moacy Cirne, produced in Rio de Janeiro on April 10, 1997, belongs to the commemorative group 1967 1997, 30 Anos de Poema Processo. The issue has particular documentary importance because it combines fragments of the Proposição do Poema Processo from 1967 with Poema Comestível, a project by Álvaro de Sá also dated 1967 and presented on this sheet in a 1997 version by Moacy Cirne. The page therefore creates a direct relationship between the historical formulation of the movement, one of its significant participatory experiments and its recovery three decades later.
The first section reproduces fragments from the Proposição do Poema Processo of 1967. The material is organized through the concepts Quantidade mais Qualidade, Técnica, Forma Útil, Operatório and Época. These formulations condense fundamental principles of the movement and provide direct documentary evidence for understanding its break with traditional concepts of poetry and literature.
Under Quantidade mais Qualidade appears the proposition that only consumption is logical. Consumption can be understood within the dynamics of process, in which the poem is no longer conceived exclusively as a permanent literary object but can involve use, participation, transformation and physical wear.
The section Técnica presents the concept of functional humanism for the masses. This proposition brings poetic creation, communication and social function together and demonstrates the interest of Poema Processo in forms capable of operating within broader systems of communication beyond the traditional literary book.
Under Forma Útil the document proposes new possibilities for every new material and the visualization of structure as the reading of process. This formulation demonstrates a conception in which the material itself participates in constructing the work. Form, structure, medium and transformation become inseparable from interpretation.
The Operatório section contains particularly significant principles. The definitive is not sought. Conventional opposition between good and bad is replaced by the concept of option. The act is defined through communication rather than contemplation, while integration with the object is presented as the opposite of alienation. These propositions demonstrate an intention to replace passive contemplation with participation, operation and direct involvement with the poem.
The section Época introduces the idea of everyday images becoming signs or abbreviations and explicitly connects this process with semiotics. The fragment demonstrates the interest of Poema Processo in transforming ordinary images into systems of signs, codes and structures of communication and therefore expanding the poem beyond conventional verbal organization.
The second major section of the sheet presents Poema Comestível. The document identifies it as a 1967 project by Álvaro de Sá and a 1997 version by Moacy Cirne. This information is essential for cataloguing because it clearly distinguishes the historical project by Álvaro de Sá from the later version or presentation created by Moacy Cirne thirty years afterward.
Poema Comestível transforms food into units of an alphabetic code. In appropriate containers and quantities, different foods represent or encode letters. Pineapple slices represent A. Whole wheat bread and whole wheat bread with garlic correspond to B and P. Brazilian dried meat and the same meat with butter correspond to C and D. Pieces of guava represent E. Beetroot and beetroot with carrot correspond to F and V. Spinach and broccoli represent G and J. Pieces of mango represent I. Boiled cassava and fried cassava correspond to H and L. Brown rice and milk rice correspond to M and N. Orange slices represent O. Green beans and black beans correspond to R and T. Umbu juice represents U. Soy steak and seasoned soy steak correspond to S and Z.
This system transforms food into language and allows the poem to be constructed, served, read, consumed and physically eliminated by the participant. Letters no longer exist only as graphic signs and acquire material, tactile, gustatory and bodily equivalents.
Moacy Cirne provides examples of how the code operates. To form the word liberdade, the participant should arrange fried cassava, pieces of mango, whole wheat bread, pieces of guava, green beans, Brazilian dried meat with butter, pineapple slices, another portion of the dried meat with butter and more guava. The word therefore ceases to be merely read and becomes a coded sequence of food.
To construct the word libertinagem, the page proposes fried cassava, mango, whole wheat bread, guava, green beans, black beans, mango, milk rice, pineapple, spinach, more guava and brown rice. Each word consequently becomes a recipe, sequence, object, code and action.
The conclusion radicalizes the participatory proposal. The reader is invited to make a personal poem by eating the loved person, meaning by eating that person's name. The poem should then be devoured accompanied by a good cachaça from Minas Gerais or Paraíba. Humor, eroticism, food and participation become part of the poetic process and dissolve boundaries among language, body and everyday experience.
Poema Comestível has a direct relationship with fundamental concepts of Poema Processo such as participation, consumption, operation, transformation, coding and integration with the object. The poem is not simply contemplated. It must be assembled and consumed. Its material disappearance after ingestion makes the process more important than the permanent physical preservation of the object.
The selection of foods also establishes a strong relationship with Brazilian culinary culture. Pineapple, bread, Brazilian dried meat, butter, guava, beetroot, carrot, spinach, broccoli, mango, cassava, rice, orange, beans, umbu and soy are transformed into components of an experimental alphabet. The presence of Brazilian dried meat, bottle butter, cassava, umbu and cachaça introduces cultural references particularly associated with Brazil and northeastern Brazilian culture.
At the bottom of the sheet begins another section entitled Dos Poemas Slogans de Janeiro de 1968. The proposition O verso é anti higiênico can be read clearly, together with the beginning of another statement, Abaixo a ditadura do Canto e do, whose continuation is not fully visible in the available reproduction. Its presence increases the historical importance of the sheet by connecting the 1997 commemoration with slogan poems created during the early period of the movement.
Balaio Incomun XI 947 functions simultaneously as theoretical document, historical archive, poetic reactivation and commemorative publication. The page brings together the Proposição do Poema Processo, the Poema Comestível project by Álvaro de Sá, the version by Moacy Cirne and references to slogan poems from January 1968. The result provides an especially rich synthesis of the concepts of process, communication, operation, participation, consumption, semiotics and transformation that characterized the movement.
This document is fundamental for research and indexing on Moacy Cirne, Álvaro de Sá, Poema Comestível, Proposição do Poema Processo, Poema Processo, 1967, 1968, 1997, 30 years of Poema Processo, Brazilian visual poetry, experimental poetry, process poetry, participatory poetry, semiotic poetry, participatory art, conceptual art, food as language, edible poetry, communication, code, semiotics, consumption, operation, integration with the object, functional humanism, useful form, structure, slogan poems, Brazilian culture, northeastern Brazilian culture and the history of Brazilian avant garde movements.
