Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 943, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 8 de abril de 1997, é uma edição dedicada à memória do Poema Processo e à recuperação de uma obra histórica de Nei Leandro de Castro, identificada na página como Projeto do Poema A 3ª Mundial, de 1968.
Moacy Cirne
04322 - 8 de abril de 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
Texto Salsa em português
Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 943, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 8 de abril de 1997, é uma edição dedicada à memória do Poema Processo e à recuperação de uma obra histórica de Nei Leandro de Castro, identificada na página como Projeto do Poema A 3ª Mundial, de 1968. O documento integra o conjunto de edições de Balaio Incomun publicadas por Moacy Cirne em 1997 para reativar obras, autores e procedimentos vinculados à primeira fase do Poema Processo.
No alto da página encontra se a inscrição 1967 1997: Dez Anos de Poema Processo. A formulação deve ser preservada na catalogação tal como aparece no documento, embora exista uma evidente inconsistência cronológica, pois o intervalo entre 1967 e 1997 corresponde a trinta anos. Essa particularidade material é relevante para a descrição arquivística e pode representar um erro tipográfico ou uma intervenção deliberada da própria edição.
O centro da folha reproduz, em posição inclinada, o Projeto do Poema A 3ª Mundial, assinado por Nei Leandro e datado de 1968. A obra apresenta um projeto para construção de um poema processo tridimensional e participativo. Em vez de oferecer um poema verbal convencional, Nei Leandro estabelece uma sequência de instruções destinadas ao construtor ou participante, transformando o poema em programa de ação, objeto, experiência e possibilidade de intervenção.
O primeiro elemento previsto é um cubo oco, cujo material e dimensões ficam à escolha do construtor participante. O interior desse cubo deveria conter explosivos em quantidade também definida livremente. Sobre cada face seriam colados recortes circulares de jornais ou revistas, organizados de acordo com a numeração de um dado.
Os recortes deveriam corresponder a cenas de guerra levantadas estatisticamente no noticiário. Assim, a obra incorpora diretamente a comunicação de massa, a imprensa e as imagens de conflitos militares como matéria poética. O dado introduz ainda as ideias de acaso, jogo, combinação, probabilidade e participação, características importantes de determinadas experiências do Poema Processo.
A marca correspondente ao número um do dado é descrita de maneira particularmente significativa. Ela deveria consistir em um recorte representando um cogumelo atômico, do qual sairia um estopim acompanhado da pergunta sobre a possibilidade de o participante acendê lo. A obra desloca então a leitura para uma decisão ética e participativa, fazendo com que o observador deixe de ser apenas espectador e seja confrontado com sua própria responsabilidade diante da destruição.
O sexto item estabelece que o poema se desgasta pelo manuseio semântico, mecânico ou pirotécnico. Essa formulação sintetiza aspectos fundamentais da proposta. O poema pode sofrer transformação pelo sentido produzido pelo participante, pela manipulação física de seu objeto e, em sua possibilidade extrema, pela própria destruição material. O caráter processual encontra se portanto não apenas na estrutura visual, mas na transformação do objeto ao longo da experiência.
A 3ª Mundial articula poesia, objeto, comunicação, participação, estatística, acaso, imprensa, guerra, ameaça nuclear e ação do público. O título remete diretamente à possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, questão central no imaginário político da Guerra Fria e particularmente intensa durante a década de 1960. A imagem do cogumelo atômico transforma a ameaça nuclear em signo visual e coloca o participante diante de uma escolha simbólica entre contemplação e destruição.
A obra exemplifica de maneira clara a ruptura promovida pelo Poema Processo com a ideia tradicional de poema como composição exclusivamente verbal. O texto funciona como projeto de realização e pode assumir diferentes configurações conforme as decisões tomadas por cada construtor participante. Não existe um objeto definitivo e imutável, mas uma estrutura aberta à execução, à transformação e ao consumo.
A reprodução gráfica no Balaio Incomun também possui interesse visual próprio. O projeto aparece inclinado sobre uma composição de padrões de pontos e faixas paralelas, enquanto na parte superior é apresentada uma imagem do objeto cúbico com elementos circulares aplicados em suas faces. A montagem reforça a relação entre documento histórico, reprodução fotográfica, design gráfico e poesia visual.
Ao recuperar em 1997 uma obra de Nei Leandro datada de 1968, Moacy Cirne realiza uma operação de memória histórica do Poema Processo. A publicação demonstra que as experiências desenvolvidas três décadas anteriormente continuavam sendo mobilizadas como referências para pensar linguagem, política, comunicação, participação e visualidade. O Balaio Incomun funciona aqui como arquivo ativo, recolocando em circulação um projeto fundamental da poesia experimental brasileira.
Balaio Incomun XI 943 constitui fonte primária relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Nei Leandro de Castro, Nei Leandro, A 3ª Mundial, Projeto do Poema A 3ª Mundial, Poema Processo, poema processo de 1968, poesia visual brasileira, poesia experimental, arte participativa, arte conceitual, poema objeto, objeto participativo, linguagem intersemiótica, comunicação de massa, jornais, revistas, estatística, guerra, Guerra Fria, ameaça nuclear, cogumelo atômico, participação do público, acaso, dado, cubo, explosivos, semiótica, arte e política e história das vanguardas brasileiras.
