Balaio Incomun, Folha Porreta, X 879, publicação de Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 31 de julho de 1996.
Moacy Cirne
04286 - 31 de julho de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
Texto Salsa em português
Balaio Incomun, Folha Porreta, X 879, publicação de Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 31 de julho de 1996. O documento reúne crítica à mídia esportiva brasileira, reflexão sobre os Jogos Olímpicos, cinema, Universidade Federal Fluminense, crítica de arte, Poema Processo, poesia experimental e uma extensa resposta de Moacy Cirne a questões formuladas por Arnaldo Jabor sobre a crise da arte no Brasil.
O texto de abertura tem o título De como não me ufano de nossa mídia esportiva e parte da Olimpíada de 1996 para analisar criticamente o comportamento da imprensa esportiva brasileira. Moacy Cirne reconhece que a competição olímpica provocava alegrias e tristezas e afirma que, apesar dos resultados brasileiros então modestos, aquela seria para ele a melhor de todas as Olimpíadas que acompanhara.
A crítica central dirige se à maneira como a imprensa esportiva produzia interpretações históricas e narrativas nacionalistas. Cirne questiona a tentativa de transformar determinadas modalidades e resultados em acontecimentos extraordinários e critica especificamente o tratamento dado ao vôlei de praia. Para ele, uma tradição esportiva olímpica deveria ser construída com conhecimento histórico, e não com falsos heróis, falsos profetas e discursos oportunistas.
Moacy Cirne também critica o que considera revisionismo e ufanismo na mídia esportiva. O texto menciona a conquista do tetracampeonato mundial de futebol pelo Brasil como exemplo de acontecimento transformado em instrumento de exaltação nacionalista. Cirne registra ainda uma observação de Matinas Suzuki publicada na Folha de S Paulo, relacionada ao delírio ufanista então presente na imprensa. O autor conclui esse núcleo defendendo que o país precisava de mais história e menos histeria.
A seção Cinema, Os melhores filmes, apresenta a seleção de João Luís Vieira, do Rio de Janeiro, identificado como professor do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF. Seus dez filmes escolhidos são Viagem a Tóquio, de Yasujir
Ozu, Ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, Cidadão Kane, de Orson Welles, Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock, Terra em transe, de Glauber Rocha, Amor sublime amor, de Robert Wise e Jerome Robbins, Rastros de ódio, de John Ford, Duas ou três coisas que sei dela, de Jean Luc Godard, O homem da câmera, de Dziga Vertov, e Desencanto, de David Lean.
A lista de João Luís Vieira reúne cinema japonês, cinema moderno francês, cinema clássico norte americano, Cinema Novo brasileiro, musical, western e cinema soviético de vanguarda. O documento informa que essa seleção havia sido inicialmente publicada na Folha de S Paulo em 10 de maio de 1995.
A presença de João Luís Vieira possui especial interesse documental pela relação com o Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense. A UFF aparece repetidamente na circulação intelectual de Balaio Incomun, envolvendo professores, estudantes e pesquisadores de cinema, comunicação, publicidade, jornalismo, geografia e outras áreas.
Terra em transe, de Glauber Rocha, ocupa posição significativa entre as escolhas de João Luís Vieira. Sua presença aproxima novamente Balaio Incomun do Cinema Novo e estabelece uma relação entre o pensamento cinematográfico de Moacy Cirne, o ambiente universitário da UFF e uma das obras fundamentais da modernidade cinematográfica brasileira.
A parte mais extensa do documento é intitulada Resposta a Jabor. Moacy Cirne inicia o texto reconhecendo Arnaldo Jabor como autor de alguns dos filmes brasileiros mais instigantes das décadas de 1960 e 1970. Também o caracteriza como jornalista provocador e inteligente, embora critique sua posição política ligada à nova direita neoliberal. Cirne afirma que, concordando ou não com Jabor, seus textos provocavam reflexão e que ele escrevia e realizava cinema com qualidade.
A resposta refere se a 33 perguntas formuladas por Arnaldo Jabor sobre a crise da arte no Brasil e publicadas na Folha de S Paulo. Entre as questões discutidas aparece a relação entre conceito de experimental, sofrimento, autodestruição, proibição da redundância e culto ao desagradável e ao feio.
Moacy Cirne responde que a experimentação não deve ser associada necessariamente ao sofrimento ou à autodestruição. Para sustentar sua posição, menciona as tendências construtivistas da arte do século XX e destaca explicitamente o Poema Processo dentro da história do poema experimental brasileiro. O documento registra assim uma importante formulação retrospectiva de Cirne sobre o lugar do Poema Processo no campo das experiências artísticas construtivas.
Cirne afirma ainda que a experimentação pode possuir exatidão e rigor. Essa posição é especialmente relevante para compreender sua concepção de poesia experimental. O experimental não surge como improvisação aleatória, mas como procedimento consciente de construção da linguagem, capaz de trabalhar estrutura, projeto e precisão.
Outra pergunta atribuída a Arnaldo Jabor discute se a arte teria se fechado numa estrutura conceitual e minimalista que impediria uma experiência mais generosa de criação. A resposta de Moacy Cirne contrapõe essa interpretação a sistemas acadêmicos e culturais e ao que denomina infantilismo oficial da cultura pretensamente globalizante. O debate envolve minimalismo, arte conceitual, neobarroco, instituições culturais e neoliberalismo.
Jabor também questiona se a melancolia seria mais profunda que a alegria e pergunta pela preferência entre Picasso e Duchamp. Cirne responde que melancolia e alegria podem constituir faces de uma mesma moeda e que ambas podem ser experimentadas e problematizadas com profundidade. Ao tratar da oposição entre Picasso e Duchamp, sua resposta rejeita escolhas simplificadoras e sugere uma visão plural da história da arte.
Balaio Incomun X 879 constitui um documento importante para compreender Moacy Cirne como crítico da cultura para além de sua atuação no campo da poesia. Imprensa esportiva, Olimpíada, nacionalismo, cinema, crítica de arte, neoliberalismo e Poema Processo aparecem articulados numa mesma folha, revelando sua prática intelectual interdisciplinar e sua atenção permanente às relações entre estética, política, comunicação e sociedade.
O exemplar constitui fonte primária relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, De como não me ufano de nossa mídia esportiva, Jogos Olímpicos de 1996, Olimpíada de Atlanta, imprensa esportiva brasileira, mídia esportiva, ufanismo, nacionalismo, Matinas Suzuki, Folha de S Paulo, João Luís Vieira, Universidade Federal Fluminense, UFF, Departamento de Cinema e Vídeo, cinema brasileiro, Cinema Novo, Glauber Rocha, Terra em transe, Yasujir
Ozu, Alain Resnais, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Jean Luc Godard, Dziga Vertov, Arnaldo Jabor, crítica de arte, arte experimental, Poema Processo, poesia experimental, construtivismo, minimalismo, arte conceitual, neobarroco, neoliberalismo e cultura brasileira dos anos 1990.
Salsa text in English
Balaio Incomun, Folha Porreta, X 879, a publication by Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 31 July 1996. The document brings together criticism of Brazilian sports media, reflections on the Olympic Games, cinema, Universidade Federal Fluminense, art criticism, Poema Processo, experimental poetry and an extensive response by Moacy Cirne to questions formulated by Arnaldo Jabor concerning the crisis of art in Brazil.
The opening text is entitled De como não me ufano de nossa mídia esportiva and uses the 1996 Olympic Games as the starting point for a critical analysis of Brazilian sports journalism. Moacy Cirne acknowledges that the Olympic competition generated both joy and disappointment and states that, despite what he regarded as modest Brazilian results at that moment, it was for him the best Olympic Games he had followed.
The central criticism concerns the way sports journalism produced historical interpretations and nationalist narratives. Cirne questions attempts to transform particular sports and results into extraordinary national events and specifically criticizes the treatment given to beach volleyball. In his view, an Olympic sporting tradition should be constructed through historical knowledge rather than through false heroes, false prophets and opportunistic narratives.
Moacy Cirne also criticizes what he considers revisionism and excessive nationalism within sports media. The text mentions Brazil's fourth football world championship as an example of an event transformed into an instrument of nationalist exaltation. Cirne also refers to an observation by Matinas Suzuki published in Folha de S Paulo concerning the climate of nationalist enthusiasm then present in Brazilian journalism. He concludes this section by arguing that the country needed more history and less hysteria.
The Cinema section, The Best Films, presents the selection of João Luís Vieira from Rio de Janeiro, identified as a professor in the Department of Cinema and Video at UFF. His ten selected films are Tokyo Story by Yasujir
Ozu, Last Year at Marienbad by Alain Resnais, Citizen Kane by Orson Welles, Vertigo by Alfred Hitchcock, Entranced Earth by Glauber Rocha, West Side Story by Robert Wise and Jerome Robbins, The Searchers by John Ford, Two or Three Things I Know About Her by Jean Luc Godard, Man with a Movie Camera by Dziga Vertov, and Brief Encounter by David Lean.
João Luís Vieira's list brings together Japanese cinema, French modern cinema, classical American cinema, Brazilian Cinema Novo, the musical, the western and Soviet avant garde cinema. The document states that this selection had initially been published in Folha de S Paulo on 10 May 1995.
The presence of João Luís Vieira is particularly significant because of his connection with the Department of Cinema and Video at Universidade Federal Fluminense. UFF appears repeatedly within the intellectual circulation of Balaio Incomun through professors, students and researchers associated with cinema, communication, advertising, journalism, geography and other fields.
Entranced Earth by Glauber Rocha occupies an important position among João Luís Vieira's choices. Its presence once again connects Balaio Incomun with Cinema Novo and establishes a relationship among Moacy Cirne's cinematic interests, the academic environment of UFF and one of the fundamental works of Brazilian cinematic modernity.
The longest section of the document is entitled Response to Jabor. Moacy Cirne begins by recognizing Arnaldo Jabor as the director of some of the most provocative Brazilian films of the 1960s and 1970s. He also describes Jabor as a provocative and intelligent journalist while criticizing his political position associated with the new neoliberal right. Cirne states that whether one agreed with Jabor or not, his writing provoked thought and that he both wrote and made films with skill.
The response concerns 33 questions formulated by Arnaldo Jabor about the crisis of art in Brazil and published in Folha de S Paulo. Among the issues discussed are the relationship between the concept of experimentation, suffering, self destruction, the rejection of redundancy and the cultivation of the unpleasant and the ugly.
Moacy Cirne argues that experimentation should not necessarily be associated with suffering or self destruction. To support his position, he refers to the constructive tendencies of twentieth century art and explicitly highlights Poema Processo within the history of Brazilian experimental poetry. The document therefore contains an important retrospective statement by Cirne concerning the place of Poema Processo within constructive artistic experimentation.
Cirne further argues that experimentation can possess precision and rigor. This position is particularly important for understanding his conception of experimental poetry. Experimentation does not appear as random improvisation but as a conscious process of constructing language capable of involving structure, project and precision.
Another question attributed to Arnaldo Jabor asks whether art had become enclosed within a conceptual and minimalist structure that prevented a more generous creative experience. Moacy Cirne's response relates this question to academic and cultural systems and to what he describes as the official infantilism of supposedly globalizing culture. The discussion involves Minimalism, Conceptual Art, Neobaroque tendencies, cultural institutions and neoliberalism.
Jabor also asks whether melancholy is deeper than joy and raises the choice between Picasso and Duchamp. Cirne answers that melancholy and joy can be understood as two faces of the same coin and that both can be experienced and problematized with depth. In dealing with the opposition between Picasso and Duchamp, his response rejects simplistic choices and suggests a plural understanding of art history.
Balaio Incomun X 879 is an important document for understanding Moacy Cirne as a cultural critic beyond his activities in poetry. Sports journalism, the Olympic Games, nationalism, cinema, art criticism, neoliberalism and Poema Processo are brought together on a single sheet, revealing his interdisciplinary intellectual practice and his continuing attention to relationships among aesthetics, politics, communication and society.
The issue is an important primary source for research on Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, De como não me ufano de nossa mídia esportiva, the 1996 Olympic Games, Atlanta Olympics, Brazilian sports journalism, sports media, nationalism, Matinas Suzuki, Folha de S Paulo, João Luís Vieira, Universidade Federal Fluminense, UFF, Department of Cinema and Video, Brazilian cinema, Cinema Novo, Glauber Rocha, Entranced Earth, Yasujir
Ozu, Alain Resnais, Orson Welles, Alfred Hitchcock, Jean Luc Godard, Dziga Vertov, Arnaldo Jabor, art criticism, experimental art, Poema Processo, experimental poetry, Constructivism, Minimalism, Conceptual Art, Neobaroque tendencies, neoliberalism and Brazilian culture in the 1990s.
