Home Acervo Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 946, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1997, integra o conjunto de edições comemorativas dos trinta anos do Poema Processo.

Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 946, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1997, integra o conjunto de edições comemorativas dos trinta anos do Poema Processo.

Moacy Cirne

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04325 - 10 de abril de 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

Texto Salsa em português

Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 946, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 10 de abril de 1997, integra o conjunto de edições comemorativas dos trinta anos do Poema Processo. A inscrição 1967 1997: 30 Anos de Poema Processo aparece no alto da página e situa a folha dentro do trabalho de recuperação histórica desenvolvido por Moacy Cirne em 1997, três décadas depois do surgimento do movimento de vanguarda brasileiro.

A edição recebe o título Poema Processo, Vírgula e Ponto e informa que a composição foi realizada a partir de poemas processo dos anos 60 de Neide Dias de Sá e José Cláudio, com chave léxica de Dailor Varela. Essa indicação constitui dado documental fundamental, pois identifica diretamente três participantes ou referências vinculadas ao universo experimental do Poema Processo e esclarece que a página de 1997 reutiliza e reorganiza materiais originários da primeira fase histórica do movimento.

A composição possui caráter predominantemente visual e apresenta diferentes sistemas de signos sobrepostos. Ao fundo encontra se a repetição insistente da palavra LUTO, distribuída em linhas e colunas que criam simultaneamente texto, padrão e textura. A repetição transforma uma unidade verbal simples em campo visual, retirando a palavra de uma utilização exclusivamente discursiva e fazendo com que quantidade, disposição e ritmo também produzam significado.

A presença reiterada de LUTO introduz uma dimensão semântica associada a perda, morte, ausência e memória. Entretanto, no contexto do Poema Processo, a palavra não atua isoladamente. Sua repetição cria estrutura gráfica e estabelece relações com as demais formas presentes na página. A passagem do significado verbal para uma configuração visual constitui um dos aspectos essenciais da composição.

Sobre o campo textual aparecem grandes estruturas geométricas e orgânicas. Uma área escura inclinada contém formas circulares e semicirculares que se expandem e se sobrepõem. A organização dessas formas cria movimento óptico e sensação de sequência, sugerindo transformação, rotação, crescimento ou deslocamento. A percepção da obra acontece pelo acompanhamento dessas alterações e não por uma leitura linear tradicional.

Na parte inferior esquerda surge outro campo visual formado pela repetição de pequenos sinais gráficos semelhantes a setas, ângulos ou marcas direcionais. Esses elementos criam elevada densidade visual e fazem com que sinais mínimos se convertam em massa gráfica. Alguns desses sinais também aparecem destacados ou diferenciados, indicando que a repetição não é absolutamente uniforme e que pequenas mudanças podem alterar a leitura do sistema.

Dentro desse campo aparece uma chave léxica, explicitamente mencionada no cabeçalho como sendo de Dailor Varela. A legenda apresenta os termos incomunicabilidade e comunicabilidade associados a sinais gráficos distintos. Dessa maneira, a página oferece ao observador um instrumento para interpretar determinadas diferenças visuais presentes na composição.

A utilização de uma chave léxica é especialmente significativa no contexto do Poema Processo. Em vez de explicar a obra por meio de um texto literário convencional, o documento estabelece correspondências entre símbolos e conceitos. O leitor precisa identificar sinais, comparar ocorrências e construir relações entre código gráfico e significado. Ler passa a significar também decodificar.

Os conceitos de comunicabilidade e incomunicabilidade possuem importância particular para a história do movimento, que investigou intensamente os processos de comunicação, a circulação da informação e as possibilidades de construção de linguagem para além da frase tradicional. Nesta página, comunicação e ausência de comunicação tornam se componentes visuais e operacionais do poema.

A composição reúne assim palavra, repetição, signo, textura, círculo, contraste, código, chave léxica e organização espacial. Nenhum desses elementos precisa funcionar de maneira independente. O sentido é produzido justamente pelo confronto entre os sistemas. A palavra LUTO encontra formas abstratas, os sinais gráficos recebem valores lexicais e as estruturas circulares introduzem movimento em um campo marcado por repetição.

O título Poema Processo, Vírgula e Ponto também possui força conceitual. Vírgula e ponto são sinais da escrita que estabelecem interrupção, continuidade, pausa e encerramento. Ao colocá los no título de uma página dedicada ao Poema Processo, Moacy Cirne aproxima pontuação verbal e estrutura visual, sugerindo uma reflexão sobre continuidade histórica, interrupção e transformação da linguagem.

A folha constitui ainda importante registro da presença de Neide Dias de Sá na memória do Poema Processo em 1997. A indicação explícita de que a composição parte de poemas processo dos anos 60 de Neide Dias de Sá e José Cláudio contribui para documentar a participação desses autores nas experiências históricas recuperadas por Moacy Cirne. A menção à chave léxica de Dailor Varela acrescenta outra conexão direta com as redes de criação e pesquisa do movimento.

Ao reorganizar materiais dos anos 1960 dentro de Balaio Incomun em 1997, Moacy Cirne realiza uma operação de arquivo ativo. As obras históricas não são tratadas apenas como peças de documentação. Elas são novamente montadas, aproximadas, deslocadas e inseridas em uma nova construção visual. A memória do Poema Processo é assim apresentada como processo em continuidade.

Balaio Incomun XI 946 constitui fonte primária relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Neide Dias de Sá, Neide Sá, José Cláudio, Dailor Varela, Poema Processo, Poema Processo Vírgula e Ponto, 1967, 1997, 30 anos de Poema Processo, poemas processo dos anos 60, poesia visual brasileira, poesia experimental, poema processo, comunicação, incomunicabilidade, comunicabilidade, chave léxica, código visual, signo, semiótica, repetição, palavra LUTO, linguagem visual, arte gráfica, experimentação tipográfica, montagem, memória das vanguardas brasileiras e história do Poema Processo.

Salsa text in English

Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 946, by Moacy Cirne, produced in Rio de Janeiro on April 10, 1997, belongs to the group of issues commemorating the thirtieth anniversary of Poema Processo. The inscription 1967 1997: 30 Anos de Poema Processo appears at the top of the page and places the sheet within the historical recovery developed by Moacy Cirne in 1997, three decades after the emergence of the Brazilian avant garde movement.

The issue is entitled Poema Processo, Vírgula e Ponto and states that the composition was created from process poems of the 1960s by Neide Dias de Sá and José Cláudio, with a lexical key by Dailor Varela. This information has fundamental documentary value because it directly identifies three names connected with the experimental universe of Poema Processo and establishes that the 1997 page reuses and reorganizes material originating in the first historical phase of the movement.

The composition is predominantly visual and presents several overlapping systems of signs. In the background, the word LUTO is repeatedly distributed in rows and columns, creating text, pattern and texture at the same time. Repetition transforms a simple verbal unit into a visual field, removing the word from exclusively discursive use and allowing quantity, arrangement and rhythm to participate in the construction of meaning.

The repeated presence of LUTO introduces a semantic dimension associated with mourning, death, absence and memory. Within Poema Processo, however, the word does not operate independently. Its repetition creates a graphic structure and establishes relationships with the other forms on the page. The transformation of verbal meaning into visual configuration is one of the central aspects of the composition.

Large geometric and organic structures appear over this textual field. A tilted dark area contains circular and semicircular forms that expand and overlap. Their organization creates optical movement and a sense of sequence, suggesting transformation, rotation, growth or displacement. Perception of the work develops through the observation of these changes rather than through conventional linear reading.

In the lower left area another visual field is constructed through the repetition of small graphic signs resembling arrows, angles or directional marks. These elements create intense visual density and transform minimal signs into a graphic mass. Some of the marks appear differentiated, indicating that the pattern is not completely uniform and that small changes can affect the interpretation of the system.

Within this area appears a lexical key, explicitly identified in the heading as being by Dailor Varela. The legend presents the concepts incomunicabilidade and comunicabilidade in association with distinct graphic signs. The page therefore provides the viewer with an instrument for interpreting visual differences within the composition.

The use of a lexical key is especially significant within the context of Poema Processo. Instead of explaining the work through conventional literary discourse, the document establishes correspondences between symbols and concepts. The reader must identify signs, compare occurrences and construct relationships between graphic code and meaning. Reading becomes an act of decoding.

The concepts of communicability and incommunicability are particularly relevant to the history of the movement, which investigated processes of communication, circulation of information and the construction of language beyond the traditional sentence. On this page, communication and the absence of communication become visual and operational components of the poem.

The composition therefore brings together word, repetition, sign, texture, circles, contrast, code, lexical key and spatial organization. None of these elements needs to function independently. Meaning is generated precisely through the confrontation among systems. The word LUTO encounters abstract forms, graphic signs receive lexical values and circular structures introduce movement into a field dominated by repetition.

The title Poema Processo, Vírgula e Ponto also has conceptual force. Comma and period are signs of writing associated with interruption, continuity, pause and closure. By placing them in the title of a page devoted to Poema Processo, Moacy Cirne connects verbal punctuation with visual structure and suggests a reflection on historical continuity, interruption and the transformation of language.

The sheet is also an important record of the presence of Neide Dias de Sá within the memory of Poema Processo in 1997. The explicit statement that the composition is based on process poems of the 1960s by Neide Dias de Sá and José Cláudio contributes to documenting their participation in the historical experiments recovered by Moacy Cirne. The mention of the lexical key by Dailor Varela adds another direct connection with the creative and research networks of the movement.

By reorganizing materials from the 1960s within Balaio Incomun in 1997, Moacy Cirne creates an operation of active archival memory. Historical works are not treated merely as documentary objects. They are assembled again, brought into new relationships, displaced and inserted into another visual construction. The memory of Poema Processo is therefore presented as an ongoing process.

Balaio Incomun XI 946 is an important primary source for research on Moacy Cirne, Neide Dias de Sá, Neide Sá, José Cláudio, Dailor Varela, Poema Processo, Poema Processo Vírgula e Ponto, 1967, 1997, 30 years of Poema Processo, process poems of the 1960s, Brazilian visual poetry, experimental poetry, process poetry, communication, incommunicability, communicability, lexical key, visual code, sign, semiotics, repetition, the word LUTO, visual language, graphic art, typographic experimentation, montage, the memory of Brazilian avant garde movements and the history of Poema Processo.