Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 936, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 1 de abril de 1997, apresenta a terceira parte de Para Uma Discografia Amorosamente Porreta
Moacy Cirne
04315 - 1 de Abril de 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
Texto Salsa em português
Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 936, de Moacy Cirne, produzido no Rio de Janeiro em 1 de abril de 1997, apresenta a terceira parte de Para Uma Discografia Amorosamente Porreta, série na qual o poeta, crítico, pesquisador e participante histórico do Poema Processo constrói uma discografia afetiva baseada em música erudita, jazz, choro e música popular brasileira. A folha combina crítica musical, referências culturais, recomendações de exposições e discos, humor, comentário político e intervenção gráfica, características recorrentes da publicação independente de Moacy Cirne.
A seleção musical começa com Wassermusik, também conhecida como Water Music, de Georg Friedrich Händel, em gravação da EMI com Yehudi Menuhin regendo a Bath Festival Orchestra. Moacy Cirne descreve a obra, composta por três suítes orquestrais e datada de 1717, como uma celebração musical marcada por encantamento e sensibilidade. Recomenda ainda outras interpretações, especialmente a de Nikolaus Harnoncourt com o Concentus Musicus Wien e a de Christopher Hogwood com The Academy of Ancient Music. A comparação de diferentes registros evidencia o interesse de Cirne pela interpretação musical e pela história da gravação do repertório clássico.
Em seguida aparece Nocturnes, Jeux e La mer, de Claude Debussy, em edição Grammophon, com Pierre Boulez à frente da Cleveland Orchestra. Cirne caracteriza o encontro entre o impressionismo de Debussy e a leitura de Boulez como especialmente feliz e considera o resultado indispensável. Também menciona uma interpretação de La mer, obra de 1905, realizada por Pierre Monteux com a Orquestra Sinfônica de Boston.
O jazz ocupa posição central com Money Jungle, de Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach, lançado pela Blue Note. O disco é apresentado como resultado de uma sessão realizada em Nova York em 17 de setembro de 1962. Moacy Cirne destaca a qualidade excepcional do encontro entre três figuras fundamentais do jazz e cita peças como Fleurette Africaine, Rem Blues, Switch Blade, Caravan, Solitude e Money Jungle.
Outro registro histórico selecionado é Jam Session, de Charlie Parker, edição Verve. A gravação remete a uma sessão realizada em Los Angeles em julho de 1952 e reúne Parker com músicos como Benny Carter, Johnny Hodges, Ben Webster e Oscar Peterson. Entre as músicas citadas aparecem Jam Blues, What Is This Thing Called Love, What Is New e Funky Blues. A escolha confirma a importância atribuída por Moacy Cirne às grandes sessões coletivas da história do jazz.
A música brasileira aparece com São Pixinguinha, de Pixinguinha, em edição Odeon EMI, gravação de 1977. Moacy Cirne considera o disco um clássico da música popular brasileira e destaca a participação de Altamiro Carrilho ao lado de Pixinguinha, aproximando dois grandes nomes da tradição do choro. O repertório citado inclui Um a Zero, Desprezado, O Gato e o Canário, Samba Fúnebre, Gargalhada, Urubatã, Pula Sapo, Carinhoso, De Mal pra Pior, Samba do Urubu e a célebre Odeon, de Ernesto Nazareth.
A sequência apresenta Tributo a Jacob do Bandolim, por Radamés Gnattali e Camerata Carioca, edição WEA. A gravação de 1980 reúne Radamés Gnattali com a Camerata Carioca e Joel Nascimento como solista. Cirne destaca Retratos, suíte em quatro movimentos dedicada a Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. Também menciona Gostosinho, Conversa Mole, Jacobiana, Doce de Coco, Voo de Mosca, Noites Cariocas e Vibrações. O autor encerra o comentário classificando o trabalho como uma obra prima.
A seção Recomendamos Especialmente amplia a dimensão cultural da folha. Moacy Cirne recomenda Monet no Museu Nacional de Belas Artes, Hélio Oiticica no Centro de Arte Hélio Oiticica, O Passageiro, de Antonioni, no Estação 3, e Bebadosamba, de Paulinho da Viola, disponível nas lojas de discos. Essas indicações mostram o Balaio Incomun funcionando também como agenda cultural, aproximando artes visuais, cinema e música no Rio de Janeiro de 1997.
Na parte inferior da página aparece um Roteiro gastronômico à moda de Chico Doido de Caicó. O texto utiliza humor popular, erotismo e linguagem deliberadamente irreverente para inventar uma lista de pratos especiais, entre eles Bucetaria ao molho de alcaporras, Pirarucu à moda de Jaquerucu, Suruba com pimenta e galinhagem, Vataporra, Chuleta com picanha e buceta, Xoxota com alho, óleo e porra, Pirarucu com pirão de xibiu, Picanha à moda da gota serena e Sorvete de gala esporrada. O roteiro termina com a indicação de que os pratos deveriam ser servidos ao som de 69 violinos. O conteúdo reforça a presença do humor erótico e da provocação verbal na linguagem editorial do Balaio.
As margens da folha contêm intervenções políticas e jornalísticas adicionais. Uma delas recomenda aos alunos de jornalismo a leitura de um artigo de Luis Nassif publicado na revista Imprensa, número 114, sobre Paulo Francis. Outra comenta uma medida provisória de 26 de março e formula uma crítica política relacionada ao governo de Fernando Henrique Cardoso, utilizando a expressão filhote de Collor de Mello e questionando autoritarismo e verniz fascista. Em outra intervenção aparece uma condenação direta à venda da Companhia Vale do Rio Doce, apresentada como um crime contra os brasileiros. Essas notas revelam a articulação constante entre cultura e política característica de Moacy Cirne.
Balaio Incomun XI 936 é documento relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, Poema Processo, poesia experimental brasileira, crítica musical, discografia, jazz, choro, música clássica, música popular brasileira, imprensa alternativa e cultura brasileira dos anos 1990. A folha reúne referências a Georg Friedrich Händel, Yehudi Menuhin, Nikolaus Harnoncourt, Christopher Hogwood, Claude Debussy, Pierre Boulez, Pierre Monteux, Duke Ellington, Charles Mingus, Max Roach, Charlie Parker, Benny Carter, Johnny Hodges, Ben Webster, Oscar Peterson, Pixinguinha, Altamiro Carrilho, Ernesto Nazareth, Radamés Gnattali, Camerata Carioca, Joel Nascimento, Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Claude Monet, Hélio Oiticica, Michelangelo Antonioni, Paulinho da Viola, Luis Nassif, Paulo Francis, Fernando Henrique Cardoso e Companhia Vale do Rio Doce, constituindo um amplo registro da rede musical, artística, jornalística e política mobilizada por Moacy Cirne em 1997.
Salsa text in English
Balaio Incomun, Folha Porreta, XI 936, by Moacy Cirne, produced in Rio de Janeiro on April 1, 1997, presents the third installment of Para Uma Discografia Amorosamente Porreta, a series in which the poet, critic, researcher and historical participant in Poema Processo constructs a personal discography based on classical music, jazz, choro and Brazilian popular music. The sheet combines music criticism, cultural references, exhibition and record recommendations, humor, political commentary and graphic intervention, recurring characteristics of the independent publication created by Moacy Cirne.
The musical selection begins with Wassermusik, also known as Water Music, by Georg Friedrich Händel, in an EMI recording with Yehudi Menuhin conducting the Bath Festival Orchestra. Moacy Cirne describes the work, consisting of three orchestral suites and dating from 1717, as a musical celebration marked by enchantment and sensitivity. He also recommends interpretations by Nikolaus Harnoncourt with Concentus Musicus Wien and Christopher Hogwood with The Academy of Ancient Music. The comparison of different recordings demonstrates the interest of Cirne in musical interpretation and in the recorded history of the classical repertoire.
Next comes Nocturnes, Jeux and La mer by Claude Debussy, released by Grammophon with Pierre Boulez conducting the Cleveland Orchestra. Cirne presents the encounter between the impressionism of Debussy and the interpretation of Boulez as especially successful and considers the result essential listening. He also mentions an interpretation of La mer, the 1905 composition, conducted by Pierre Monteux with the Boston Symphony Orchestra.
Jazz occupies a central position with Money Jungle by Duke Ellington, Charles Mingus and Max Roach, released by Blue Note. The album is identified as the result of a recording session held in New York on September 17, 1962. Moacy Cirne emphasizes the exceptional quality of the encounter among three fundamental figures in jazz and mentions Fleurette Africaine, Rem Blues, Switch Blade, Caravan, Solitude and Money Jungle.
Another historic recording in the selection is Jam Session by Charlie Parker, released by Verve. The album documents a session held in Los Angeles in July 1952 and brings Parker together with musicians including Benny Carter, Johnny Hodges, Ben Webster and Oscar Peterson. Songs mentioned include Jam Blues, What Is This Thing Called Love, What Is New and Funky Blues. The selection confirms the importance that Moacy Cirne attributed to major collective recording sessions in jazz history.
Brazilian music is represented by São Pixinguinha by Pixinguinha, released by Odeon EMI and recorded in 1977. Moacy Cirne regards the album as a classic of Brazilian popular music and emphasizes the participation of Altamiro Carrilho alongside Pixinguinha, bringing together two major figures in the history of choro. The repertoire mentioned includes Um a Zero, Desprezado, O Gato e o Canário, Samba Fúnebre, Gargalhada, Urubatã, Pula Sapo, Carinhoso, De Mal pra Pior, Samba do Urubu and the celebrated Odeon by Ernesto Nazareth.
The selection continues with Tributo a Jacob do Bandolim by Radamés Gnattali and Camerata Carioca, released by WEA. The 1980 recording brings together Radamés Gnattali, Camerata Carioca and Joel Nascimento as soloist. Cirne highlights Retratos, a suite in four movements dedicated to Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros and Chiquinha Gonzaga. He also mentions Gostosinho, Conversa Mole, Jacobiana, Doce de Coco, Voo de Mosca, Noites Cariocas and Vibrações. Cirne concludes by describing the recording as a masterpiece.
The section Recomendamos Especialmente expands the cultural scope of the sheet. Moacy Cirne recommends Monet at the Museu Nacional de Belas Artes, Hélio Oiticica at the Centro de Arte Hélio Oiticica, O Passageiro by Michelangelo Antonioni at Estação 3 and Bebadosamba by Paulinho da Viola in record stores. These recommendations demonstrate how Balaio Incomun also functioned as a cultural guide connecting visual art, cinema and music in Rio de Janeiro in 1997.
At the bottom of the page is a Roteiro gastronômico à moda de Chico Doido de Caicó. The text uses popular humor, eroticism and deliberately irreverent language to invent a list of special dishes with sexually explicit names. The sequence ends with the instruction that the dishes should be served to the sound of 69 violins. This section reinforces the presence of erotic humor, parody and verbal provocation within the editorial language of Balaio.
The margins of the sheet contain additional political and journalistic interventions. One recommends that journalism students read an article by Luis Nassif published in the magazine Imprensa, issue 114, concerning Paulo Francis. Another comments on a provisional measure of March 26 and presents a political criticism connected with the government of Fernando Henrique Cardoso, referring to continuity with the Collor period and questioning authoritarian tendencies. Another marginal intervention directly condemns the sale of Companhia Vale do Rio Doce and presents it as an action against Brazilian interests. These notes reveal the constant relationship between culture and politics in the work of Moacy Cirne.
Balaio Incomun XI 936 is a significant document for research on Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, Poema Processo, Brazilian experimental poetry, music criticism, discography, jazz, choro, classical music, Brazilian popular music, alternative publishing and Brazilian culture during the 1990s. The sheet connects Georg Friedrich Händel, Yehudi Menuhin, Nikolaus Harnoncourt, Christopher Hogwood, Claude Debussy, Pierre Boulez, Pierre Monteux, Duke Ellington, Charles Mingus, Max Roach, Charlie Parker, Benny Carter, Johnny Hodges, Ben Webster, Oscar Peterson, Pixinguinha, Altamiro Carrilho, Ernesto Nazareth, Radamés Gnattali, Camerata Carioca, Joel Nascimento, Jacob do Bandolim, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Claude Monet, Hélio Oiticica, Michelangelo Antonioni, Paulinho da Viola, Luis Nassif, Paulo Francis, Fernando Henrique Cardoso and Companhia Vale do Rio Doce, creating a broad record of the musical, artistic, journalistic and political network mobilized by Moacy Cirne in 1997.
