Balaio Incomun, Folha Porreta, X 855, publicação de Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1996.
Moacy Cirne
04283 - 10 de julho de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
Texto Salsa em português
Balaio Incomun, Folha Porreta, X 855, publicação de Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 10 de julho de 1996. O documento reúne cinema, crítica cultural, humor, provérbios reinventados, participação universitária e referências literárias, dando continuidade ao amplo levantamento de preferências cinematográficas promovido por Moacy Cirne em Balaio Incomun durante 1996. A folha apresenta como núcleo inicial Dez filmes ruins de estimação, expressão que revela a abordagem afetiva, irônica e não convencional de Cirne diante da história do cinema.
A seleção Dez filmes ruins de estimação reúne Sansão e Dalila, de Cecil B. DeMille, 1949, Joana d Arc, de Victor Fleming, 1948, Suplício de uma saudade, de Henry King, 1955, Anastácia, a princesa esquecida, de Anatole Litvak, 1956, O ébrio, de Gilda de Abreu, 1946, La violetera, de Luis César Amadori, 1958, Sissi, a imperatriz, de Ernst Marischka, 1956, Tarzan e a mulher leopardo, de Kurt Neumann, 1946, Cristóvão Colombo, de David MacDonald, 1949, e Os dez mandamentos, de Cecil B. DeMille, 1956.
A denominação filmes ruins de estimação transforma a lista numa espécie de anticânone afetivo. Em vez de selecionar somente obras consideradas artisticamente superiores, Moacy Cirne chama atenção para filmes que podem ser vistos com prazer, nostalgia ou interesse apesar de suas limitações críticas. A relação atravessa épicos bíblicos, melodramas, aventuras, biografias históricas e cinema popular das décadas de 1940 e 1950. Cecil B. DeMille aparece duas vezes, com Sansão e Dalila e Os dez mandamentos, enquanto o cinema brasileiro está representado por O ébrio, dirigido por Gilda de Abreu.
Na sequência aparece a seção Alguns provérbios repensados pelo Balaio. Moacy Cirne reelabora fórmulas da sabedoria popular por meio de humor sexual, irreverência, inversões de sentido, trocadilhos e comentário político. Os textos parodiam provérbios conhecidos e incluem referências explícitas ao desejo, ao comportamento sexual, ao machismo e ao neoliberalismo. Uma das formulações finais ironiza a situação brasileira ao mencionar um país que precisaria de santos e neoliberais. A seção exemplifica o modo como Balaio Incomun combinava cultura popular, linguagem coloquial, erotismo, crítica política e humor provocador.
Na seção Cinema, Os melhores filmes, aparece inicialmente a seleção de Sonia Lúcio Rodrigues de Lima, do Rio de Janeiro, identificada como professora do Departamento de Serviço Social e diretora da ADUFF. Sua lista inclui O nome da rosa, de Jean Jacques Annaud, O quatrilho, de Fábio Barreto, Don Juan DeMarco, de Jeremy Leven, Tomates verdes fritos, de Jon Avnet, Cenas de um casamento, de Ingmar Bergman, Mulher da areia, de Hiroshi Teshigahara, A bela da tarde, de Luis Buñuel, Janela indiscreta e Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock, O grande ditador, de Charles Chaplin, Fantasia, de Walt Disney, Cidadão Kane, de Orson Welles, Terra estrangeira, de Walter Salles Jr. e Daniela Thomas, Bye bye Brasil, de Cacá Diegues, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, A casa dos espíritos, de Bille August, Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder, Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, Como água para chocolate, de Alfonso Arau, Amor e sedução, O garoto, de Charles Chaplin, e Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti.
A lista de Sonia Lúcio Rodrigues de Lima possui especial interesse para a história do cinema brasileiro. O quatrilho, Terra estrangeira, Bye bye Brasil e Vidas secas aparecem ao lado de clássicos internacionais, aproximando Fábio Barreto, Walter Salles Jr., Daniela Thomas, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos de Hitchcock, Bergman, Buñuel, Chaplin, Welles, Kurosawa e Visconti. A identificação de Sonia Lúcio Rodrigues de Lima como professora da UFF e diretora da ADUFF reforça novamente a presença da Universidade Federal Fluminense na rede intelectual de Balaio Incomun.
Outra participação é de Christian Caselli, do Rio de Janeiro, identificado como aluno do Curso de Cinema da UFF. Sua relação apresenta Providence, de Alain Resnais, O anjo exterminador, de Luis Buñuel, Week end, de Jean Luc Godard, 2001 uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, Ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, A marca da maldade, de Orson Welles, Pierrot le fou, de Jean Luc Godard, As três coroas do marinheiro, de Raúl Ruiz, O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, Meu ódio será sua herança, de Sam Peckinpah, Persona, de Ingmar Bergman, Teorema e Salò, de Pier Paolo Pasolini, L Atalante, de Jean Vigo, Estranhos no paraíso, de Jim Jarmusch, Tragam me a cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah, Nosferatu, o vampiro da noite, de Werner Herzog, Vampyr, de Carl Theodor Dreyer, A mulher de todos, de Rogério Sganzerla, e O cozinheiro, o ladrão, a mulher e seu amante, de Peter Greenaway.
A seleção de Christian Caselli reúne cinema de vanguarda, modernismo cinematográfico, cinema experimental, cinema marginal brasileiro e autores fundamentais da história do cinema. A presença de O bandido da luz vermelha e A mulher de todos coloca Rogério Sganzerla em posição de destaque e reforça o interesse da enquete de Balaio pela experiência do cinema marginal brasileiro. A identificação de Caselli como aluno do Curso de Cinema da UFF documenta também a participação direta de estudantes na construção coletiva do repertório cinematográfico promovido pela publicação.
A terceira seleção é de Manoel Gomes, do Rio de Janeiro, identificado como aluno do Curso de Jornalismo da UFF. Sua lista apresenta A rosa púrpura do Cairo, de Woody Allen, A voz da lua, de Federico Fellini, Cidadão Kane, de Orson Welles, Tempos modernos, O grande ditador e Luzes da ribalta, de Charles Chaplin, Blade Runner, de Ridley Scott, Casablanca, de Michael Curtiz, Ligações perigosas, de Stephen Frears, A viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, Brazil, o filme, de Terry Gilliam, O mágico de Oz, de Victor Fleming, Entrevista, de Federico Fellini, Depois de horas, de Martin Scorsese, Perdas e danos, de Louis Malle, Ilha das flores, de Jorge Furtado, Blow Up, de Michelangelo Antonioni, O inquilino e A morte e a donzela, de Roman Polanski, Mamãe é de morte, de John Waters, Amadeus, de Milos Forman, A lenda do santo beberrão, de Ermanno Olmi, e The Doors, de Oliver Stone.
A relação de Manoel Gomes amplia a presença do cinema brasileiro com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, e Ilha das flores, de Jorge Furtado. O conjunto aproxima Cinema Novo, curta metragem brasileiro, cinema norte americano, cinema italiano, cinema francês e cinema de autor. Mais uma vez a UFF aparece como instituição diretamente ligada aos participantes da enquete, agora por meio de um estudante de Jornalismo.
Na parte inferior surge uma seção dedicada a Mario Quintana. Entre os versos legíveis encontra se a reflexão segundo a qual seria preferível para a alma humana fazer maus versos a não fazer nenhum. A frase sintetiza uma defesa do gesto criativo acima de critérios exclusivamente acadêmicos ou perfeccionistas. A presença de Mario Quintana aproxima Balaio Incomun da poesia brasileira moderna e reforça a convivência entre cinema, literatura, humor e criação poética presente na publicação.
Balaio Incomun X 855 constitui um documento expressivo da maneira como Moacy Cirne construía repertórios culturais sem separar rigor crítico de gosto pessoal. A ideia de filmes ruins de estimação questiona os mecanismos tradicionais de formação do cânone e reconhece o valor da memória afetiva e do prazer cinematográfico. Ao mesmo tempo, as listas de Sonia Lúcio Rodrigues de Lima, Christian Caselli e Manoel Gomes ampliam a grande pesquisa cinematográfica de Balaio e documentam a participação de professores e estudantes da Universidade Federal Fluminense.
O exemplar constitui fonte primária relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, cinema, crítica cinematográfica, filmes ruins de estimação, cultura de massa, cinema brasileiro, Cinema Novo, cinema marginal, Rogério Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Jorge Furtado, Walter Salles Jr., Daniela Thomas, Fábio Barreto, UFF, Universidade Federal Fluminense, ADUFF, Sonia Lúcio Rodrigues de Lima, Christian Caselli, Manoel Gomes, Mario Quintana, poesia brasileira, humor, provérbios populares, sátira, Poema Processo, poesia experimental e imprensa independente brasileira dos anos 1990.
Salsa text in English
Balaio Incomun, Folha Porreta, X 855, a publication by Moacy Cirne, Rio de Janeiro, 10 July 1996. The document brings together cinema, cultural criticism, humor, reinvented proverbs, university participation and literary references, continuing the extensive survey of film preferences conducted by Moacy Cirne in Balaio Incomun during 1996. The opening section is entitled Ten beloved bad films, an expression that reveals Cirne's affectionate, ironic and unconventional approach to film history.
The selection includes Samson and Delilah by Cecil B. DeMille, 1949, Joan of Arc by Victor Fleming, 1948, Love Is a Many Splendored Thing by Henry King, 1955, Anastasia by Anatole Litvak, 1956, O ébrio by Gilda de Abreu, 1946, La violetera by Luis César Amadori, 1958, Sissi, the Young Empress by Ernst Marischka, 1956, Tarzan and the Leopard Woman by Kurt Neumann, 1946, Christopher Columbus by David MacDonald, 1949, and The Ten Commandments by Cecil B. DeMille, 1956.
The concept of beloved bad films transforms the list into a kind of affectionate anti canon. Rather than selecting only works regarded as artistically superior, Moacy Cirne calls attention to films that can be enjoyed with nostalgia, pleasure or interest despite their critical limitations. The list moves through biblical epics, melodramas, adventure films, historical biographies and popular cinema of the 1940s and 1950s. Cecil B. DeMille appears twice, with Samson and Delilah and The Ten Commandments, while Brazilian cinema is represented by O ébrio, directed by Gilda de Abreu.
The following section is entitled Some proverbs reconsidered by Balaio. Moacy Cirne rewrites formulas of popular wisdom through sexual humor, irreverence, inversion of meaning, wordplay and political commentary. The texts parody familiar proverbs and contain explicit references to desire, sexual behavior, machismo and neoliberalism. One of the final formulations satirically refers to a country supposedly in need of saints and neoliberals. The section exemplifies the manner in which Balaio Incomun combined popular culture, colloquial language, eroticism, political criticism and provocative humor.
In the Cinema section, The Best Films, the first selection is by Sonia Lúcio Rodrigues de Lima from Rio de Janeiro, identified as a professor in the Department of Social Work and a director of ADUFF. Her list includes The Name of the Rose by Jean Jacques Annaud, O quatrilho by Fábio Barreto, Don Juan DeMarco by Jeremy Leven, Fried Green Tomatoes by Jon Avnet, Scenes from a Marriage by Ingmar Bergman, Woman in the Dunes by Hiroshi Teshigahara, Belle de Jour by Luis Buñuel, Rear Window and Vertigo by Alfred Hitchcock, The Great Dictator by Charles Chaplin, Fantasia by Walt Disney, Citizen Kane by Orson Welles, Foreign Land by Walter Salles Jr. and Daniela Thomas, Bye Bye Brasil by Cacá Diegues, Barren Lives by Nelson Pereira dos Santos, The House of the Spirits by Bille August, The Apartment by Billy Wilder, Dersu Uzala by Akira Kurosawa, Like Water for Chocolate by Alfonso Arau, Amor e sedução, The Kid by Charles Chaplin, and Rocco and His Brothers by Luchino Visconti.
Sonia Lúcio Rodrigues de Lima's list is particularly relevant to Brazilian film history. O quatrilho, Foreign Land, Bye Bye Brasil and Barren Lives appear alongside international classics, placing Fábio Barreto, Walter Salles Jr., Daniela Thomas, Cacá Diegues and Nelson Pereira dos Santos in dialogue with Hitchcock, Bergman, Buñuel, Chaplin, Welles, Kurosawa and Visconti. Her identification as a UFF professor and director of ADUFF once again documents the strong presence of Universidade Federal Fluminense within the intellectual network of Balaio Incomun.
Another contribution comes from Christian Caselli of Rio de Janeiro, identified as a student in the Cinema course at UFF. His selection includes Providence by Alain Resnais, The Exterminating Angel by Luis Buñuel, Weekend by Jean Luc Godard, 2001 A Space Odyssey by Stanley Kubrick, Last Year at Marienbad by Alain Resnais, Touch of Evil by Orson Welles, Pierrot le fou by Jean Luc Godard, Three Crowns of the Sailor by Raúl Ruiz, The Red Light Bandit by Rogério Sganzerla, The Wild Bunch by Sam Peckinpah, Persona by Ingmar Bergman, Teorema and Salò by Pier Paolo Pasolini, L Atalante by Jean Vigo, Stranger Than Paradise by Jim Jarmusch, Bring Me the Head of Alfredo Garcia by Sam Peckinpah, Nosferatu the Vampyre by Werner Herzog, Vampyr by Carl Theodor Dreyer, A mulher de todos by Rogério Sganzerla, and The Cook, the Thief, His Wife and Her Lover by Peter Greenaway.
Christian Caselli's selection brings together avant garde cinema, cinematic modernism, experimental film, Brazilian marginal cinema and major auteurs from film history. The presence of The Red Light Bandit and A mulher de todos gives Rogério Sganzerla a particularly important position and reinforces the survey's interest in Brazilian marginal cinema. Caselli's identification as a Cinema student at UFF also documents the direct participation of students in the collective construction of the cinematic repertoire promoted by Balaio.
The third selection is by Manoel Gomes from Rio de Janeiro, identified as a Journalism student at UFF. His list includes The Purple Rose of Cairo by Woody Allen, The Voice of the Moon by Federico Fellini, Citizen Kane by Orson Welles, Modern Times, The Great Dictator and Limelight by Charles Chaplin, Blade Runner by Ridley Scott, Casablanca by Michael Curtiz, Dangerous Liaisons by Stephen Frears, The Voyage of Captain Fracassa by Ettore Scola, Macunaíma by Joaquim Pedro de Andrade, Brazil by Terry Gilliam, The Wizard of Oz by Victor Fleming, Intervista by Federico Fellini, After Hours by Martin Scorsese, Damage by Louis Malle, Ilha das flores by Jorge Furtado, Blow Up by Michelangelo Antonioni, The Tenant and Death and the Maiden by Roman Polanski, Serial Mom by John Waters, Amadeus by Milos Forman, The Legend of the Holy Drinker by Ermanno Olmi, and The Doors by Oliver Stone.
Manoel Gomes's list expands the presence of Brazilian cinema with Macunaíma by Joaquim Pedro de Andrade and Ilha das flores by Jorge Furtado. The selection brings together Cinema Novo, the Brazilian short film, American cinema, Italian cinema, French cinema and auteur cinema. UFF once again appears as an institution directly connected with the survey through the participation of a Journalism student.
At the bottom of the page there is a section devoted to Mario Quintana. Among the visible lines is a reflection stating that it is preferable for the human soul to make bad verses rather than make none at all. The formulation defends the creative act over exclusively academic or perfectionist criteria. The presence of Mario Quintana connects Balaio Incomun with modern Brazilian poetry and reinforces the coexistence of cinema, literature, humor and poetic creation within the publication.
Balaio Incomun X 855 is an expressive document of the way Moacy Cirne constructed cultural repertoires without separating critical rigor from personal affection. The idea of beloved bad films questions traditional mechanisms of canon formation and recognizes the value of memory and cinematic pleasure. At the same time, the lists by Sonia Lúcio Rodrigues de Lima, Christian Caselli and Manoel Gomes expand the major Balaio film survey and document the participation of professors and students from Universidade Federal Fluminense.
The issue is an important primary source for research on Moacy Cirne, Balaio Incomun, Folha Porreta, cinema, film criticism, beloved bad films, mass culture, Brazilian cinema, Cinema Novo, marginal cinema, Rogério Sganzerla, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Jorge Furtado, Walter Salles Jr., Daniela Thomas, Fábio Barreto, UFF, Universidade Federal Fluminense, ADUFF, Sonia Lúcio Rodrigues de Lima, Christian Caselli, Manoel Gomes, Mario Quintana, Brazilian poetry, humor, popular proverbs, satire, Poema Processo, experimental poetry and Brazilian independent publishing during the 1990s.
