Home Acervo Balaio 927, publicação vinculada a Balaio Incomum e Folha Porreta, organizada no universo editorial de Moacy Cirne em 1997, concebida como homenagem aos trinta anos do Poema Processo, marco histórico situado entre 1967 e 1997.

Balaio 927, publicação vinculada a Balaio Incomum e Folha Porreta, organizada no universo editorial de Moacy Cirne em 1997, concebida como homenagem aos trinta anos do Poema Processo, marco histórico situado entre 1967 e 1997.

Moacy Cirne

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04308 - 1997 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS

Balaio 927, publicação vinculada a Balaio Incomum e Folha Porreta, organizada no universo editorial de Moacy Cirne em 1997, concebida como homenagem aos trinta anos do Poema Processo, marco histórico situado entre 1967 e 1997. A página constitui uma composição de poesia visual e montagem gráfica que articula fragmentos de imagens, corpos, cenas históricas, letras repetidas, formas ópticas, inscrições manuscritas e referências a trabalhos anteriores, transformando a comemoração do movimento em uma síntese visual de memória, experimentação e crítica.

Na parte inferior da página aparece claramente a inscrição 1967 a 1997, 30 anos de Poema Processo, acompanhada pela identificação manuscrita Balaio 927. Esses elementos estabelecem a função comemorativa do documento e o inserem diretamente na história do movimento lançado em 1967, do qual Moacy Cirne participou como poeta, teórico, crítico e articulador.

A composição não utiliza uma narrativa linear. Diferentes imagens e signos são sobrepostos e fundidos em uma única superfície. Na região superior aparecem fragmentos de gravuras históricas extremamente densas, povoadas por figuras humanas, cenas de conflito e estruturas narrativas antigas. Esses fragmentos são intercalados com fotografias de corpos caídos, formando uma sequência marcada por violência, morte, memória e confronto histórico.

Parte dessas imagens remete diretamente ao poema visual Tristes Utópicos, de Dailor Varela, publicado em Balaio 918 em 1996. Naquele trabalho, uma gravura histórica era colocada em relação com a fotografia de um corpo vítima de violência. Em Balaio 927, esses materiais reaparecem integrados a uma composição mais extensa, fazendo da citação visual um mecanismo de memória interna da própria série Balaio.

Na metade inferior e na lateral direita aparece outro núcleo visual formado por numerosas letras A em diferentes escalas, orientações e densidades. Essa massa alfabética também havia aparecido em uma composição anterior de Balaio relacionada ao Soneto Azul com sabor de Chocolate Amargo. Em Balaio 927, o fragmento é reutilizado e combinado com imagens de violência, produzindo uma espécie de montagem retrospectiva.

No interior da massa de letras destaca se uma forma circular construída por numerosos círculos concêntricos. O elemento produz intensa atração óptica e cria contraste entre a irregularidade das letras e a precisão geométrica do círculo. A imagem pode ser percebida como alvo, olho, centro de energia, pulsação ou campo de concentração visual, sem impor uma interpretação definitiva.

Na região inferior podem ser reconhecidos fragmentos manuscritos relacionados a Dailor Varela e a uma formulação próxima de para um país sem memória. Essa presença reforça a dimensão memorial da composição e estabelece uma possível crítica ao esquecimento histórico, questão particularmente pertinente em uma folha que celebra trinta anos de um movimento experimental brasileiro.

A repetição da letra A transforma o alfabeto em matéria plástica. As letras deixam de funcionar apenas como componentes de palavras e passam a formar texturas, ritmos, direções e massas gráficas. Esse procedimento é central para a tradição do Poema Processo, que propôs a superação da dependência do verso e da linguagem verbal convencional em favor de estruturas visuais, signos, operações e processos.

A montagem reúne diferentes tempos. A gravura histórica representa um passado remoto. As fotografias remetem à violência moderna. Os fragmentos de poemas de 1996 introduzem uma memória recente. A inscrição 1967 a 1997 estabelece o arco histórico do Poema Processo. O resultado é uma obra construída sobre camadas de tempo e de memória.

A reutilização de trabalhos anteriores também possui importância conceitual. Em vez de apresentar apenas uma imagem comemorativa inédita, Balaio 927 reorganiza materiais já circulados, fazendo com que a própria história recente de Balaio participe da homenagem aos trinta anos do movimento. A memória editorial transforma se em processo criativo.

A presença de Dailor Varela é particularmente significativa. Artista e poeta ligado historicamente ao Poema Processo, Varela aparece aqui por meio da reutilização de elementos de Tristes Utópicos e de inscrições integradas à composição. Essa relação conecta a fase inicial do movimento nos anos 1960 à continuidade de sua produção e reflexão nos anos 1990.

A página funciona simultaneamente como poema visual, homenagem, documento histórico, montagem e manifesto de permanência. O aniversário de trinta anos não é tratado como comemoração passiva. A composição utiliza imagens de violência, utopia, memória e descontinuidade para sugerir que as questões enfrentadas pela poesia experimental continuam abertas.

Balaio 927 constitui documento fundamental para pesquisas sobre os trinta anos do Poema Processo, Moacy Cirne, Dailor Varela, Balaio Incomum, Folha Porreta, poesia visual brasileira, poesia experimental, memória das vanguardas, montagem, apropriação, poema visual, arte política, violência, utopia, linguagem gráfica, letras como signos, círculos concêntricos, poesia processo e história das vanguardas brasileiras.