Home Acervo Balaio Incomum, Folha Porreta, número XI 912, publicação de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 25 de novembro de 1996.

Balaio Incomum, Folha Porreta, número XI 912, publicação de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 25 de novembro de 1996.

Moacy Cirne

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04302 - 25 de novembro de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS

Balaio Incomum, Folha Porreta, número XI 912, publicação de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 25 de novembro de 1996. Intitulada Brasil, anos 90, a folha apresenta uma ampla cartografia crítica da cultura, da política, da sociedade e do cotidiano brasileiro da década de 1990. A estrutura é organizada em duas grandes colunas, O que existe de melhor e O que existe de pior, formando um inventário pessoal, provocador e fortemente autoral do Brasil segundo Moacy Cirne.

O recurso da enumeração permite ao autor reunir, em uma mesma página, lugares, artistas, escritores, músicos, revistas, jornais, instituições, manifestações culturais, programas de televisão, políticos, comportamentos sociais e questões econômicas. A folha funciona como uma espécie de balanço cultural e político dos anos 1990, no qual preferências estéticas convivem com críticas contundentes às instituições e à vida pública brasileira.

Na coluna O que existe de melhor aparecem inicialmente referências geográficas e afetivas. Moacy Cirne destaca as praias de Natal e arredores, no Rio Grande do Norte, as praias do Ceará e de Pernambuco, o Rio Grande do Sul, Ouro Preto em Minas Gerais, a Chapada Diamantina na Bahia, Trancoso, o Rio do Chico, o Pantanal matogrossense, Ubatuba, a Chapada dos Guimarães, a região do Seridó e a carne de sol de Caicó. O Brasil é apresentado como território cultural formado por paisagens, cidades, comidas, memórias e experiências.

A lista inclui também referências diretamente ligadas à cultura potiguar. Aparecem Chico Doido de Caicó, o poeta visual e artista Anchieta Fernandes, o Seridó, Caicó e outras referências ao Rio Grande do Norte. A presença desses nomes reafirma a importância de Natal e do Nordeste na visão cultural de Moacy Cirne.

No campo das artes visuais, a folha registra nomes como Gilberto Veloso, Arthur Omar, Neide Dias de Sá, Paulo Moura e Luiz Rosenberg Filho. A menção à arte de Neide Dias de Sá possui especial relevância para a história da poesia visual e do Poema Processo, movimento do qual Moacy Cirne participou ativamente e com o qual Neide de Sá esteve profundamente relacionada.

Também são citados músicos e compositores como Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Gal Costa e Marisa Monte. Essa presença coloca música popular brasileira, experimentação sonora e cultura urbana dentro do mesmo panorama de excelência cultural.

Entre escritores, críticos, poetas e referências literárias aparecem Sebastião Nunes, Augusto de Campos, João Miró de Britto e Silviano Santiago, além de revistas e publicações culturais como Imprensa, Imagens, Qüeda, a Biblioteca Nacional, o Jornal do Brasil e outras iniciativas editoriais independentes. A lista reforça a dimensão de Moacy Cirne como leitor atento da produção literária e gráfica brasileira.

A coluna positiva valoriza ainda a luta pelo socialismo, as religiões afro brasileiras, a Teologia da Libertação, a contraliteratura, os quadrinhos alternativos, as traduções de Augusto de Campos, a floresta amazônica, frutas do Norte e do Nordeste e atividades culturais de caráter independente. Essa combinação evidencia uma concepção de cultura que integra criação artística, política, identidade regional, liberdade estética e participação social.

Na coluna O que existe de pior, Moacy Cirne constrói uma crítica igualmente ampla. A lista começa com a ideologia da esperteza e inclui as elites econômicas, Paulo Maluf, a política da Bahia associada a Antônio Carlos Magalhães, o que o autor chama de PSDBFELÊ, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Academia Brasileira de Letras e outras instituições ou práticas consideradas por ele negativas.

A televisão ocupa lugar importante nessa crítica. São mencionados programas, emissoras e figuras televisivas, entre eles Domingo do Faustão, Gugu Liberato, transmissões esportivas da Band, Aqui e Agora, programas evangélicos da Record e Hebe Camargo. O conjunto revela uma crítica ao espetáculo televisivo, à cultura de massa e àquilo que Cirne via como empobrecimento da comunicação brasileira.

No campo literário, aparecem referências negativas à literatura de Paulo Coelho e Lair Ribeiro, reforçando posições críticas já manifestadas em outras Folhas Porretas. O autor também critica o neoliberalismo, o preconceito racial, o preconceito contra homossexuais e aquilo que denomina pseudo excelência acadêmica.

A lista prossegue com nomes políticos, instituições, comportamentos sociais e problemas nacionais. São mencionados turismo devastador, torcidas organizadas de futebol, violência urbana, tráfico de drogas, falência urbana, conservadorismo paulista, miserabilidade social, desmatamento das florestas, os picaretas do Congresso, falta de verbas para educação, política para a universidade, política habitacional, política de reforma agrária e falta de verbas para a saúde.

A parte final amplia a crítica para a organização econômica e social do país. Moacy Cirne menciona a padronização dos shoppings, o padrão global de qualidade, ideias reacionárias e figuras da política nacional como José Sarney, Roberto Campos e Fernando Henrique Cardoso.

A estrutura binária da folha não pretende constituir um levantamento neutro. Trata se de uma cartografia subjetiva e assumidamente crítica. Moacy Cirne constrói um Brasil dividido entre aquilo que considera potência cultural, liberdade, diversidade, criação e resistência e aquilo que identifica como autoritarismo, conservadorismo, desigualdade, banalização midiática e precariedade política.

Brasil, anos 90 é especialmente importante para compreender o repertório cultural de Moacy Cirne. A página reúne poesia, artes visuais, música, quadrinhos, cinema, televisão, literatura, política, religião, geografia, culinária, universidade e movimentos sociais. Poucos documentos sintetizam de maneira tão concentrada a rede de afinidades e rejeições intelectuais do autor durante a década de 1990.

Documento relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomum, Folha Porreta, XI 912, Rio de Janeiro, 25 de novembro de 1996, Brasil anos 90, cultura brasileira, política brasileira, poesia visual, Poema Processo, Neide Dias de Sá, Anchieta Fernandes, Chico Doido de Caicó, Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Gal Costa, Marisa Monte, Luiz Rosenberg Filho, Arthur Omar, Augusto de Campos, Silviano Santiago, Sebastião Nunes, socialismo, Teologia da Libertação, literatura brasileira, quadrinhos alternativos, televisão brasileira, neoliberalismo, racismo, homofobia, universidade, educação, saúde, desigualdade social, política cultural, imprensa alternativa e publicações independentes brasileiras.

TEXTO SALSA EM INGLÊS

Balaio Incomum, Folha Porreta, issue XI 912, a publication by Moacy Cirne produced in Rio de Janeiro on November 25, 1996. Entitled Brasil, anos 90, the sheet presents a broad critical mapping of Brazilian culture, politics, society and everyday life during the 1990s. Its structure is organized into two large columns, O que existe de melhor and O que existe de pior, creating a personal, provocative and strongly authorial inventory of Brazil according to Moacy Cirne.

The use of enumeration allows the author to bring together places, artists, writers, musicians, magazines, newspapers, institutions, cultural practices, television programs, politicians, social behaviors and economic issues on a single page. The sheet functions as a cultural and political assessment of the 1990s in which aesthetic preferences coexist with forceful criticism of Brazilian institutions and public life.

The column O que existe de melhor begins with geographical and emotional references. Moacy Cirne highlights the beaches of Natal and surrounding areas in Rio Grande do Norte, the beaches of Ceará and Pernambuco, Rio Grande do Sul, Ouro Preto in Minas Gerais, Chapada Diamantina in Bahia, Trancoso, the Chico River, the Pantanal region, Ubatuba, Chapada dos Guimarães, the Seridó region and carne de sol from Caicó. Brazil is presented as a cultural territory formed by landscapes, cities, food, memory and lived experience.

The list also contains references directly connected with the culture of Rio Grande do Norte. Chico Doido de Caicó, Anchieta Fernandes, the Seridó region, Caicó and other references to the state appear in the positive column. Their presence reinforces the importance of Natal and Northeastern Brazil within Moacy Cirne's cultural perspective.

In the field of visual arts, the sheet records names such as Gilberto Veloso, Arthur Omar, Neide Dias de Sá, Paulo Moura and Luiz Rosenberg Filho. The reference to the art of Neide Dias de Sá is particularly significant for the history of Brazilian visual poetry and Poema Processo, the movement in which Moacy Cirne participated and with which Neide de Sá was deeply connected.

Musicians and composers including Hermeto Pascoal, Paulinho da Viola, Gal Costa and Marisa Monte are also included. Their presence places Brazilian popular music, sonic experimentation and urban culture within the same panorama of cultural excellence.

Among writers, critics, poets and literary references are Sebastião Nunes, Augusto de Campos, João Miró de Britto and Silviano Santiago, together with magazines and cultural publications such as Imprensa, Imagens, Qüeda, the Biblioteca Nacional, Jornal do Brasil and other independent editorial initiatives. The list reinforces Moacy Cirne's position as an attentive reader of Brazilian literary and graphic production.

The positive column also values the struggle for socialism, Afro Brazilian religions, Liberation Theology, contraliterature, alternative comics, translations by Augusto de Campos, the Amazon forest, fruits from Northern and Northeastern Brazil and independent cultural activities. This combination reveals a conception of culture integrating artistic creation, politics, regional identity, aesthetic freedom and social participation.

In the column O que existe de pior, Moacy Cirne constructs an equally broad critique. The list begins with the ideology of cleverness and includes economic elites, Paulo Maluf, Bahia politics associated with Antônio Carlos Magalhães, what the author calls PSDBFELÊ, the Universal Church of the Kingdom of God, the Brazilian Academy of Letters and other institutions or practices he considers negative.

Television occupies an important place in this criticism. Programs, broadcasters and television personalities are mentioned, including Domingo do Faustão, Gugu Liberato, sports broadcasts on Band, Aqui e Agora, evangelical programs on Record and Hebe Camargo. Together they reveal a critique of television spectacle, mass culture and what Cirne perceived as the impoverishment of Brazilian communication.

In the literary field, negative references are made to the literature of Paulo Coelho and Lair Ribeiro, reinforcing critical positions already expressed in other Folha Porreta issues. The author also criticizes neoliberalism, racial prejudice, prejudice against homosexuals and what he calls pseudo academic excellence.

The list continues with political figures, institutions, social behaviors and national problems. It mentions destructive tourism, organized football supporters, urban violence, drug trafficking, urban collapse, São Paulo conservatism, social misery, deforestation, corrupt members of Congress, lack of funds for education, policies concerning universities, housing policy, agrarian reform and insufficient health funding.

The final section expands the criticism to the economic and social organization of the country. Moacy Cirne mentions the standardization of shopping centers, the global quality standard, reactionary ideas and national political figures including José Sarney, Roberto Campos and Fernando Henrique Cardoso.

The binary structure of the sheet is not intended as a neutral survey. It is a subjective and explicitly critical cartography. Moacy Cirne constructs a Brazil divided between what he sees as cultural strength, freedom, diversity, creativity and resistance and what he identifies as authoritarianism, conservatism, inequality, media trivialization and political precariousness.

Brasil, anos 90 is especially important for understanding Moacy Cirne's cultural repertoire. The page brings together poetry, visual art, music, comics, cinema, television, literature, politics, religion, geography, food, universities and social movements. Few documents summarize so densely the author's network of intellectual affinities and rejections during the 1990s.

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