Balaio Incomum, Folha Porreta, número XI 908, publicação de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 21 de novembro de 1996.
Moacy Cirne
04299 - 21 de Novembro de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel
33 x 21,5 cm
TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS
Balaio Incomum, Folha Porreta, número XI 908, publicação de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 21 de novembro de 1996. A folha reúne sátira política, poesia experimental, jogos verbais, crítica cultural e textos de colaboradores, constituindo um documento expressivo do caráter irreverente, literário e político de Balaio Incomum na década de 1990. O principal núcleo da página é As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira, apresentado como elaboração iniciada a partir de 1951.
Moacy Cirne estrutura As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira como uma lista satírica de sete personagens da política nacional. São identificados Fernando Collor de Mello, denominado no texto Collor de melleca e associado à expressão A Besta de Bosta, com indicação AL, Jânio Quadros, SP, Paulo Maluf, SP, Antônio Carlos Magalhães, BA, Carlos Lacerda, RJ, José Sarney, MA, e Fernando Henrique Cardoso de Mello, SP. A enumeração transforma o modelo tradicional dos sete pecados ou pragas em instrumento de crítica política brasileira.
O procedimento é característico do humor de Moacy Cirne. Nomes de políticos, referências estaduais, insultos inventados e associações grotescas são utilizados para desmontar a solenidade da linguagem institucional. A política aparece submetida ao sarcasmo, à paródia e à invenção lexical, revelando uma prática crítica na qual literatura e comentário político tornam se inseparáveis.
Logo abaixo aparece uma composição intitulada JAZZ, atribuída a Antônio Morais de Carvalho, PB. O texto organiza uma sequência de transformações fonéticas e nominais iniciada por Billie Holiday e progressivamente alterada em Billie Hotday, Billie Dirtday, Billie Birthday, Billie Birdday, Charlie Birdday, Charlie Bird, Charlie Parker, Charlie Baker e Chet Baker. A composição constrói uma cadeia de deslocamentos sonoros que conecta nomes fundamentais do jazz por meio da semelhança fonética e do jogo verbal.
O poema JAZZ funciona como exercício de transformação linguística. Billie Holiday, Charlie Parker e Chet Baker deixam de aparecer apenas como referências musicais e passam a integrar um processo de mutação da palavra. A estrutura demonstra como pequenas alterações fonéticas podem conduzir de um nome a outro, transformando cultura musical em matéria de poesia experimental.
Na lateral direita encontra se Bostiário, atribuído a Andréa Dutra, Jornalismo UFF, terceiro e quarto períodos. O texto é composto por uma extensa coluna de palavras satíricas e neologismos formados pela combinação de profissões, comportamentos, categorias sociais e termos depreciativos.
Entre as formas visíveis aparecem advoratos, aristobregas, artiticas, bogaites, burropatas, burrocratas, caretistas, chatólogos, cínicos gerais, deduristas, ecomissos, economalas, eso his téricos, fanaticômicos, filosofrouxos, filosofistas, filosofólogos, gigoleiros, homeopatos, inteligurros, inteligatos, inteligues, jornalixos, lacanetas, medicuzinhos, nazistrumes, ombudsmen, poeteiros, politiburros, psicaretas, reacionários, saudoxistas, turistotários, urubulinos, vitimistas e xamães.
Bostiário funciona como inventário crítico de tipos sociais e intelectuais. A deformação lexical transforma palavras reconhecíveis em novos signos de humor e agressividade, explorando os limites entre linguagem popular, sátira, crítica institucional e invenção poética. A presença da indicação Jornalismo UFF também documenta a relação de Balaio Incomum com o ambiente universitário e com a produção de estudantes de Comunicação e Jornalismo.
Na região esquerda encontra se o poema Os Olhos da Rua, de Gerimaldo Nunes, identificado como publicado no Correio das Artes, PB, em 1996. O poema parte da memória do pai observando a rua de maneira particular, conhecendo cada pedra e cada paralelepípedo. O sujeito poético afirma ter roubado do pai seus olhos e passa a olhar e devorar a rua com a mesma fome e o mesmo medo, criando monstros invisíveis para se distrair.
Os Olhos da Rua articula memória familiar, espaço urbano, olhar, imaginação e transmissão de experiência. A rua deixa de ser apenas lugar físico e passa a constituir território de percepção e memória. A referência ao Correio das Artes amplia a rede documental da folha e registra a circulação de poesia entre diferentes publicações brasileiras.
Na região inferior encontra se ainda Três Cantos, de Marcelo Brito, identificado como estudante de Jornalismo da UFF, terceiro período. O poema explora obsessivamente a palavra canto, utilizando suas possibilidades como verbo, substantivo, lugar e ação. A repetição produz simultaneamente ritmo e ambiguidade semântica.
Em Três Cantos, expressões como Canto Canto Canto, o Canto que Canto, no Canto do quarto e o Canto em que estou transformam uma única palavra em múltiplos sentidos. Trata se de um procedimento de economia verbal e repetição que aproxima o texto das experiências de poesia concreta, poesia visual e poesia experimental.
Balaio Incomum XI 908 demonstra a variedade editorial de Moacy Cirne ao reunir sátira política, jazz, poesia urbana, neologismo, produção universitária e jogos de linguagem em uma única folha. Política, música, literatura, humor e ensino universitário aparecem como campos comunicantes.
O documento é especialmente importante para compreender Balaio Incomum como espaço de circulação coletiva. Além de Moacy Cirne, aparecem Antônio Morais de Carvalho, Andréa Dutra, Gerimaldo Nunes e Marcelo Brito, criando uma pequena rede de autores associada à poesia, ao jornalismo, à Universidade Federal Fluminense e a publicações culturais brasileiras.
Documento relevante para pesquisas sobre Moacy Cirne, Balaio Incomum, Folha Porreta, XI 908, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1996, As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira, Fernando Collor de Mello, Jânio Quadros, Paulo Maluf, Antônio Carlos Magalhães, Carlos Lacerda, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, sátira política, Antônio Morais de Carvalho, jazz, Billie Holiday, Charlie Parker, Chet Baker, Andréa Dutra, Bostiário, UFF, Jornalismo, Gerimaldo Nunes, Correio das Artes, Marcelo Brito, poesia experimental, poesia visual, humor, neologismo, imprensa alternativa e publicações independentes brasileiras.
TEXTO SALSA EM INGLÊS
Balaio Incomum, Folha Porreta, issue XI 908, a publication by Moacy Cirne produced in Rio de Janeiro on November 21, 1996. The sheet combines political satire, experimental poetry, verbal games, cultural criticism and contributions by other authors, constituting an expressive document of the irreverent, literary and political character of Balaio Incomum during the 1990s. Its principal section is As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira, presented as a formulation originating from 1951.
Moacy Cirne structures As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira as a satirical list of seven figures from Brazilian political history. The names identified are Fernando Collor de Mello, satirically transformed in the text into Collor de melleca and associated with A Besta de Bosta, with the state indication AL, Jânio Quadros, SP, Paulo Maluf, SP, Antônio Carlos Magalhães, BA, Carlos Lacerda, RJ, José Sarney, MA, and Fernando Henrique Cardoso de Mello, SP. The enumeration transforms the traditional model of seven sins or plagues into an instrument of Brazilian political criticism.
The procedure is characteristic of Moacy Cirne's humor. Names of politicians, state abbreviations, invented insults and grotesque associations are used to dismantle the solemnity of institutional language. Politics is subjected to sarcasm, parody and lexical invention, revealing a critical practice in which literature and political commentary become inseparable.
Below appears a composition entitled JAZZ, attributed to Antônio Morais de Carvalho, PB. The text organizes a sequence of phonetic and nominal transformations beginning with Billie Holiday and progressively changing into Billie Hotday, Billie Dirtday, Billie Birthday, Billie Birdday, Charlie Birdday, Charlie Bird, Charlie Parker, Charlie Baker and Chet Baker. The composition creates a chain of sound transformations connecting major names in jazz through phonetic similarity and verbal play.
The JAZZ poem functions as an experiment in linguistic transformation. Billie Holiday, Charlie Parker and Chet Baker cease to appear merely as musical references and become part of a process of mutation of words. The structure demonstrates how small phonetic alterations can lead from one name to another, transforming musical culture into material for experimental poetry.
On the right side appears Bostiário, attributed to Andréa Dutra, Journalism at UFF, third and fourth semesters. The text consists of an extensive column of satirical words and neologisms formed by combining professions, behaviors, social categories and derogatory expressions.
Among the visible forms are advoratos, aristobregas, artiticas, bogaites, burropatas, burrocratas, caretistas, chatólogos, cínicos gerais, deduristas, ecomissos, economalas, eso his téricos, fanaticômicos, filosofrouxos, filosofistas, filosofólogos, gigoleiros, homeopatos, inteligurros, inteligatos, inteligues, jornalixos, lacanetas, medicuzinhos, nazistrumes, ombudsmen, poeteiros, politiburros, psicaretas, reacionários, saudoxistas, turistotários, urubulinos, vitimistas and xamães.
Bostiário functions as a critical inventory of social and intellectual types. Lexical deformation transforms recognizable words into new signs of humor and aggression, exploring the limits among popular language, satire, institutional criticism and poetic invention. The indication Journalism UFF also documents the relationship of Balaio Incomum with the university environment and with student production in Communication and Journalism.
On the left side appears the poem Os Olhos da Rua by Gerimaldo Nunes, identified as published in Correio das Artes, PB, in 1996. The poem begins with the memory of the poet's father observing the street in a particular way, knowing every stone and every paving block. The poetic voice states that he stole his father's eyes and now looks at and devours the street with the same hunger and fear, creating invisible monsters for distraction.
Os Olhos da Rua connects family memory, urban space, vision, imagination and the transmission of experience. The street becomes more than a physical place and turns into a territory of perception and memory. The reference to Correio das Artes expands the documentary network of the sheet and records the circulation of poetry among different Brazilian publications.
In the lower area appears Três Cantos by Marcelo Brito, identified as a Journalism student at UFF, third semester. The poem obsessively explores the word canto, using its possibilities as verb, noun, location and action. Repetition produces both rhythm and semantic ambiguity.
In Três Cantos, expressions such as Canto Canto Canto, o Canto que Canto, no Canto do quarto and o Canto em que estou transform a single word into multiple meanings. The procedure is based on verbal economy and repetition and brings the poem close to concrete poetry, visual poetry and experimental writing.
Balaio Incomum XI 908 demonstrates Moacy Cirne's editorial range by bringing together political satire, jazz, urban poetry, neologism, university production and language games on a single sheet. Politics, music, literature, humor and university education operate as interconnected fields.
The document is especially important for understanding Balaio Incomum as a space of collective circulation. In addition to Moacy Cirne, the sheet includes Antônio Morais de Carvalho, Andréa Dutra, Gerimaldo Nunes and Marcelo Brito, creating a small network of authors connected with poetry, journalism, Universidade Federal Fluminense and Brazilian cultural publications.
This document is relevant to research on Moacy Cirne, Balaio Incomum, Folha Porreta, XI 908, Rio de Janeiro, November 21, 1996, As Sete Pragas Capitais da Política Brasileira, Fernando Collor de Mello, Jânio Quadros, Paulo Maluf, Antônio Carlos Magalhães, Carlos Lacerda, José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, political satire, Antônio Morais de Carvalho, jazz, Billie Holiday, Charlie Parker, Chet Baker, Andréa Dutra, Bostiário, UFF, Journalism, Gerimaldo Nunes, Correio das Artes, Marcelo Brito, experimental poetry, visual poetry, humor, neologism, alternative press and Brazilian independent publications.
