Home Acervo Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821, é uma publicação autoral de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 14 de maio de 1996.

Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821, é uma publicação autoral de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 14 de maio de 1996.

Moacy Cirne

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04267 - 14 de maio de 1996 - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

Texto Salsa em português

Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821, é uma publicação autoral de Moacy Cirne produzida no Rio de Janeiro em 14 de maio de 1996. O exemplar integra a série comemorativa 1986 a 1996, Dez anos de Balaio, identificada nesta folha como número 11. O documento possui excepcional interesse para a história da poesia experimental brasileira porque reúne cinema, poesia, crítica cultural e, principalmente, um depoimento de Moacy Cirne sobre a origem, os princípios e a importância histórica do movimento Poema Processo, com referência direta a Wlademir Dias Pino, ao Rio de Janeiro, a Natal, à poesia concreta e ao encerramento do movimento em 1972.

A primeira seção apresenta Os Dez Curtas Mais Importantes do Cinema Mundial, seleção na qual Moacy Cirne relaciona dez filmes fundamentais da história do curta metragem e do cinema experimental. A lista começa com Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel, França, 1928. Em seguida aparecem La Jetée, de Chris Marker, França, 1963, Nuit et Brouillard, de Alain Resnais, França, 1956, 79 Primaveras, de Santiago Álvarez, Cuba, 1969, Entr acte, de René Clair, França, 1924, e Blablablá, de Andrea Tonacci, Brasil, 1968.

A seleção prossegue com Dois Homens e um Armário, de Roman Polanski, Polônia, 1958, N U, de Michelangelo Antonioni, Itália, 1948, Fireworks, de Kenneth Anger, Estados Unidos, 1947, e Zuiderzee, de Joris Ivens, Holanda, 1930. O conjunto aproxima surrealismo, documentário experimental, cinema político, cinema de vanguarda, produção brasileira e renovação formal da linguagem audiovisual.

A inclusão de Blablablá, de Andrea Tonacci, dentro de uma lista internacional de dez curtas considerados fundamentais é particularmente significativa para a compreensão da valorização do cinema brasileiro por Moacy Cirne. Tonacci aparece ao lado de Buñuel, Marker, Resnais, Álvarez, Clair, Polanski, Antonioni, Anger e Ivens, situando a experimentação cinematográfica brasileira no interior de uma genealogia internacional de vanguarda.

Outra seção apresenta uma retificação referente ao exemplar anterior da série Dez anos de Balaio. Moacy Cirne informa que o número 171 de Balaio, publicado em 1989 e intitulado PTesão, atingiu 488 cópias e não 460. Com essa correção, permanecia ocupando o sexto lugar entre os Balaios mais copiados e distribuídos até aquele momento. A informação complementa os dados de circulação registrados no exemplar X 820 e constitui fonte documental para a reconstrução da história editorial de Balaio.

Na área central encontra se o poema Mergulho, de Janice Caiafa, identificado como publicado em suplemento de Belo Horizonte em março de 1996. O texto breve utiliza imagens de queda, nada, líquido, água e salvação, construindo uma poesia sintética baseada na relação entre corpo, movimento e experiência sensorial.

A margem esquerda contém a seção Recomendamos Especialmente, organizada verticalmente. Entre as referências aparecem Gregório, de Clara Góes, com texto e Moacyr Góes, no Teatro Glória, A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, em exibição em vários cinemas, e Sin City, Cidade do Pecado, quadrinhos de Frank Miller, disponível em bancas de jornal. A presença conjunta de teatro, cinema e histórias em quadrinhos demonstra mais uma vez o interesse transversal de Moacy Cirne pela cultura contemporânea e pela comunicação de massa.

A seção Cinema, Os Melhores Filmes, registra uma seleção destinada a Jorge Luiz José Maria, do Rio de Janeiro, identificado como livreiro da Livraria Estação Botafogo. A relação contém Um Cão Andaluz, L Age d Or e Viridiana, de Luis Buñuel, Uma Mulher é uma Mulher, de Jean Luc Godard, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, A Regra do Jogo, de Jean Renoir, O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, A Morte Cansada, de Fritz Lang, e Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick.

A lista continua com Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock, Blow Up, de Michelangelo Antonioni, O Criado, de Joseph Losey, Cidadão Kane e Othello, de Orson Welles, Persona, de Ingmar Bergman, Salò, de Pier Paolo Pasolini, Playtime, de Jacques Tati, Manhattan, de Woody Allen, O Touro Indomável, de Martin Scorsese, e Nós que Nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola.

A parte historicamente mais importante do exemplar encontra se na seção final, na qual Moacy Cirne aborda diretamente o Poema Processo. Cirne afirma que quando o Poema Processo surgiu, no final de 1967, no Rio de Janeiro e em Natal, estava em questão uma intervenção semiótica no interior da antiliteratura então vigente, tanto brasileira quanto internacional.

Segundo o texto, o impulso criativo da poesia concreta já chegara ao fim depois da limpeza sígnica proporcionada pelo concretismo e posteriormente pelo neoconcretismo, resultando, segundo Cirne, em um verdadeiro marasmo na área experimental. Essa passagem constitui um testemunho de primeira ordem sobre a maneira como um participante e teórico ligado ao Poema Processo interpretava o contexto cultural no qual o movimento surgiu.

Moacy Cirne afirma que os participantes foram buscar nas origens da própria poesia concreta, mais precisamente no poema espacial de Wlademir Dias Pino, a base produtiva do Poema Processo. Essa afirmação é particularmente relevante para a história do movimento porque estabelece explicitamente Wlademir Dias Pino e o poema espacial como fundamento para o desenvolvimento das propostas processuais.

Cirne define essa base através de duas ideias fundamentais. A primeira é o poema como projeto e não como obra acabada. A segunda é o poema como matriz capaz de mobilizar séries gráficas e não mais como obra fechada. Essas formulações condensam princípios essenciais do Poema Processo e ajudam a compreender sua ruptura com a concepção tradicional de poema como objeto literário definitivo.

O texto situa o movimento dentro de um contexto cultural, político e social marcado por grandes discussões e problematizações. Moacy Cirne caracteriza a proposta contraliterária do grupo como uma autêntica porrada no academicismo e no formalismo, descrevendo a ação do Poema Processo como uma intervenção radical contra estruturas estabelecidas da cultura e da literatura.

Cirne registra ainda que o Poema Processo, enquanto movimento, terminou em 1972. Em seguida observa que em 1997 seriam comemorados trinta anos de seu surgimento e afirma ser o momento de redescobrir o movimento, redimensioná lo e compreendê lo como metacriação. O trecho visível prossegue relacionando a história do Poema Processo às preocupações culturais, antiliterárias, políticas e sociais dos anos 1960.

Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821 é portanto documento fundamental para pesquisas sobre Moacy Cirne e o Poema Processo. Além de seu conteúdo cinematográfico e literário, preserva uma formulação histórica do próprio Cirne sobre o surgimento do movimento em 1967, sua ligação simultânea com Rio de Janeiro e Natal, sua relação crítica com concretismo e neoconcretismo, a importância de Wlademir Dias Pino, os conceitos de poema como projeto e poema como matriz, o caráter contraliterário da proposta e o encerramento do movimento em 1972.

O exemplar constitui fonte relevante para indexação de Moacy Cirne, Poema Processo, Wlademir Dias Pino, poesia concreta, neoconcretismo, poema espacial, poesia experimental brasileira, poesia visual, metacriação, Natal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Andrea Tonacci, Glauber Rocha, Janice Caiafa, Clara Góes, Moacyr Góes, Frank Miller, Jorge Luiz José Maria, Livraria Estação Botafogo, cinema experimental, histórias em quadrinhos, crítica cultural, Balaio Incomun e Folha Porreta.

Salsa text in English

Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821, is an authorial publication by Moacy Cirne produced in Rio de Janeiro on 14 May 1996. The issue belongs to the commemorative series 1986 to 1996, Dez anos de Balaio, and is identified as number 11. The document is of exceptional importance for the history of Brazilian experimental poetry because it brings together cinema, poetry, cultural criticism and, most significantly, a statement by Moacy Cirne about the origins, principles and historical significance of the Poema Processo movement, with direct references to Wlademir Dias Pino, Rio de Janeiro, Natal, concrete poetry and the end of the movement in 1972.

The first section presents Os Dez Curtas Mais Importantes do Cinema Mundial, a selection in which Moacy Cirne identifies ten fundamental films in the history of short and experimental cinema. The list begins with Un Chien Andalou by Luis Buñuel, France, 1928. It continues with La Jetée by Chris Marker, France, 1963, Nuit et Brouillard by Alain Resnais, France, 1956, 79 Primaveras by Santiago Álvarez, Cuba, 1969, Entr acte by René Clair, France, 1924, and Blablablá by Andrea Tonacci, Brazil, 1968.

The selection continues with Two Men and a Wardrobe by Roman Polanski, Poland, 1958, N U by Michelangelo Antonioni, Italy, 1948, Fireworks by Kenneth Anger, United States, 1947, and Zuiderzee by Joris Ivens, Netherlands, 1930. The group brings together surrealism, experimental documentary, political cinema, avant garde filmmaking, Brazilian production and formal innovation in audiovisual language.

The inclusion of Blablablá by Andrea Tonacci among ten films regarded as internationally essential is particularly important for understanding Moacy Cirnes appreciation of Brazilian cinema. Tonacci appears alongside Buñuel, Marker, Resnais, Álvarez, Clair, Polanski, Antonioni, Anger and Ivens, placing Brazilian cinematic experimentation within an international avant garde genealogy.

Another section contains a correction concerning the previous issue of the Dez anos de Balaio series. Moacy Cirne states that Balaio number 171, published in 1989 under the title PTesão, reached 488 copies rather than 460. With this correction it remained in sixth place among the most copied and distributed Balaio issues up to that date. This information supplements the circulation data recorded in issue X 820 and provides documentary evidence for reconstructing the editorial history of Balaio.

The central area contains the poem Mergulho by Janice Caiafa, identified as having appeared in a Belo Horizonte supplement in March 1996. The short poem employs images of falling, nothingness, liquid, water and rescue, constructing a condensed poetic experience based on body, movement and sensory perception.

Along the left margin is the vertically arranged section Recomendamos Especialmente. References include Gregório by Clara Góes, with text and Moacyr Góes, at Teatro Glória, A Bela da Tarde by Luis Buñuel, showing in several cinemas, and Sin City, Cidade do Pecado, the comic by Frank Miller, available at newsstands. The combination of theatre, cinema and comics again demonstrates Moacy Cirnes interdisciplinary interest in contemporary culture and mass communication.

The section Cinema, Os Melhores Filmes records a selection dedicated to Jorge Luiz José Maria from Rio de Janeiro, identified as a bookseller at Livraria Estação Botafogo. The list includes Un Chien Andalou, L Age d Or and Viridiana by Luis Buñuel, A Woman Is a Woman by Jean Luc Godard, Deus e o Diabo na Terra do Sol by Glauber Rocha, The Rules of the Game by Jean Renoir, Battleship Potemkin by Sergei Eisenstein, Destiny by Fritz Lang and Dr. Strangelove by Stanley Kubrick.

The list continues with North by Northwest by Alfred Hitchcock, Blow Up by Michelangelo Antonioni, The Servant by Joseph Losey, Citizen Kane and Othello by Orson Welles, Persona by Ingmar Bergman, Salò by Pier Paolo Pasolini, Playtime by Jacques Tati, Manhattan by Woody Allen, Raging Bull by Martin Scorsese and We All Loved Each Other So Much by Ettore Scola.

The historically most significant section appears at the bottom of the sheet, where Moacy Cirne directly discusses Poema Processo. Cirne states that when Poema Processo emerged at the end of 1967 in Rio de Janeiro and Natal, what was at stake was a semiotic intervention within the antiliterature then current in both Brazil and the international context.

According to the text, the creative impulse of concrete poetry had reached its end after the process of sign purification introduced by concretism and subsequently by neoconcretism, leaving what Cirne describes as a genuine stagnation in the experimental field. This passage is a first hand historical statement about how an intellectual directly connected with Poema Processo interpreted the cultural environment from which the movement emerged.

Moacy Cirne states that they therefore searched within the origins of concrete poetry itself, and more precisely in the spatial poem of Wlademir Dias Pino, for the productive basis of Poema Processo. This is particularly significant for the history of the movement because it explicitly identifies Wlademir Dias Pino and the spatial poem as foundations for Process Poetry.

Cirne describes this foundation through two essential ideas. The first is the poem understood as a project rather than a completed work. The second is the poem understood as a matrix capable of generating graphic series rather than as a closed work. These formulations summarize central principles of Poema Processo and help explain its break with conventional understandings of the poem as a definitive literary object.

The movement is situated within a cultural, political and social context characterized by intense debate and questioning. Moacy Cirne describes its counterliterary proposal as a radical blow against academicism and formalism, presenting Poema Processo as an intervention against established structures of literature and culture.

Cirne also records that Poema Processo as an organized movement ended in 1972. He then observes that 1997 would mark thirty years since its emergence and argues that the movement should be rediscovered, reassessed and understood as metacreation. The visible continuation links the history of Poema Processo with the cultural, antiliterary, political and social concerns of the 1960s.

Balaio Incomun, Folha Porreta, X 821 is therefore a fundamental document for research on Moacy Cirne and Poema Processo. Beyond its cinematic and literary content, it preserves Cirnes own historical formulation of the emergence of the movement in 1967, its simultaneous connection with Rio de Janeiro and Natal, its critical relationship with concretism and neoconcretism, the central role of Wlademir Dias Pino, the concepts of the poem as project and poem as matrix, its counterliterary character and the end of the organized movement in 1972.

The issue is highly relevant for indexing Moacy Cirne, Poema Processo, Wlademir Dias Pino, concrete poetry, neoconcretism, spatial poem, Brazilian experimental poetry, visual poetry, metacreation, Natal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Andrea Tonacci, Glauber Rocha, Janice Caiafa, Clara Góes, Moacyr Góes, Frank Miller, Jorge Luiz José Maria, Livraria Estação Botafogo, experimental cinema, comics, cultural criticism, Balaio Incomun and Folha Porreta.