Home Acervo Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807, é uma publicação autoral e experimental de Moacy Cirne, produzida no Rio de Janeiro em 26 de março de 1996.

Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807, é uma publicação autoral e experimental de Moacy Cirne, produzida no Rio de Janeiro em 26 de março de 1996.

Moacy Cirne

-Balaio+Incomum+,+Folha+Porreta+,+Moacy+Cirne+,+X-807,+Rio+de+Janeiro+26+de+Março+de+1996,+Teste+seus+Conhecimentos+Politicos+.jpg

04260 - 26 de março de 1996. - Impressão Gráfica Offset Sobre Papel

33 x 21,5 cm

Texto Salsa em português

Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807, é uma publicação autoral e experimental de Moacy Cirne, produzida no Rio de Janeiro em 26 de março de 1996. A folha apresenta o título Teste seus Conhecimentos Políticos e articula sátira política, poesia, humor, linguagem popular, crítica social, referências literárias e experimentação gráfica. O documento integra a produção independente de Moacy Cirne na década de 1990 e constitui fonte relevante para o estudo de sua atuação como poeta, crítico, ensaísta e participante das redes brasileiras de poesia experimental e circulação alternativa.

A parte superior da publicação é ocupada por Teste seus Conhecimentos Políticos, estruturado como um questionário de múltipla escolha. Moacy Cirne utiliza a forma aparentemente didática de um teste para construir uma sátira da política brasileira da década de 1990. O texto menciona Carlos Heitor Cony e uma crônica publicada na FSP, referência à Folha de S.Paulo, além de Fernando Henrique Cardoso, apresentado através de deformações humorísticas de seu nome, o PFL e o político baiano Antônio Carlos Magalhães. Também aparecem Paulo Maluf e Paulo Francis como elementos de um jogo de identidades e associações satíricas.

O questionário transforma nomes, expressões e classificações políticas por meio de neologismos, trocadilhos e palavras deliberadamente deformadas. A conclusão afirma ironicamente que o leitor capaz de responder positivamente às questões possuiria elevado conhecimento da política conservadora da terra tupiniquim. A estrutura revela uma estratégia característica da escrita de Cirne, na qual crítica política, paródia, humor verbal e invenção linguística tornam se inseparáveis.

Na metade inferior aparece a seção Poemas de Chico Doido de Caicó. O personagem é apresentado humoristicamente como membro da Academia Brasileira de Letras, cadeira 69, patrono dos formandos de Comunicação em fevereiro de 1993 e patrono da Semana Acalorada de Comunicação em janeiro de 1996. Essas indicações assumem caráter paródico e integram a construção ficcional do personagem.

Um dos poemas é organizado pela repetição da expressão Sou doido e enumera mulheres, cachaça, dinheiro, Caicó, o mar, violão, lua cheia, conversa de bar e arruaça, terminando com a afirmação de que o personagem é doido propriamente dito. O procedimento combina oralidade, repetição, ritmo, enumeração e referências à cultura nordestina, destacando especialmente Caicó, no Rio Grande do Norte.

Outro poema trabalha com a ideia de uma monumental falta de memória conservada em álcool e desloca o discurso para a história política brasileira. O eu poético declara não ter relação com política e imediatamente dirige uma violenta invectiva contra Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil durante parte da ditadura militar. A contradição entre a declaração de afastamento político e a manifestação explícita de julgamento político intensifica o caráter irônico do texto.

A folha contém ainda poema de forte conteúdo erótico e sexual, construído por meio de linguagem coloquial e explícita, além de uma intervenção lateral atribuída a Bertolt Brecht, acompanhada da indicação de tradução de Haroldo de Campos. A presença conjunta de Chico Doido de Caicó, Bertolt Brecht, Haroldo de Campos, Carlos Heitor Cony, Fernando Henrique Cardoso, Antônio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, Paulo Francis e Emílio Garrastazu Médici cria uma rede de referências que atravessa literatura, poesia, jornalismo, política e história brasileira.

Graficamente, o exemplar utiliza composição datilográfica, diferentes direções de leitura e textos posicionados verticalmente nas margens. Essa disposição transforma a página em campo visual e aproxima Folha Porreta das práticas de poesia experimental, poesia visual, edição alternativa e publicação de artista. Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807 documenta a maneira como Moacy Cirne combinou crítica política, literatura, cultura popular, humor, erotismo, poesia e invenção tipográfica em uma publicação independente realizada no Rio de Janeiro em 1996.

Salsa text in English

Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807, is an authorial and experimental publication by Moacy Cirne produced in Rio de Janeiro on 26 March 1996. The sheet is titled Teste seus Conhecimentos Políticos and combines political satire, poetry, humor, popular language, social criticism, literary references and graphic experimentation. The document belongs to Moacy Cirnes independent production of the 1990s and is an important source for the study of his activity as a poet, critic, essayist and participant in Brazilian networks of experimental poetry and alternative publishing.

The upper section contains Teste seus Conhecimentos Políticos, structured as a multiple choice questionnaire. Moacy Cirne uses the apparently educational format of a test to construct a satire of Brazilian politics during the 1990s. The text mentions Carlos Heitor Cony and a column published in FSP, referring to Folha de S.Paulo, as well as Fernando Henrique Cardoso, whose name is humorously transformed, the PFL political party and the politician Antônio Carlos Magalhães from Bahia. Paulo Maluf and Paulo Francis also appear within a satirical game of identities and political associations.

The questionnaire transforms names, expressions and political classifications through neologisms, wordplay and deliberately distorted vocabulary. Its conclusion ironically suggests that a reader able to answer all the questions positively would possess the highest possible knowledge of conservative politics in Brazil. The structure demonstrates a recurring strategy in Cirnes writing, in which political criticism, parody, verbal humor and linguistic invention become inseparable.

The lower half of the sheet contains a section entitled Poemas de Chico Doido de Caicó. The character is humorously presented as a member of the Brazilian Academy of Letters, chair 69, patron of Communication graduates in February 1993 and patron of the Semana Acalorada of Communication in January 1996. These statements function as parody and contribute to the fictional construction of the character.

One poem is structured through the repetition of the expression Sou doido and lists women, cachaça, money, Caicó, the sea, guitar, full moon, bar conversation and disorderly behavior, ending with the declaration that the speaker is literally crazy. The procedure combines orality, repetition, rhythm, enumeration and references to northeastern Brazilian culture, particularly Caicó in Rio Grande do Norte.

Another poem develops the idea of a monumental lack of memory preserved in alcohol and moves toward Brazilian political history. The speaker claims to have nothing to do with politics and immediately delivers a strongly hostile judgment of Emílio Garrastazu Médici, president of Brazil during part of the military dictatorship. The contradiction between political detachment and explicit political condemnation reinforces the irony of the poem.

The sheet also contains a poem with explicit erotic and sexual language and a marginal intervention attributed to Bertolt Brecht with an indication of translation by Haroldo de Campos. The combined presence of Chico Doido de Caicó, Bertolt Brecht, Haroldo de Campos, Carlos Heitor Cony, Fernando Henrique Cardoso, Antônio Carlos Magalhães, Paulo Maluf, Paulo Francis and Emílio Garrastazu Médici creates a network of references connecting literature, poetry, journalism, politics and Brazilian history.

Graphically, the document employs typewritten composition, multiple reading directions and vertically positioned texts along the margins. This arrangement transforms the page into a visual field and connects Folha Porreta with experimental poetry, visual poetry, alternative publishing and artist publication practices. Balaio Incomum, Folha Porreta, X 807 documents the way Moacy Cirne combined political criticism, literature, popular culture, humor, eroticism, poetry and typographic invention within an independent publication produced in Rio de Janeiro in 1996.