Boletim Diário do Museu de Arte e Cultura Popular da Universidade Federal de Mato Grosso, produzido pela Coordenação de Cultura no âmbito do Projeto Cinco e Meia na Biblioteca, datado de 21 de junho de 1984, em Cuiabá, Mato Grosso
Wlademir Dias Pino
03998 - 21 de Junho de 1984 - Publicação conceitual
21,3 x 15 cm
Boletim Diário do Museu de Arte e Cultura Popular da Universidade Federal de Mato Grosso, produzido pela Coordenação de Cultura no âmbito do Projeto Cinco e Meia na Biblioteca, datado de 21 de junho de 1984, em Cuiabá, Mato Grosso. A edição apresenta como tema Poemas Visuais e registra na capa a chamada Fazer é fácil. O documento integra uma sequência de boletins culturais vinculados à Universidade Federal de Mato Grosso, ao Museu de Arte e Cultura Popular, ao Projeto Cinco e Meia na Biblioteca e ao ambiente de experimentação visual relacionado a Wlademir Dias Pino.\n\nA composição gráfica da capa reúne desenhos, símbolos, personagens, números, escrita visual e imagens de caráter experimental. Entre os elementos identificáveis encontra se o nome de Maciej Zembowski, associado a uma sequência de quatro rostos nos quais os números 29, 28, 20 e 26 aparecem integrados às faces. A solução transforma números em elementos figurativos e aproxima imagem, signo e representação humana, procedimento característico da poesia visual e das investigações gráficas que recusam a separação tradicional entre palavra, número e imagem.\n\nNa parte inferior da capa aparece outra composição formada por uma extensa superfície de sinais gráficos, caracteres e inscrições, apoiada visualmente sobre uma figura humana em posição aberta. A obra sugere o peso físico e simbólico da linguagem e transforma a escrita em massa visual. O conjunto evidencia o caráter internacional e experimental da seleção apresentada pelo boletim.\n\nA contracapa reúne reproduções de trabalhos gráficos de diferentes características. Entre elas aparecem uma imagem semelhante a selo postal com a palavra Vague, uma composição com perfil humano, uma estrutura que remete a película cinematográfica, um rosto esquemático, uma ave, uma borboleta e outros fragmentos visuais. A diversidade de técnicas e signos aproxima o documento dos campos da poesia visual, arte postal, colagem, desenho, fotografia, apropriação, arte conceitual e comunicação gráfica.\n\nUm dos elementos mais importantes da edição é o texto Antiprojeto número 1, assinado por Moacyr Cirne. O texto assume forma de instrução artística e propõe uma sequência de ações deliberadamente absurdas e críticas. Inicialmente determina que sejam reunidos uma garrafa de Coca Cola, duas revistas de Tio Patinhas, três cigarros americanos de qualquer marca, quatro produtos da Esso e cinco postais coloridos de preferência do participante. Em seguida, o material deveria ser colocado em uma cesta de lixo, a cesta levada ao chiqueiro ou esgoto mais próximo da residência, fotografada às 11 horas e 33 minutos de um dia ensolarado e a fotografia exposta na principal galeria de arte da cidade.\n\nAs instruções continuam propondo que o participante seja premiado e recuse o prêmio, dance um tango argentino diante dos jurados e permaneça atento. O encerramento convoca o leitor a sonhar, realizar, criticar e participar, relacionando essas ações a uma referência a Bachelard sobre ideias e teorias que sonham e sobre devaneios sem limites. O Antiprojeto número 1 utiliza humor, ironia, apropriação de produtos de consumo, deslocamento de objetos cotidianos e crítica ao sistema institucional da arte. A obra converte instrução, gesto, fotografia, exposição e comportamento em componentes de uma proposição conceitual.\n\nA presença de marcas como Coca Cola e Esso, de produtos culturais de circulação de massa como as revistas de Tio Patinhas e de cigarros americanos introduz uma dimensão crítica ligada ao consumo, à cultura industrial, à presença econômica norte americana e ao imaginário social da América Latina. O deslocamento desses produtos para uma cesta de lixo, um chiqueiro ou esgoto produz uma operação simbólica que subverte seu valor comercial e publicitário.\n\nO Antiprojeto de Moacyr Cirne também questiona os mecanismos de legitimação artística. A fotografia de uma cesta de lixo deveria ser exposta na principal galeria da cidade, o participante deveria receber um prêmio e em seguida recusá lo. Dessa maneira, a obra problematiza simultaneamente o objeto artístico, a fotografia como registro, a exposição, a premiação, o júri e a própria autoridade institucional do circuito de arte.\n\nAs páginas internas ampliam essa discussão por meio de uma montagem visual composta por grandes formas negras abstratas, reproduções fotográficas, sequências de rostos femininos em diferentes expressões, imagens recortadas, uma cabeça humana em grande escala, símbolos, desenhos e uma estrutura esquemática que sugere relações entre visão, imagem, aparelho e observação. O conjunto transforma a página em espaço de montagem e circulação de signos, aproximando poesia visual, montagem gráfica, fotografia, arte conceitual, performance e cultura impressa.\n\nA edição de 21 de junho de 1984 constitui fonte relevante para a história da poesia visual e experimental no Brasil e para o estudo das redes internacionais de circulação artística presentes em Cuiabá durante a década de 1980. O boletim estabelece relações entre Wlademir Dias Pino, Moacyr Cirne, Maciej Zembowski, Universidade Federal de Mato Grosso, Coordenação de Cultura, Museu de Arte e Cultura Popular e Projeto Cinco e Meia na Biblioteca. Também contribui para pesquisas sobre Poema Processo, poesia visual, poesia experimental, arte postal, arte conceitual, performance, instrução artística, fotografia, design gráfico, comunicação visual, cultura de massa e práticas artísticas latino americanas.\n\nSalsa text in English\n\nDaily Bulletin of the Museum of Art and Popular Culture of the Federal University of Mato Grosso, produced by the Culture Coordination within the Five Thirty at the Library Project and dated 21 June 1984 in Cuiabá, Mato Grosso, Brazil. The edition is devoted to Visual Poems and presents the statement Fazer é fácil on its cover. The document belongs to a sequence of cultural bulletins connected to the Federal University of Mato Grosso, the Museum of Art and Popular Culture, the Five Thirty at the Library Project and the environment of visual experimentation associated with Wlademir Dias Pino.\n\nThe graphic composition of the cover combines drawings, symbols, characters, numbers, visual writing and experimental imagery. Among the identifiable elements is the name Maciej Zembowski, associated with a sequence of four faces in which the numbers 29, 28, 20 and 26 are incorporated into human features. This solution transforms numbers into figurative elements and brings together image, sign and human representation, a procedure characteristic of visual poetry and graphic investigations that challenge conventional distinctions between word, number and image.\n\nThe lower section of the cover contains another composition formed by an extensive surface of graphic signs, characters and inscriptions visually supported by a human figure with outstretched limbs. The work suggests the physical and symbolic weight of language and transforms writing into a visual mass. The ensemble demonstrates the international and experimental character of the works selected for the bulletin.\n\nThe back cover brings together reproductions of graphic works with different characteristics. These include an image resembling a postage stamp with the word Vague, a composition with a human profile, a structure suggesting a strip of photographic or cinematic film, a schematic face, a bird, a butterfly and other visual fragments. This diversity of techniques and signs connects the publication to visual poetry, mail art, collage, drawing, photography, appropriation, conceptual art and graphic communication.\n\nOne of the most significant elements in the edition is Antiprojeto número 1 by Moacyr Cirne. The text takes the form of an artistic instruction and proposes a sequence of deliberately absurd and critical actions. It first instructs the participant to gather one bottle of Coca Cola, two Tio Patinhas magazines, three American cigarettes of any brand, four Esso products and five colored postcards of their choice. The material should then be placed in a wastebasket, the basket taken to the pigsty or sewer nearest the participant's residence, photographed at 11 hours and 33 minutes on a sunny day and the photograph exhibited at the principal art gallery in the participant's city.\n\nThe instructions continue by proposing that the participant receive an award and refuse it, dance an Argentine tango before the jury and remain attentive. The conclusion calls on the reader to dream, accomplish, criticize and participate, relating these actions to a reference to Bachelard concerning ideas and theories that dream and unlimited reveries. Antiprojeto número 1 uses humor, irony, appropriation of consumer products, displacement of everyday objects and criticism of the institutional art system. The work transforms instruction, gesture, photography, exhibition and behavior into elements of a conceptual proposition.\n\nThe presence of brands such as Coca Cola and Esso, mass circulation cultural products such as Tio Patinhas magazines and American cigarettes introduces a critical dimension connected to consumption, industrial culture, North American economic presence and the social imagination of Latin America. Moving these products into a wastebasket, pigsty or sewer creates a symbolic operation that subverts their commercial and advertising value.\n\nMoacyr Cirne's Antiprojeto also questions mechanisms of artistic legitimization. A photograph of a wastebasket is to be exhibited in the principal gallery of the city, the participant is to receive an award and then refuse it. In this way the work simultaneously questions the artistic object, photography as documentation, the exhibition system, awards, juries and institutional authority within the art world.\n\nThe internal pages extend this discussion through a visual montage composed of large abstract black forms, photographic reproductions, sequences of female faces displaying different expressions, cut out images, a large scale human head, symbols, drawings and a schematic structure suggesting relationships among vision, image, apparatus and observation. The ensemble turns the page into a field for the montage and circulation of signs, connecting visual poetry, graphic montage, photography, conceptual art, performance and printed culture.\n\nThe edition dated 21 June 1984 is an important source for the history of visual and experimental poetry in Brazil and for the study of international artistic networks present in Cuiabá during the 1980s. The bulletin establishes connections among Wlademir Dias Pino, Moacyr Cirne, Maciej Zembowski, the Federal University of Mato Grosso, the Culture Coordination, the Museum of Art and Popular Culture and the Five Thirty at the Library Project. It is also relevant to research on Poema Processo, visual poetry, experimental poetry, mail art, conceptual art, performance, instruction based art, photography, graphic design, visual communication, mass culture and Latin American artistic practices.


