Wlademir Dias Pino, É preciso o exercício de distorção de letras, 1994. Publicação e projeto gráfico dedicado à investigação da letra como estrutura visual, espacial e variável.
Wlademir Dias Pino
03967 - 1994 - Publicação conceitual
21 x 20,8 cm
Texto para o programa Salsa\n\nWlademir Dias Pino, É preciso o exercício de distorção de letras, 1994. Publicação e projeto gráfico dedicado à investigação da letra como estrutura visual, espacial e variável. O conjunto reúne texto teórico do próprio Wlademir Dias Pino, estudos geométricos, diagramas e composições relacionados à transformação da letra A, à leitura, ao alfabeto, ao Intensivismo, ao poema A Ave, ao Poema Processo e às possibilidades de geração e transformação das formas tipográficas. O material apresenta identificação institucional da UFMT e do Museu de Arte e Cultura Popular.\n\nNo texto, Wlademir Dias Pino parte da observação de que a escrita ocidental deriva de uma convenção horizontal, com leitura da esquerda para a direita, e não diretamente de uma indicação visual produzida por ponteiros ou formas direcionais. Como contraponto, cita experiências do Intensivismo em Cuiabá entre 1948 e 1952 e a própria construção angular de A Ave. Para facilitar o fluxo de leitura, segundo o artista, as letras foram sendo posicionadas frontalmente. Contra essa organização convencional do código alfabético, os intensivistas defendiam a escrita de perfil em oposição à escrita frontal.\n\nEssa questão leva Wlademir Dias Pino a investigar a passagem entre frontalidade e perfil. O artista entende essa operação como resultado do acúmulo das linhas horizontais da escrita e da verticalidade produzida pela coluna. A diversidade de pontos de fuga existentes nas letras indicaria que a leitura não precisa permanecer submetida a uma única organização espacial. A letra A é apresentada como particularmente esclarecedora porque sua parte superior constitui um vértice e porque sua estrutura pode ser submetida a rotações, deformações e mudanças de direção.\n\nO texto introduz uma reflexão histórica ao mencionar a Renascença e uma imagem formada por um homem colocando as mãos sobre os ombros de uma mulher enquanto ela coloca as mãos na cintura dele. Para Wlademir Dias Pino, essa configuração corporal poderia sugerir uma letra maiúscula de determinado período ou classe de formas alfabéticas. A comparação permite distinguir a letra construída pela imagem da palavra, que produz uma imagem em sentido literário. O artista aproxima esse princípio das práticas contemporâneas, observando que os blocos de cores podem atuar como arquitetura da letra e que, na escultura, o símbolo pode alcançar outras intenções e dimensões.\n\nUm dos pontos fundamentais do documento é a crítica à estabilidade do código. Para Wlademir Dias Pino, todo código exige uma direção determinada. A possibilidade de produzir um A simultaneamente maiúsculo e minúsculo introduziria uma ambiguidade dentro desse sistema e colocaria em questão o próprio arbítrio do código. Nesse contexto aparece a formulação Viva o A de alienista, associando experimentação formal, linguagem e desvio das convenções estabelecidas.\n\nO projeto visual permite diferentes versões de formas de forte presença cromática e decorativa. Ao percorrerem o espaço, essas formas deixam de funcionar somente como desenhos sobre uma superfície e passam a possuir potencial ambiental, espacial e escultórico. As imagens presentes na publicação demonstram justamente esse deslocamento. A letra e suas partes são apresentadas como superfícies, módulos, planos, estruturas dobradas e formas capazes de ocupar um campo tridimensional.\n\nA afirmação central É preciso o exercício de distorção de letras sintetiza o método proposto pelo artista. Wlademir Dias Pino demonstra que, a partir da manipulação da letra A, podem surgir outras configurações alfabéticas. Ao virar a forma pode aparecer um V. Alterando sua direção, ela pode aproximar se de sinais direcionais. Com o acréscimo de um bastão ou de novos segmentos, podem surgir configurações semelhantes a outras letras. O interesse não está simplesmente em desenhar alfabetos diferentes, mas em compreender a letra como estrutura passível de rotação, inversão, deslocamento, decomposição e reconstrução.\n\nSegundo o texto, através das transformações ocorridas ao longo dos séculos, o alfabeto teria adquirido um eixo constituído por seis rotações possíveis. Esse princípio transforma a tipografia em um sistema combinatório. A letra deixa de ser considerada apenas como signo fixo e passa a ser analisada segundo seus eixos, direções, áreas, vazios e relações geométricas.\n\nWlademir Dias Pino examina ainda as relações estruturais entre diferentes letras. Na região central de sua configuração, o A pode relacionar se ou opor se ao R e, em determinadas circunstâncias, fundir se visualmente com o M. Essa observação revela uma concepção do alfabeto como sistema de parentescos morfológicos, no qual uma letra contém potencialmente aspectos de outras formas.\n\nUm dos trechos mais importantes para a história das relações entre poesia visual e tecnologia aparece quando Wlademir Dias Pino propõe como situação ideal a criação de uma letra A que, lançada dentro da esfera de um computador, pudesse suportar inúmeras deformações de leitura. Em quantidade suficientemente grande de dimensões de leitura, seria demonstrada a superioridade do processo de leitura e transformação sobre a permanência de um objeto visual estático. A referência ao computador insere a pesquisa de Wlademir Dias Pino em um campo de pensamento combinatório e potencialmente generativo, no qual uma matriz gráfica pode produzir numerosas variantes por meio de operações sistemáticas.\n\nO artista relaciona essa preocupação com direção de leitura e deslocamento à tradição do Poema Intensivista. O texto afirma que essa preocupação com as direções de leitura e com o deslocamento vem do tempo do poema Intensivista, estabelecendo uma continuidade entre suas experiências realizadas em Mato Grosso desde o final da década de 1940 e as pesquisas desenvolvidas em 1994.\n\nOutro conceito relevante é o estudo das áreas das letras e dos contra espaços, identificados como vazios proporcionais entre elas. Wlademir Dias Pino afirma que essas áreas podem ser matematicamente redondas apesar de a massa angular das formas ser percebida visualmente como geométrica. Nelas existiria uma área não visual. Essa formulação amplia a investigação da letra para além do contorno visível e inclui o vazio como componente ativo do sistema gráfico.\n\nO objetivo declarado é provocar um deslocamento múltiplo e simultâneo do leitor, produzindo um feixe angular de espaços reflexos. As inversões aprofundam umas às outras e a própria troca entre letras passa a integrar essa ginástica perceptiva. A leitura transforma se assim em atividade física, espacial e mental, e não apenas em reconhecimento linear de caracteres.\n\nAs duas páginas de imagens associadas ao texto desenvolvem essas ideias graficamente. Uma composição utiliza um campo amarelo em perspectiva do qual partem segmentos escuros em diferentes direções, sugerindo abertura, expansão, rotação e multiplicação de uma matriz. Outra página apresenta uma grande estrutura linear central cercada por pequenos estudos de formas curvas, dobradas, recortadas e projetadas. O conjunto aproxima alfabeto, arquitetura, escultura, design, objeto e ambiente.\n\nÉ preciso o exercício de distorção de letras constitui documento fundamental para o estudo da obra de Wlademir Dias Pino porque articula etapas distintas de sua pesquisa, desde o Intensivismo de Cuiabá e A Ave até suas investigações posteriores sobre alfabetos, tipografia, leitura, espacialidade e computador. O documento demonstra que, para o artista, a letra não é apenas unidade linguística. Ela é matéria visual, código, estrutura matemática, arquitetura, objeto, espaço, possibilidade escultórica e mecanismo de transformação.\n\nO material é especialmente relevante para pesquisas sobre Wlademir Dias Pino, Poema Processo, Intensivismo, Poema Intensivista, A Ave, poesia visual brasileira, poesia experimental, poema sem palavras, tipografia experimental, alfabetos visuais, design gráfico, comunicação visual, semiótica, espacialidade da escrita, leitura não linear, arte computacional, sistemas generativos, escultura, arte ambiental, livro de artista, UFMT, Museu de Arte e Cultura Popular e história da arte experimental brasileira.\n\nENGLISH\nText for the Salsa program\n\nWlademir Dias Pino, The Exercise of Letter Distortion Is Necessary, 1994. Publication and graphic project devoted to the investigation of the letter as a visual, spatial and variable structure. The ensemble combines a theoretical text by Wlademir Dias Pino with geometric studies, diagrams and compositions related to the transformation of the letter A, reading, the alphabet, Intensivism, the poem A Ave, Poema Processo and the possibilities of generating and transforming typographic forms. The material includes the institutional identification of UFMT and the Museum of Popular Art and Culture.\n\nIn the text, Wlademir Dias Pino begins by observing that Western writing derives from a horizontal convention, with reading progressing from left to right, rather than directly from visual indications produced by pointers or directional forms. As a counterpoint, he refers to experiments associated with Intensivism in Cuiabá between 1948 and 1952 and to the angular construction of A Ave. According to the artist, letters were positioned frontally in order to facilitate the flow of reading. Against this conventional organization of the alphabetic code, the Intensivists advocated writing seen in profile rather than frontal writing.\n\nThis problem leads Wlademir Dias Pino to investigate the transition between frontality and profile. He understands the operation as resulting from the accumulation of horizontal lines of writing and the verticality created by the column. The diversity of vanishing points existing within letters suggests that reading does not need to remain subordinated to a single spatial organization. The letter A becomes particularly important because its upper part forms a vertex and because its structure can be subjected to rotations, distortions and changes of direction.\n\nThe text introduces a historical reflection through a reference to the Renaissance and to an image formed by a man placing his hands on the shoulders of a woman while she places her hands on his waist. For Wlademir Dias Pino, this bodily configuration could suggest a capital letter belonging to a particular historical period or class of alphabetic forms. The comparison allows him to distinguish between a letter formed through an image and a word that produces an image in the literary sense. He connects this principle with contemporary practices by suggesting that blocks of color can function as the architecture of a letter and that, in sculpture, the symbol can acquire other intentions and dimensions.\n\nA fundamental issue in the document is the instability of the code. For Wlademir Dias Pino, every code requires a particular direction. The possibility of creating an A that functions simultaneously as an uppercase and lowercase form would introduce ambiguity into the system and question the arbitrary nature of the code itself. Within this context appears the formulation Viva o A de alienista, connecting formal experimentation, language and deviation from established conventions.\n\nThe visual project allows several versions of strongly colored and decorative forms. As these structures occupy space, they cease to operate only as drawings on a surface and acquire environmental, spatial and sculptural potential. The images included in the publication demonstrate this displacement. Letters and their components are presented as surfaces, modules, planes, folded structures and forms capable of occupying three dimensional space.\n\nThe central statement The Exercise of Letter Distortion Is Necessary summarizes the method proposed by the artist. Wlademir Dias Pino demonstrates that manipulating the letter A can produce other alphabetic configurations. Turning the form may generate a V. Changing its direction can transform it into directional signs. By adding a stem or other segments, configurations resembling additional letters can emerge. The objective is not merely to design different alphabets but to understand each letter as a structure capable of rotation, inversion, displacement, decomposition and reconstruction.\n\nAccording to the text, through transformations accumulated over centuries, the alphabet acquired a system based on six rotating axes. This principle transforms typography into a combinatorial structure. Letters are no longer treated exclusively as fixed signs but are analyzed according to axes, directions, areas, voids and geometric relationships.\n\nWlademir Dias Pino also examines structural relationships between letters. In its central region, the A can relate to or oppose the R and under certain conditions can visually merge with the M. This observation reveals an understanding of the alphabet as a system of morphological relationships in which one letter potentially contains aspects of other forms.\n\nOne of the most significant passages for the history of connections between visual poetry and technology appears when Wlademir Dias Pino proposes the ideal creation of an A that, once placed within the sphere of a computer, could support innumerable deformations of reading. With a sufficiently large number of reading dimensions, the process of transformation would demonstrate its superiority over the fixed meaning of a static object. This reference to the computer places the research of Wlademir Dias Pino within a combinatorial and potentially generative field in which a graphic matrix can produce numerous variations through systematic operations.\n\nThe artist connects this concern with reading direction and displacement to the tradition of the Intensivist poem. The text explicitly states that this concern with directions of reading and displacement comes from the period of Intensivist poetry, establishing continuity between his experiments in Mato Grosso beginning in the late 1940s and the research presented in 1994.\n\nAnother important concept is the study of the areas of letters and their counter spaces, understood as proportional voids between forms. Wlademir Dias Pino states that these areas can be mathematically round even when the angular mass is visually perceived as geometric. Within them exists what he describes as a non visual area. This formulation expands the investigation of the letter beyond its visible outline and introduces emptiness as an active component of the graphic system.\n\nThe declared objective is to create a multiple and simultaneous displacement of the reader, producing an angular field of reflected spaces. Inversions deepen one another and the exchange of letters becomes part of this perceptual gymnastics. Reading is therefore transformed into a physical, spatial and mental activity rather than remaining simply a linear recognition of characters.\n\nThe graphic pages associated with the text develop these ideas visually. One composition presents a yellow field in perspective from which dark segments radiate in different directions, suggesting opening, expansion, rotation and multiplication of a matrix. Another page displays a large central linear structure surrounded by smaller studies of curved, folded, cut and projected forms. The ensemble connects alphabet, architecture, sculpture, design, object and environment.\n\nThe Exercise of Letter Distortion Is Necessary is an important document for the study of Wlademir Dias Pino because it connects different stages of his research, from Intensivism in Cuiabá and A Ave to his later investigations into alphabets, typography, reading, spatiality and computers. The document demonstrates that for the artist the letter is not merely a linguistic unit. It is visual matter, code, mathematical structure, architecture, object, space, sculptural possibility and a mechanism of transformation.\n\nThe material is especially relevant to research on Wlademir Dias Pino, Poema Processo, Intensivism, Intensivist poetry, A Ave, Brazilian visual poetry, experimental poetry, poetry without words, experimental typography, visual alphabets, graphic design, visual communication, semiotics, spatial writing, nonlinear reading, computer art, generative systems, sculpture, environmental art, artist books, UFMT, the Museum of Popular Art and Culture and the history of Brazilian experimental art.\n\n



