Colagem de Álvaro de Sá realizada nos anos 1960 a partir de recortes tipográficos de revistas e outros impressos de circulação de massa.
Álvaro de Sá
00210 - 1960s - Colagem Diversas
29 x 41
TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS
Colagem de Álvaro de Sá realizada nos anos 1960 a partir de recortes tipográficos de revistas e outros impressos de circulação de massa. A obra apresenta uma composição visual densa formada por palavras isoladas, fragmentos de frases, mudanças bruscas de escala, letras em vermelho, amarelo, preto e branco e diferentes famílias tipográficas. Inserida no contexto da arte política brasileira e do período do governo militar, a colagem transforma a própria linguagem da imprensa em matéria poética, crítica e visual.
Na parte superior destaca se a palavra VOTO em dimensão monumental. Em torno dela aparecem poeta, paz, show, terrorismo, você e lutando. A proximidade entre voto, poeta, paz, espetáculo, terrorismo e luta estabelece desde o início um campo político marcado por conflito, participação, representação e circulação pública da linguagem.
Ao centro aparece a palavra PICO em grande destaque, cercada por expressões como pela base, tempo, explorar, festa, anda, só vivo, por, vida, terrorismo e derrota. A montagem impede que esses fragmentos sejam compreendidos como uma notícia ou frase contínua. Álvaro de Sá desmonta o discurso editorial e reorganiza suas partes em uma nova sintaxe visual.
Palavras como liberdade, manifesto, terrorismo, derrotado, vitória, união e luta aproximam diretamente a composição do vocabulário político. Ao mesmo tempo, aparecem termos ligados ao cotidiano, ao entretenimento e à cultura de massa, como festa, show, noite, mobiles e escuta. Essa convivência entre política e espetáculo produz uma reflexão sobre a maneira como notícias, publicidade e entretenimento disputam o mesmo espaço comunicacional.
A palavra VIDA surge repetidamente e ganha grande importância semântica. Também são visíveis expressões como Só vivo, Não, Vida, terminou e de novo. A repetição de termos associados a vida, fim e recomeço cria uma tensão entre sobrevivência, violência, continuidade e transformação.
A palavra EU aparece em vermelho junto a você, enquanto outros fragmentos apresentam união, depois, refinar, noite, resgate e vitória. A oposição e aproximação entre eu, você e união introduzem questões relacionadas ao indivíduo, ao coletivo e à participação social. A leitura se constrói por associação, não por sequência narrativa.
A composição apresenta ainda palavras colocadas verticalmente e em direções distintas, ampliando o caráter espacial do poema. O observador precisa movimentar o olhar em várias direções para estabelecer conexões entre os fragmentos. Essa organização rompe com o modelo tradicional de leitura e transforma a página em um campo de operações visuais.
No contexto dos anos 1960, a presença de voto, terrorismo, liberdade, luta, derrota, união, vitória e vida permite relacionar a obra às tensões políticas brasileiras do período. Entretanto, a colagem não oferece uma declaração partidária explícita. Sua dimensão política surge principalmente da fragmentação e recombinação do vocabulário público, revelando contradições e conflitos existentes na linguagem da comunicação de massa.
A obra estabelece forte diálogo com as pesquisas de Álvaro de Sá ligadas à poesia visual e ao Poema Processo. A palavra deixa de funcionar apenas como unidade de discurso e passa a assumir valor de imagem, cor, escala, direção e posição. O significado depende da participação ativa do leitor na reconstrução das relações entre os signos.
Documento de grande relevância para pesquisas sobre Álvaro de Sá, Poema Processo, poesia visual brasileira, poesia experimental, arte política, governo militar, ditadura militar brasileira, colagem de revistas, imprensa, comunicação de massa, voto, liberdade, terrorismo, luta, união, vida, participação política, linguagem gráfica, tipografia, apropriação, semiótica e vanguardas brasileiras dos anos 1960.
TEXTO SALSA EM INGLÊS
Collage by Álvaro de Sá produced during the 1960s using typographic fragments cut from magazines and other forms of mass circulation printed material. The work presents a dense visual composition formed by isolated words, fragments of sentences, abrupt changes of scale, red, yellow, black and white lettering and several different typefaces. Situated within the context of Brazilian political art and the period of military government, the collage transforms the language of the press itself into poetic, critical and visual material.
At the top of the composition the word VOTO appears on a monumental scale. Around it are poeta, paz, show, terrorismo, você and lutando. The proximity of vote, poet, peace, spectacle, terrorism and struggle immediately establishes a political field marked by conflict, participation, representation and the public circulation of language.
At the center the word PICO appears prominently, surrounded by expressions such as pela base, tempo, explorar, festa, anda, só vivo, por, vida, terrorismo and derrota. The montage prevents these fragments from being understood as a continuous news item or sentence. Álvaro de Sá dismantles editorial discourse and reorganizes its components within a new visual syntax.
Words such as liberdade, manifesto, terrorismo, derrotado, vitória, união and luta directly connect the composition with political vocabulary. At the same time, terms related to everyday life, entertainment and mass culture also appear, including festa, show, noite, mobiles and escuta. The coexistence of politics and spectacle creates a reflection on the way news, advertising and entertainment compete within the same field of communication.
The word VIDA appears repeatedly and acquires considerable semantic importance. Expressions such as Só vivo, Não, Vida, terminou and de novo can also be identified. The repetition of terms associated with life, ending and beginning again creates tension among survival, violence, continuity and transformation.
The word EU appears in red near você, while other fragments include união, depois, refinar, noite, resgate and vitória. The opposition and proximity between eu, você and união introduce questions concerning the individual, the collective and social participation. Reading is constructed through association rather than narrative sequence.
The composition also contains words placed vertically and in different orientations, expanding the spatial character of the poem. The viewer must move across the surface in several directions in order to establish connections among the fragments. This organization breaks with conventional reading and transforms the page into a field of visual operations.
Within the context of the 1960s, the presence of vote, terrorism, freedom, struggle, defeat, union, victory and life allows the work to be related to the political tensions of the period in Brazil. However, the collage does not present an explicit partisan declaration. Its political dimension emerges primarily through the fragmentation and recombination of public vocabulary, revealing contradictions and conflicts within the language of mass communication.
The work establishes a strong dialogue with Álvaro de Sá's investigations in visual poetry and Poema Processo. Words cease to function merely as units of discourse and acquire value as image, color, scale, direction and position. Meaning depends on the active participation of the reader in reconstructing relationships among the signs.
This document is highly relevant to research on Álvaro de Sá, Poema Processo, Brazilian visual poetry, experimental poetry, political art, military government, Brazilian military dictatorship, magazine collage, the press, mass communication, voting, freedom, terrorism, struggle, union, life, political participation, graphic language, typography, appropriation, semiotics and Brazilian avant garde practices of the 1960s.


