POVIS | PUBLICAÇÃO EXPERIMENTAL DE POESIA VISUAL, POEMA PROCESSO E ARTE POSTAL
1. BIOGRAFIA EM PORTUGUÊSPovis é uma publicação experimental brasileira dedicada à poesia visual, ao Poema Processo, à arte postal e às formas alternativas de comunicação artística, desenvolvida em Natal, Rio Grande do Norte, durante a década de 1970. Organizada em projetos numerados e conjuntos documentais, a iniciativa reuniu artistas, poetas e pesquisadores brasileiros e estrangeiros vinculados à experimentação gráfica, à poesia de vanguarda e às redes internacionais de Mail Art. José Medeiros, também identificado como J. Medeiros, aparece associado à organização editorial da série, enquanto Falves Silva é documentado como editor de Povis 3, Projeto 22, em 1977.A denominação Povis identifica um conjunto de publicações coletivas e projetos de circulação artística que exploraram as relações entre poema, imagem, informação e participação. Diferentemente de uma revista literária convencional, seus exemplares apresentam características de publicação de artista, reunindo folhas independentes, poemas visuais, composições tipográficas, desenhos, colagens, fotomontagens, intervenções sobre documentos impressos e materiais relacionados à correspondência artística.Sua trajetória está associada à continuidade das experiências do movimento Poema Processo, iniciado publicamente em dezembro de 1967, com manifestações em Natal e no Rio de Janeiro. Os documentos editoriais da série estabelecem relações com uma sequência de projetos experimentais que remonta a 1969 e se desenvolve ao longo da década seguinte. Essas referências indicam uma continuidade de pesquisa e circulação artística, embora não permitam identificar todas as etapas intermediárias como edições independentes de Povis.A documentação preservada permite reconhecer quatro conjuntos identificados como Povis 1, Projeto 16; Povis 2, Projeto 18, Poema/Processo (10 Anos); Povis 3, Projeto 22; e Povis 4/5, Projeto-Documento 4/5. Os registros apresentam diferentes formatos, participantes e características editoriais, revelando uma produção baseada na reunião de contribuições individuais e na articulação entre poesia visual, publicação independente e intercâmbio postal.Povis 4/5, Projeto-Documento 4/5, é associado ao período de 1974 a 1975 e apresenta uma capa organizada pela repetição tipográfica da palavra Povis. A relação impressa de participantes reúne artistas brasileiros e estrangeiros, entre eles Clemente Padín, Ulises Carrión, Adriano Spatola, Giulia Niccolai, Horacio Zabala, Luiz Iurcovich, Robin Crozier, Pauline Smith, Tatsuo Yamamoto, Leonard Frank Duch, Paulo Bruscky, Falves Silva, Unhandeijara Lisboa, Arnaldo Tobias, Hugo Mund Júnior e J. Medeiros.A presença desses nomes documenta conexões entre o Nordeste brasileiro e circuitos experimentais da América Latina, Europa, Estados Unidos e Japão. O intercâmbio de trabalhos, publicações e correspondências permitiu a reunião de diferentes procedimentos artísticos em um mesmo conjunto editorial, sem exigir uniformidade formal ou pertencimento a um único movimento.Entre os trabalhos associados ao Povis 4/5 encontram-se composições visuais de Álvaro de Sá, Clemente Padín, Leonard Frank Duch, Luiz Iurcovich e outros participantes. As contribuições exploram operações com letras, palavras, números, figuras geométricas, fotografias e materiais apropriados da comunicação cotidiana. O conjunto documentado também apresenta trabalhos datados de 1977, circunstância que exige distinguir a data atribuída ao projeto da cronologia das peças individuais e de sua possível incorporação posterior.Povis 1, Projeto 16, registrado em maio de 1977, apresenta um conjunto de trabalhos experimentais e documentos de circulação artística. Seu invólucro identifica o endereço Rua Artur Bernardes, 761, Alecrim, Natal, Rio Grande do Norte, local associado à correspondência e à organização das contribuições.Uma das folhas de apresentação descreve a iniciativa como publicação da vanguarda do Rio Grande do Norte e estabelece continuidade entre o Projeto 1, de 1969, e o Projeto 16, de 1976. O documento associa essa trajetória à síntese entre poema e visualidade, à arte postal e à pesquisa experimental.O conjunto inclui contribuições identificadas com J. Medeiros, Anchieta Fernandes, Paulo Bruscky, Falves Silva, Unhandeijara Lisboa, Vânia Lucila Valério e Aristides S. Klafke. Entre os trabalhos reproduzidos encontram-se composições geométricas, poemas gráficos, intervenções sobre formulários administrativos e experiências de apropriação de imagens impressas.A presença de endereços de participantes de Natal, Recife, João Pessoa e São Paulo evidencia a dimensão interregional da iniciativa. A circulação postal funcionava como instrumento de comunicação, colaboração e distribuição de trabalhos, permitindo conexões entre artistas situados em diferentes cidades.Povis 2, Projeto 18, publicado em 1977, apresenta referência expressa aos dez anos do Poema Processo. Seu invólucro contém as inscrições Povis 2, Projeto 18 e Poema/Processo (10 Anos), situando a publicação no contexto comemorativo iniciado em dezembro de 1977.Entre os documentos reunidos encontra-se a convocatória Expoética 77, destinada a uma exposição experimental em Natal, com abertura prevista para 11 de dezembro de 1977. A proposta relaciona poesia concreta, Poema Processo e arte postal, defendendo a participação ativa do público e a possibilidade de realização de trabalhos que não se limitassem ao objeto artístico convencional.O texto da convocatória estabelece relações com a concepção de obra aberta de Umberto Eco e admite propostas cuja concretização dependesse da intervenção do espectador. Essa formulação aproxima as experiências do Poema Processo das discussões sobre participação, informação e transformação da obra artística.Povis 2 apresenta trabalhos de Álvaro de Sá, Paulo Bruscky, Unhandeijara Lisboa, Eduardo A. Gosson, Leonhard Frank Duch, Julien Blaine, J. Medeiros e outros participantes. Suas páginas documentam poemas visuais, propostas conceituais, composições geométricas, imagens fotográficas e intervenções sobre materiais impressos.Entre as contribuições encontra-se Poesia Viva, projeto de Paulo Bruscky e Unhandeijara Lisboa, datado de 14 de março de 1977, em Recife. O trabalho propõe a manifestação da poesia por meio do corpo, dos gestos e da presença dos participantes no espaço urbano, transformando a experiência coletiva em linguagem artística.Povis 3, Projeto 22, também datado de 1977, é identificado como publicação de Mail Art editada por Falves Silva. O conjunto preservado apresenta a designação Extra, Versão Alternativa Única e incorpora envelope, intervenções postais, trabalhos gráficos, colagens, poemas visuais e referências a correspondentes internacionais.O endereço editorial indicado para essa publicação é Rua Engenheiro José Rocha, 16, Candelária, Natal, Rio Grande do Norte. O deslocamento do endereço e a identificação de Falves Silva como editor documentam uma configuração editorial específica do Projeto 22, distinta daquela registrada nos invólucros de Povis 1 e Povis 2.O conteúdo de Povis 3 inclui Anthropophagia Nordestal 1, de Falves Silva, trabalho que utiliza colagens, fotografias, publicidade e imagens da imprensa para construir composições críticas relacionadas à cultura de massa, à política e às contradições sociais.A documentação apresenta uma extensa relação de artistas da rede internacional de Mail Art, incluindo Anna Banana, Vittore Baroni, John M. Bennett, Richard C. Higgins, Robert Rehfeldt, Julien Blaine, Jorge Caraballo, Paulo Bruscky e Unhandeijara Lisboa. Esses registros indicam a inserção da produção experimental de Natal em circuitos transnacionais de correspondência artística.A estrutura editorial de Povis evidencia uma forma de publicação baseada na colaboração e na multiplicidade de linguagens. A reunião de trabalhos autônomos preservava a identidade dos participantes e, simultaneamente, estabelecia relações entre diferentes pesquisas visuais, poéticas e conceituais.Nesse contexto, o envelope, a folha impressa, o carimbo, a correspondência e o documento administrativo deixavam de funcionar exclusivamente como meios de transmissão e passavam a integrar a construção da obra. A materialidade da comunicação participava da experiência estética, aproximando produção, circulação e recepção.A série constitui um registro da atividade experimental desenvolvida em Natal durante os anos 1970 e de suas relações com artistas de Recife, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e diferentes países. Sua documentação permite estudar a continuidade do Poema Processo, a expansão da poesia visual e a consolidação de redes de arte postal que utilizavam publicações independentes como espaços de criação coletiva.Os exemplares de Povis preservados na Coleção Poema Processo e na Coleção Falves Silva documentam diferentes momentos dessa experiência editorial. O conjunto permite compreender a publicação como instrumento de intercâmbio artístico e como arquivo material das relações estabelecidas entre participantes brasileiros e estrangeiros.
