Dismisura - Alatri Italia
BIOGRAFIA EM PORTUGUÊSDismisura é uma revista italiana de produção e crítica cultural fundada em Frosinone, na região do Lácio, em 1972, por um grupo de escritores, poetas, artistas e intelectuais interessados em literatura, artes visuais, poesia experimental e renovação das linguagens artísticas. O primeiro número corresponde ao ano I, número 1, janeiro e fevereiro de 1972. A descrição bibliográfica original registra Dismisura como rivista bimestrale di produzione e critica culturale, revista bimestral de produção e crítica cultural, publicada em Frosinone. A própria administração municipal de Frosinone reconhece Dismisura como um dos movimentos e projetos culturais relevantes surgidos na cidade.Giovanni Fontana foi um dos fundadores de Dismisura e desempenhou papel fundamental em sua orientação cultural, gráfica e experimental. Em relato autobiográfico, Fontana registra que a revista foi fundada por um grupo de intelectuais locais de diferentes orientações e informa que publicou no primeiro número, em janeiro de 1972, seu texto sobre arte tecnológica e arte popular e uma poesia concreta. A partir desse momento passou a publicar regularmente trabalhos de poesia visual na revista. No número 3, correspondente a maio e junho de 1972, Dismisura publicou duas pranchas de Radio/Dramma, trabalho iniciado por Fontana entre o final da década de 1960 e 1970 e posteriormente situado no cruzamento entre poesia visual, escrita paramusical, fonetismo, teatro, partitura de ação e livro de artista.Essa documentação situa Dismisura desde seus primeiros números dentro de um campo que excedia o modelo convencional de revista literária. Literatura, crítica cultural, poesia concreta, poesia visual, experimentação gráfica, escrita intermedial, teatro e pesquisa sobre os meios de comunicação conviviam em suas páginas. A revista tornou se progressivamente um espaço para a investigação das relações entre palavra, imagem, tipografia, som, corpo, performance e estrutura gráfica, aspectos centrais da transformação internacional da poesia experimental durante as décadas de 1970 e 1980. A trajetória de Giovanni Fontana dentro da publicação é particularmente importante para compreender esse desenvolvimento, pois sua produção transitava entre escrita visual, poesia sonora, performance, dramaturgia e pesquisa intermedial.Alfonso Cardamone aparece documentado como diretor de Dismisura durante parte importante de sua trajetória. Fontes memorialísticas relativas ao ambiente da revista descrevem uma estrutura editorial coletiva em torno de Cardamone, Giovanni Fontana e outros escritores e artistas. Raffaele Manica recordou posteriormente a intensa atuação de Fontana na solicitação de colaborações e na preparação gráfica e tipográfica da revista. Ao longo dos anos, o círculo relacionado a Dismisura incluiu ou aproximou figuras como Raffaele Manica, Elmerindo Fiore, Tarcisio Tarquini, Luca Salvadori e Pietro Tripodo, entre outros autores ligados à literatura e à experimentação artística italiana. Gian Carlo Riccardi também é documentado como um dos promotores da revista cultural Dismisura.A atuação de Dismisura não se limitou à publicação periódica. A revista estruturou uma atividade editorial paralela por meio da coleção Dismisuratesti, destinada a livros, ensaios, poesia e publicações experimentais. Entre os registros documentados encontra se Le lamie del labirinto, de Giovanni Fontana, publicado em Frosinone em 1981 como número 3 da série Dismisuratesti. Em 1983 a coleção publicou Y, de Arrigo Lora Totino, como Dismisuratesti número 9, com prefácio de Giovanni Fontana. Esses exemplos inserem Dismisura diretamente na história editorial da poesia concreta, da poesia visual, da experimentação verbo visual e das publicações de artista italianas.A coleção continuou crescendo durante as décadas seguintes. Um registro bibliográfico de 1994 identifica uma publicação de 182 páginas como Dismisuratesti número 43 e suplemento ao número 111 de Dismisura. Outro registro de 1995 documenta o número 45 da coleção. Há ainda referência a Dismisuratesti número 48 em publicação de 1995. Esses dados demonstram que Dismisura desenvolveu uma atividade editorial continuada que ultrapassava a revista e funcionava como plataforma de edição de livros e textos de autores associados ao seu ambiente cultural.Entre os números temáticos documentados destaca se Dismisura números 63 a 66, janeiro a agosto de 1983, dedicado ao tema Discrittura o dal barocco, com participação de Tomaso Binga e coordenação relacionada a Giovanni Fontana. O conjunto demonstra o interesse da revista por processos de escrita não convencionais e pela expansão visual e material do texto. Em dezembro de 1984, os números 67 a 73 publicaram o texto de Giovanni Fontana Appunti per una poesia pre testuale, documento teórico relevante para o desenvolvimento de sua concepção de poesia intermedial e performativa.Os registros do catálogo nacional italiano confirmam a permanência editorial da revista por um período extenso. Há registros referentes aos números 81 a 85 de 1987, ao número 111 de 1994 e aos números 115 a 117, associados ao período de 1995 a 1997. Posteriormente, o número 120 é identificado como ano XXVIII e a publicação passa a integrar as atividades editoriais do projeto Graffinrete. Nesse estágio, Dismisura é apresentada como rivista semestrale di produzione e critica letteraria, revelando também transformações na periodicidade e na definição editorial ao longo de sua história.Um aspecto particularmente significativo para a história internacional da revista é sua relação com redes de poesia experimental, poesia visual e Arte Postal. Documentação preservada na Coleção Otavio Cutait Abdalla e Gustavo Cutait Abdalla e publicada no site poemaprocesso.com.br registra uma carta em papel timbrado de Dismisura enviada de Alatri, Itália, a J. Medeiros em 28 de fevereiro de 1980. A correspondência trata da exposição internacional Man Will Survive in the 80 Decade, menciona a preparação ou circulação de 200 cópias numeradas e assinadas e duas cópias de reserva e pergunta sobre o recebimento do catálogo de Oggi Poesia Domani. O papel timbrado apresenta referências editoriais relacionadas a Frosinone, Asti e Alatri.Esse documento é particularmente importante porque comprova materialmente a circulação de Dismisura entre Itália e Brasil por meio da rede internacional de correspondência artística. J. Medeiros estava inserido no ambiente brasileiro da poesia experimental e do Poema Processo, e a carta demonstra que a plataforma italiana estabelecia contatos internacionais por meio de convites, múltiplos, catálogos e correspondência postal. A documentação não permite afirmar que Dismisura tenha pertencido institucionalmente ao movimento Poema Processo, mas permite estabelecer uma relação documental direta entre Dismisura e um participante brasileiro vinculado a esse universo experimental.O contexto de Oggi Poesia Domani amplia essa dimensão internacional. Giovanni Fontana registra que a mostra foi organizada em Fiuggi em 1979 em colaboração com Adriano Spatola e apresentou um panorama de experiências verbo visuais, sonoras e performativas internacionais. Fontana aparece naquele período profundamente relacionado ao circuito de Adriano Spatola, Giulia Niccolai, Tam Tam, Baobab e outros projetos que conectavam poesia visual, poesia sonora, performance e publicação experimental. Dismisura deve portanto ser compreendida dentro dessa rede ampliada de intercâmbios, embora cada vínculo institucional deva ser analisado separadamente.A relevância histórica de Dismisura reside precisamente em sua capacidade de articular uma experiência cultural territorial, originada em Frosinone, com circuitos nacionais e internacionais de literatura, poesia experimental e artes intermediais. A revista funcionou simultaneamente como periódico crítico, espaço de produção artística, laboratório gráfico, veículo de poesia visual, núcleo editorial de livros e plataforma de correspondência cultural. Sua longa duração e a existência da coleção Dismisuratesti demonstram continuidade institucional pouco comum entre publicações experimentais independentes surgidas na Itália dos anos 1970.Para a história da poesia visual, da poesia experimental, da Arte Postal, das publicações independentes e das relações culturais entre Europa e América Latina, Dismisura constitui uma fonte documental relevante. No contexto específico do arquivo brasileiro do Poema Processo, sua importância aumenta pela existência de correspondência original de 1980 enviada a J. Medeiros. Essa peça permite inserir Dismisura no mapa documental das redes internacionais através das quais artistas e poetas brasileiros, italianos e de outros países trocaram obras, convites, catálogos, múltiplos, informações e projetos durante o período de expansão global da Mail Art e das práticas poéticas experimentais
