Jornal Kaldron - Karl Kempton editor - USA
BIOGRAFIA EM PORTUGUÊSKarl Kempton é poeta visual, editor, pesquisador, arquivista independente e ativista ambiental norte americano, nascido em 1 de julho de 1943, em Chicago, Illinois, Estados Unidos. Sua trajetória artística está associada à poesia visual, poesia concreta, language art, text art, publicação experimental, arte postal e organização de arquivos e exposições. Tornou se especialmente conhecido como fundador e editor de Kaldron, publicação criada na Califórnia em 1976 e reconhecida como uma das mais duradouras iniciativas norte americanas dedicadas à poesia visual.Kempton concluiu em 1968 uma formação universitária em Ciências e Economia na University of Utah, em Salt Lake City, acompanhada de estudos complementares em Matemática e História. Posteriormente fixou se na região costeira central da Califórnia, onde desenvolveu atividades editoriais, artísticas, ambientais e comunitárias. Além da poesia visual, sua produção intelectual abrange pesquisas sobre cultura indígena Chumash, arqueologia, paisagem, alinhamentos astronômicos, preservação marinha e proteção ambiental.Kaldron começou a ser publicada na primavera de 1976, aproximadamente nove meses depois da mudança de Karl Kempton para Shell Beach, na região norte de Pismo Beach, Califórnia. Os primeiros números combinavam poesia lexical lírica e narrativa com exemplos de poesia visual histórica e contemporânea. A publicação adotava formato tabloide e uma tiragem inicial de mil exemplares por edição. Os números 1 a 10 foram impressos em papel jornal, enquanto os números posteriores utilizaram papel de melhor qualidade e ampliaram gradualmente a quantidade de páginas.Em 1978, a partir do número 8, Karl Kempton reformulou a linha editorial de Kaldron para concentrar seu conteúdo exclusivamente em poesia visual e language art, também definida como visual text art. Essa mudança ocorreu em um período no qual revistas literárias norte americanas publicavam ocasionalmente poesia concreta ou visual, mas poucas iniciativas do país se dedicavam integralmente a essas linguagens. Kaldron tornou se, assim, um fórum especializado para experimentações que aproximavam palavra, imagem, tipografia, caligrafia, desenho, página, objeto, livro e comunicação postal.O nome Kaldron foi associado ao símbolo do fogo no I Ching. A publicação assumiu uma perspectiva internacional e multicultural, acolhendo diferentes escolas, tendências e nacionalidades. Sua política editorial procurava reunir trabalhos de diversas vertentes da poesia visual, sem impor uma estética única. Ao longo de sua história, publicou experimentações tipográficas, poemas concretos, caligrafia, escrita assêmica, livros alterados, poesia de linguagem, arte postal e outras formas intermediárias situadas entre literatura e artes visuais.Um elemento importante do funcionamento de Kaldron era a utilização direta do sistema postal. Os endereços dos colaboradores eram frequentemente publicados junto às obras, favorecendo o contato entre artistas sem a necessidade de intermediação editorial posterior. Karl Kempton descreveu essa estrutura como uma forma eficiente de comunicação, baseada na ligação direta entre os participantes. A distribuição gratuita de parte dos exemplares e a preservação dos direitos autorais pelos colaboradores reforçavam a dimensão cooperativa da iniciativa.A transformação editorial iniciada em 1978 foi acompanhada pela criação da série de exposições Visualog. Para o primeiro projeto, Karl Kempton convidou David Arnold e Patty Arnold para colaborar na curadoria. A exposição foi apresentada na galeria da California Polytechnic State University, em San Luis Obispo. O número 8 de Kaldron e uma edição especial de Cafe Solo funcionaram como publicações e catálogos relacionados à mostra. Dessa forma, revista, catálogo, exposição e rede postal passaram a operar como partes de uma mesma estrutura de circulação da poesia visual.O cartão enviado por Karl Kempton a Falves Silva em 27 de agosto de 1979 documenta uma etapa central desse projeto editorial. No texto datilografado, Kempton identifica Kaldron como um tabloide internacional de poesia visual e convida Falves Silva a enviar poemas visuais para avaliação. O prazo indicado era 3 de dezembro de 1979. O endereço editorial registrado era 441 North 6th Street, Grover City, Califórnia, código postal 93433, Estados Unidos.A convocatória solicitava que os participantes interessados na devolução de trabalhos e em uma resposta editorial enviassem um envelope endereçado a si próprios e com postagem suficiente. Para participantes estrangeiros, recomendava o uso de cupons internacionais de resposta por correio aéreo. Karl Kempton também procurava publicações de poesia visual e language art para resenha, demonstrando que Kaldron exercia funções simultâneas de revista, plataforma crítica, espaço de documentação e instrumento de intercâmbio internacional.O mesmo documento apresenta Kaldron Walls, projeto constituído por dois espaços recentemente obtidos para exibir poesia visual. Falves Silva foi convidado a enviar poemas e publicações para possível apresentação nesses locais. Depois de exibidos em ambos os espaços, os materiais seriam incorporados ao Kaldron Visual Poetry Archives, exceto quando o participante solicitasse a devolução e fornecesse envelope endereçado e selado.A formação do Kaldron Visual Poetry Archives demonstra que Karl Kempton não atuava apenas como editor. Ele também desenvolvia uma prática arquivística voltada à preservação da produção recebida através da revista, das exposições e das correspondências. O arquivo reunia trabalhos enviados por artistas de diferentes países, documentos editoriais, poemas visuais, publicações e materiais relacionados às mostras organizadas por Kempton.A participação de Falves Silva foi confirmada em Kaldron número 9, publicado em Grover City no segundo semestre de 1979. A edição possuía dezesseis páginas, formato tabloide, tiragem de mil exemplares e conteúdo dedicado à poesia visual, language art, visual text art, poesia concreta e mail art. Além de Falves Silva, aparecem relacionados artistas e poetas como Tristan Tzara, D. A. Levy, Armando Zárate, Anthony Gnazzo, Paul Zelevansky, Enoch Domingos, Paulo Bruscky, Ruth Wolf Rehfeldt, Ito Motoyuki, Larry Wendt, Bern Porter e Constantin Xenakis.A presença conjunta de Falves Silva, Enoch Domingos e Paulo Bruscky demonstra a atenção de Kaldron à produção experimental brasileira. Falves Silva havia participado do Poema Processo e desenvolvia uma obra baseada na visualidade da linguagem, na reprodução gráfica, na comunicação postal e em estruturas alternativas de publicação. Sua inclusão em Kaldron estabeleceu uma ligação documental entre a poesia experimental brasileira, o Poema Processo e o circuito norte americano de poesia visual.A correspondência de 27 de agosto de 1979 não deve ser interpretada apenas como uma convocatória genérica. Ela antecede e ajuda a explicar a publicação efetiva de Falves Silva em Kaldron número 9. O cartão registra o contato direto entre editor e artista, o processo de solicitação de trabalhos e a formação de uma rede internacional sustentada por correspondências, revistas, exposições e arquivos.A série impressa de Kaldron desenvolveu se entre 1976 e 1990. Depois de uma interrupção, o projeto foi retomado em ambiente digital em 1997 e continuou até 2017. A edição online foi aberta em 14 de julho de 1997 e contou com Karl Kempton, Karl Young e Harry Polkinhorn em sua estrutura editorial. O ambiente digital permitiu ampliar o acesso a números históricos, estudos, obras de poesia visual, projetos eletrônicos e documentação sobre as exposições e os arquivos relacionados à revista.A trajetória de Kaldron abrangeu publicações impressas, números digitais, exposições Visualog, Kaldron Walls, resenhas, correspondências, arquivos e colaborações editoriais. A iniciativa tornou se conhecida pela diversidade de seus participantes e pela circulação de obras provenientes da Europa, Ásia, Austrália, América Latina, Oriente Médio e Estados Unidos.A documentação de Kaldron e de Karl Kempton integra coleções especializadas em poesia concreta e visual. A University of Iowa registra materiais de Kempton no Ruth and Marvin Sackner Archive of Concrete and Visual Poetry, incluindo convites de submissão para Kaldron. A Ohio State University preserva números da revista na Marilyn R. Rosenberg Collection. O arquivo constituído pelos documentos de Kaldron e de seu editor reúne materiais produzidos entre 1976 e 1990 e entre 1997 e 2017, além de obras, correspondências e registros de exposições.Paralelamente ao trabalho editorial, Karl Kempton participou de movimentos comunitários e ambientais na Califórnia. Foi integrante fundador de organizações contra a energia nuclear durante o final da década de 1970, participou do Indian Heritage Center entre 1979 e 1983 e colaborou com iniciativas de proteção da costa e do oceano. Sua atuação ambiental posterior esteve especialmente relacionada à defesa do patrimônio natural e cultural Chumash e à criação de áreas de proteção marinha.A importância histórica de Karl Kempton reside na integração entre criação artística, edição, curadoria, circulação postal, pesquisa e preservação documental. Kaldron proporcionou continuidade institucional a uma área frequentemente mantida fora dos grandes circuitos editoriais e museológicos. Sua política internacional permitiu que artistas de diferentes continentes fossem apresentados em um mesmo espaço editorial e entrassem diretamente em contato.A relação entre Karl Kempton, Kaldron e Falves Silva documenta a presença brasileira em uma das principais redes norte americanas de poesia visual do final do século vinte. O cartão de 1979, a publicação de Falves Silva no número 9 e a possibilidade de incorporação de obras ao Kaldron Visual Poetry Archives formam um conjunto histórico que conecta o Poema Processo, a mail art, a poesia visual latino americana e a edição experimental dos Estados Unidos.
