Livro de artista e objeto de arte postal intitulado Souvenirs en vrac, que pode ser traduzido como Memórias soltas ou Loose Memories, concebido por Jean Marc Rastorfer em Yangon, Myanmar, em julho de 1997.
Jean Marc Rastorfer - França
03782 - Julho de 1997 - Livro de Artista
10,5 x 8,9 cm
Livro de artista e objeto de arte postal intitulado Souvenirs en vrac, que pode ser traduzido como Memórias soltas ou Loose Memories, concebido por Jean Marc Rastorfer em Yangon, Myanmar, em julho de 1997. O próprio autor define explicitamente a publicação como um objeto de Mail Art e explica que sua estrutura foi planejada para existir de forma dispersa dentro da rede internacional de correspondência artística. O exemplar constitui importante testemunho da transformação do livro de artista em dispositivo coletivo de circulação, troca, recomposição e memória.
Na página inicial aparece manuscrito em vermelho Souvenirs en vrac, seguido do nome Jean Marc Rastorfer e da indicação Yangon, juillet 1997. Em outra área da mesma folha consta a informação de que o material foi desenhado, escrito e publicado na Birmânia, atual Myanmar, acompanhada da indicação em inglês For private circulation only. A inscrição demonstra que a obra não foi concebida prioritariamente para distribuição comercial, mas para circulação privada e dirigida dentro de uma rede de correspondentes.
Na página explicativa, escrita manualmente em francês, Rastorfer declara que o opúsculo é um objeto de Mail Art. Segundo o próprio texto, ele é formado por diversos cadernos e uma capa. Esses cadernos foram distribuídos entre aproximadamente 5000 cartas, todas enviadas a partir de Myanmar. Alguns artistas participantes receberiam diferentes remessas e, por meio das trocas realizadas nos fluxos da Mail Art, poderiam gradualmente reconstruir o livro completo. Rastorfer conclui afirmando que esse pequeno opúsculo poderia ser considerado o primeiro livro que utilizava verdadeiramente os recursos da Mail Art. Essa descrição é particularmente significativa porque transforma a fragmentação física da publicação em sua própria metodologia artística.
A Rare Books and Special Collections da Hesburgh Libraries da University of Notre Dame preserva documentação de outra correspondência de Jean Marc Rastorfer enviada de Yangon no mesmo contexto. O registro descreve material com carimbos Souvenirs en vrac, Art Postal, Yangon Myanmar 1997, além da expressão First True Mail Art Booklet e de instruções segundo as quais as páginas deveriam ser coletadas e reunidas para formar um livro de Mail Art. Essa documentação institucional confirma de maneira independente a concepção distribuída e participativa observada no exemplar aqui apresentado.
A estratégia desenvolvida por Rastorfer desloca radicalmente a ideia tradicional de livro. Em vez de um volume completo produzido e entregue a um leitor, Souvenirs en vrac foi deliberadamente fragmentado. Cada parte circulava autonomamente pelo correio. O livro integral não existia necessariamente em um único lugar, mas como possibilidade dentro da rede. Para reconstruí lo, os participantes precisavam estabelecer contato, reconhecer outros receptores e realizar intercâmbios. A circulação deixa assim de ser apenas o meio de distribuição e torna se parte indispensável da própria obra.
Os textos reproduzidos nas páginas visíveis do exemplar são manuscritos em francês e apresentam lembranças pessoais de Rastorfer relacionadas à sua experiência em Myanmar. Entre os assuntos identificáveis encontram se deslocamentos, encontros com habitantes locais, visitas religiosas, espaços urbanos e experiências familiares. Uma das seções tem o título Famille d'accueil e relata a experiência de ser recebido como um membro da família de um antigo oficial chamado U Min Dang, reabilitado depois de anos de sofrimento durante o período de Ne Win. O texto descreve uma família anteriormente próspera que teria sido dispersada e obrigada a trabalhar nos campos durante anos de repressão.
Outro trecho descreve uma visita a uma catedral e o encontro com pessoas idosas. Rastorfer relata a presença de um velho padre indígena e de uma religiosa, apresentando observações sobre suas trajetórias e sobre as instituições religiosas locais. Em outras páginas ele descreve edifícios religiosos, pagodes, esculturas, imagens e marcas deixadas por diferentes períodos históricos. O livro funciona, portanto, simultaneamente como diário de viagem, relato memorialístico, documento cultural e obra postal.
A relação de Jean Marc Rastorfer com Myanmar ultrapassa esta publicação. Registros bibliográficos atribuem a ele estudos sobre as populações Kayah, Karenni e Kayan, incluindo Les Kayah, les Karenni et les Yang Daeng e estudos sobre o desenvolvimento da identidade nacional Kayan e Kayah. Há também publicação dedicada às tendências da indústria de reprodução de livros em Myanmar em 1997 e 1998. Esses registros ajudam a contextualizar sua permanência e sua atividade intelectual no país.
Rastorfer também possui presença documentada na história da arte postal e dos selos de artista. O Musée d'art et d'histoire de Genève conserva sua publicação Timbres d'artistes II Art postal Mail Art, datada de 1995 e editada em Lausanne. O mesmo museu preserva Karenni des artistes et des timbres 200 mail artists create postage stamps, de 1990, projeto que reuniu aproximadamente 200 artistas de Mail Art em torno da criação de selos de artista. Esses trabalhos revelam uma continuidade clara entre sua pesquisa sobre Myanmar, seus projetos de Artistamps, suas publicações e sua participação na rede internacional de Mail Art.
A circulação de Rastorfer dentro dessa rede é igualmente confirmada pelo Mark Bloch Postal Art Network Archive, preservado pela New York University. O inventário do arquivo registra JM Rastorfer entre os correspondentes associados a Myanmar em 1997, exatamente o período de produção de Souvenirs en vrac. Isso reforça a dimensão internacional do projeto e demonstra que suas remessas originadas em Yangon alcançaram importantes participantes e arquivos da arte postal.
Souvenirs en vrac deve ser compreendido como uma experiência radical de livro em rede. O conteúdo autobiográfico e documental é importante, mas a estrutura de circulação é igualmente essencial. Rastorfer transforma milhares de correspondências independentes em partes potenciais de uma única publicação. O leitor deixa de ser apenas receptor e passa a funcionar como agente responsável pela reunião, troca e reconstrução da obra.
O exemplar preservado possui, por isso, valor particular para a história da Mail Art, do livro de artista, da literatura experimental e das práticas editoriais alternativas dos anos 1990. Cada caderno sobrevivente não representa somente uma fração textual do projeto, mas um ponto material dentro de uma rede internacional de aproximadamente 5000 envios. A obra conecta Jean Marc Rastorfer, Yangon, Myanmar, arte postal, Mail Art, livro de artista, Artistamps, memória, autobiografia, circulação privada e práticas colaborativas internacionais.
ENGLISH
Text for the Salsa program
Artist book and Mail Art object entitled Souvenirs en vrac, which may be translated as Loose Memories, conceived by Jean Marc Rastorfer in Yangon, Myanmar, in July 1997. The artist explicitly defines the publication as an object of Mail Art and explains that its structure was designed to exist in dispersed form throughout the international correspondence art network. The work is an important document of the transformation of the artist book into a collective system of circulation, exchange, reconstruction and memory.
The opening page bears the handwritten title Souvenirs en vrac, followed by the name Jean Marc Rastorfer and the indication Yangon, juillet 1997. Another inscription states that the work was drawn, written and published in Burma, now Myanmar, together with the English indication For private circulation only. This makes clear that the publication was not primarily conceived for commercial distribution but for restricted circulation among correspondents.
In the explanatory page, handwritten in French, Rastorfer states that the booklet is an object of Mail Art. He explains that it consists of several gatherings and a cover. These gatherings were distributed among approximately 5000 letters, all mailed from Myanmar. Some participating artists would receive different portions and would be able to reconstruct the complete book through exchanges within the flows of Mail Art. Rastorfer concludes by suggesting that the booklet could therefore be considered the first book to make genuine use of the resources of Mail Art. This statement is crucial because physical fragmentation is not accidental but constitutes the artistic method of the work.
Rare Books and Special Collections at the Hesburgh Libraries of the University of Notre Dame preserves another correspondence by Jean Marc Rastorfer sent from Yangon in the same context. The institutional record describes material bearing stamps reading Souvenirs en vrac, Art Postal, Yangon Myanmar 1997 and First True Mail Art Booklet, together with instructions stating that the pages had to be collected and stapled together to create a Mail Art book. This independently confirms the distributed and participatory conception visible in the present example.
Rastorfer's strategy radically displaces the traditional idea of the book. Instead of producing a complete volume and delivering it to a reader, Souvenirs en vrac was intentionally fragmented. Each portion circulated independently through the postal system. The complete book did not necessarily exist in one physical location but rather as a possibility within the network. To reconstruct it, participants needed to establish contact, identify other recipients and exchange material. Circulation therefore ceased to be merely a distribution mechanism and became an indispensable part of the artwork itself.
The pages visible in this example contain handwritten French texts presenting personal recollections of Rastorfer's experiences in Myanmar. Identifiable subjects include journeys, encounters with local inhabitants, religious visits, urban environments and family experiences. One section is titled Famille d'accueil and recounts being received as a member of the family of a former officer named U Min Dang, described as having been rehabilitated after years of suffering during the Ne Win period. Rastorfer writes about a formerly prosperous family that had been dispersed and required to work in agricultural fields during years of repression.
Another passage describes entering a cathedral and encountering elderly people there. Rastorfer mentions an elderly indigenous priest and a nun and records observations concerning their lives and local religious institutions. Other sections describe religious buildings, pagodas, sculptures, images and traces left by different historical periods. The work therefore operates simultaneously as travel diary, personal memoir, cultural document and postal artwork.
Jean Marc Rastorfer's relationship with Myanmar extended beyond this publication. Bibliographic records attribute to him studies concerning Kayah, Karenni and Kayan peoples, including Les Kayah, les Karenni et les Yang Daeng and research on the development of Kayan and Kayah national identity. He also produced work examining the book reproduction industry in Myanmar during 1997 and 1998. These records help contextualize his extended intellectual and cultural involvement with the country.
Rastorfer also holds a documented place in the history of Mail Art and Artistamps. The Musée d'art et d'histoire de Genève preserves his publication Timbres d'artistes II Art postal Mail Art, dated 1995 and published in Lausanne. The same museum preserves Karenni des artistes et des timbres 200 mail artists create postage stamps from 1990, a project bringing together approximately 200 Mail Art artists around artist designed postage stamps. These projects demonstrate continuity among his research on Myanmar, Artistamp production, independent publishing and participation in international Mail Art networks.
Rastorfer's circulation within those networks is further documented by the Mark Bloch Postal Art Network Archive at New York University. Its archival inventory records JM Rastorfer among correspondents associated with Myanmar in 1997, precisely the period in which Souvenirs en vrac was produced. This confirms the international reach of correspondence originating in Yangon.
Souvenirs en vrac can therefore be understood as a radical experiment in the networked book. Its autobiographical and documentary content is important, but its circulation structure is equally fundamental. Rastorfer transforms thousands of independent postal communications into potential fragments of one publication. The reader becomes not simply a recipient but an active agent responsible for gathering, exchanging and reconstructing the work.
The surviving example has particular importance for the histories of Mail Art, the artist book, experimental literature and alternative publishing practices of the 1990s. Each surviving gathering represents not only a textual fragment but a material point within an international network of approximately 5000 mailings. The work connects Jean Marc Rastorfer, Yangon, Myanmar, Mail Art, artist books, Artistamps, memory, autobiography, private circulation and international collaborative artistic practices.




