Carta original de Pete Spence enviada aos artistas brasileiros Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva e J. Medeiros, acompanhada por quatro trabalhos de poesia visual reproduzidos na própria folha.
Pete Spence - Peter Spence - Australia
03769 - - Carta Manuscrita
29,7 x 21 cm
Carta original de Pete Spence enviada aos artistas brasileiros Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva e J. Medeiros, acompanhada por quatro trabalhos de poesia visual reproduzidos na própria folha. O documento registra de maneira direta um intercâmbio internacional entre o poeta visual e artista postal australiano Pete Spence e quatro participantes brasileiros ligados à poesia visual, poesia experimental e arte postal. A correspondência foi produzida no contexto da preparação de uma exposição internacional de poesia visual organizada pelos destinatários brasileiros ou com participação direta deles.
Pete Spence inicia a carta dirigindo se conjuntamente a Avelino, Bianor, Falves e J. Medeiros. Essa forma de endereçamento é particularmente importante para a documentação histórica porque demonstra que os quatro artistas brasileiros estavam articulados em um mesmo projeto de exposição internacional de poesia visual e que Spence conhecia essa articulação. A correspondência constitui assim evidência primária de uma conexão direta entre a cena australiana de poesia visual e uma rede brasileira formada por Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva e J. Medeiros.
Spence informa que espera que os trabalhos enviados sejam suficientemente bons para a exposição internacional de poesia visual dos destinatários. A frase confirma que as quatro composições reproduzidas na outra face da folha foram enviadas como contribuições destinadas a uma International Visual Poetry Exhibition. A carta funciona ao mesmo tempo como correspondência pessoal, mensagem de participação e documento de envio de obras.
Um dos aspectos mais reveladores do texto é a explicação de Pete Spence sobre as condições materiais de sua produção. O artista afirma que gostaria de realizar algo realmente excepcional, porém atravessava uma crise financeira contínua que lhe permitia trabalhar apenas com processos de cópia. Essa observação oferece informação rara sobre as condições econômicas concretas de produção de um participante da rede internacional de poesia visual e mail art.
A referência ao copy work é especialmente significativa. Ela demonstra que a utilização de reprodução gráfica, fotocópia e procedimentos de baixo custo não era apenas uma escolha estética, mas também podia resultar das condições econômicas enfrentadas pelos artistas. No contexto da arte postal e da poesia visual internacional, a cópia tornou se um instrumento fundamental porque permitia produzir múltiplos, enviar obras pelo correio e manter intercâmbios internacionais sem depender das estruturas comerciais tradicionais.
A declaração seguinte possui grande importância teórica e histórica. Pete Spence manifesta satisfação pela realização da exposição e afirma que a poesia visual era uma das poucas artes que ainda conservavam força política. Para ele, essa capacidade política poderia existir tanto em trabalhos baseados em sinais e marcas elementares quanto em trabalhos construídos a partir da violência da imagem social.
Essa formulação revela a concepção de poesia visual defendida por Spence. O artista não limita o campo a experimentações tipográficas ou formais. Ele reconhece dois polos possíveis. De um lado estão signos, marcas, letras, formas e estruturas mínimas. De outro estão imagens sociais capazes de carregar violência, conflito e conteúdo político. A poesia visual aparece assim como uma linguagem capaz de operar simultaneamente no nível gráfico, linguístico, social e político.
O documento torna se especialmente relevante para compreender a circulação internacional da produção experimental brasileira. A carta comprova que Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva e J. Medeiros estavam envolvidos com a organização ou recepção de uma exposição internacional de poesia visual para a qual Pete Spence enviou trabalhos desde a Austrália. Ela demonstra também que o contato não era apenas institucional. A mensagem possui caráter pessoal e colaborativo e registra as dificuldades, expectativas e posições críticas do próprio artista.
Na outra face da folha aparecem quatro obras de Pete Spence organizadas como selos ou blocos postais. Cada composição apresenta a inscrição NETLAND e VISUAL POETRY, além do nome pete spence. A adoção do formato de selo aproxima diretamente esses trabalhos da estética da mail art, dos artistamps e das publicações postais experimentais.
A primeira composição utiliza uma estrutura circular associada a fragmentos de partituras musicais, letras, sinais gráficos, linhas e formas geométricas. Elementos musicais atravessam o campo visual e são reorganizados dentro e fora de um núcleo circular. O trabalho combina notação musical, tipografia e abstração gráfica, transformando materiais de leitura originalmente diferentes em uma única estrutura visual.
A segunda composição apresenta um campo negro quadrangular contendo letras isoladas conectadas por linhas brancas. Letras como p, d, b, e, o e outras formas tipográficas são organizadas ao redor de eixos horizontais e verticais. A disposição produz uma espécie de circuito linguístico ou diagrama visual no qual as letras deixam de formar palavras convencionais e passam a funcionar como unidades espaciais.
A terceira composição utiliza fragmentos de texto impresso sobrepostos em diferentes orientações. Palavras e linhas tipográficas cruzam se vertical e horizontalmente, dificultando a leitura tradicional e transformando o texto em massa visual. A sobreposição cria densidade, ruído e interferência, procedimentos recorrentes na poesia visual e concreta internacional.
A quarta composição apresenta uma grande forma circular negra atravessada por linhas, letras, números e formas geométricas. Entre os elementos visíveis aparece o número 158. A composição articula escala, orientação, fragmentação e contraste, fazendo com que sinais tipográficos adquiram função primordialmente visual.
As quatro obras compartilham a designação NETLAND VISUAL POETRY. Esse elemento deve ser preservado na catalogação por funcionar como identificação conceitual ou editorial comum ao conjunto. A palavra NETLAND é particularmente significativa dentro de uma produção destinada à circulação postal, pois sugere uma ideia de território constituído por redes, conexões e intercâmbios entre participantes geograficamente distantes.
Nesse contexto, NETLAND pode ser compreendido como uma formulação visual coerente com a própria estrutura internacional da mail art. Entretanto, a documentação examinada não permite afirmar se NETLAND correspondia formalmente a uma série, publicação, projeto editorial ou denominação permanente utilizada por Pete Spence. O termo aparece claramente nas quatro obras e deve ser registrado como elemento textual original, sem atribuir uma classificação que não esteja documentalmente confirmada.
Outro elemento relevante é que Pete Spence envia quatro trabalhos numa única folha reproduzida. O formato demonstra uma estratégia de multiplicação e circulação característica da arte postal. As obras poderiam viajar de forma econômica, ser reproduzidas, exibidas ou incorporadas a publicações e arquivos. O próprio comentário do artista sobre sua crise financeira e sua dependência de copy work ajuda a explicar materialmente essa escolha.
A correspondência documenta ainda uma relação particularmente importante entre Pete Spence e Falves Silva. Até este documento, parte significativa das conexões de Spence no Brasil podia ser reconstruída por meio de Avelino de Araújo, J. Medeiros, Hugo Pontes e publicações como Communicarte. Esta carta fornece uma evidência primária adicional de contato direto com Falves Silva e Bianor Paulino, ampliando o mapa das relações brasileiras do artista australiano.
Do ponto de vista arquivístico, a folha deve ser preservada como unidade documental composta. A mensagem manuscrita e as quatro obras não devem ser tratadas como documentos independentes sem registrar sua relação original. O texto explica por que as imagens foram produzidas e enviadas, enquanto as imagens constituem precisamente os trabalhos mencionados na carta.
Não há data claramente visível nas imagens apresentadas. Portanto, uma data específica não deve ser atribuída apenas por aproximação com outras correspondências de Pete Spence de 1996. Caso o documento pertença ao mesmo conjunto de correspondências relacionadas às exposições daquele período, essa associação pode ser registrada separadamente como contexto arquivístico, mas não como data confirmada desta folha sem documentação complementar.
Este documento possui grande importância para a história da poesia visual e da mail art porque preserva simultaneamente a obra, a comunicação entre os participantes e uma declaração teórica do artista. Pete Spence não apenas envia quatro poemas visuais para uma exposição brasileira. Ele explica suas condições de produção e formula uma defesa explícita da capacidade política da poesia visual. A carta permite assim reconstruir tanto a rede internacional de intercâmbio quanto as ideias que circulavam dentro dela.
No contexto do acervo de Avelino de Araújo e de documentos relacionados a Falves Silva, Bianor Paulino e J. Medeiros, esta correspondência constitui testemunho direto da formação de uma rede transnacional entre Brasil e Austrália. Ela documenta uma exposição internacional de poesia visual, a participação de Pete Spence, a circulação de quatro obras NETLAND VISUAL POETRY e a concepção do artista de que a poesia visual permanecia uma linguagem dotada de força política e capacidade crítica diante da sociedade.
Text for the Salsa program
Original letter by Pete Spence addressed jointly to Brazilian artists Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva and J. Medeiros and accompanied by four visual poetry works reproduced on the other side of the sheet. The document provides direct evidence of an international exchange between Australian visual poet and mail artist Pete Spence and four Brazilian participants associated with visual poetry, experimental poetry and mail art. The correspondence was produced in connection with an international visual poetry exhibition organised by the Brazilian recipients or involving their direct participation.
Pete Spence begins by addressing Avelino, Bianor, Falves and J. Medeiros together. This form of address is historically significant because it demonstrates that the four Brazilian artists were connected through the same international visual poetry exhibition project and that Spence was aware of their collaboration. The letter therefore constitutes a primary source documenting a direct connection between Australian visual poetry and a Brazilian network formed by Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva and J. Medeiros.
Spence explains that he hopes the works he is sending will be suitable for their international visual poetry exhibition. This establishes that the four compositions printed on the other side of the sheet were intended as contributions to an International Visual Poetry Exhibition. The document functions simultaneously as personal correspondence, a participation message and a record accompanying the submission of artworks.
One of the most revealing passages concerns the material conditions of Spence's production. He states that he would have liked to create something particularly ambitious but that an ongoing financial crisis restricted him to copy work. This provides unusually direct evidence concerning the economic circumstances affecting an artist participating in international visual poetry and mail art networks.
The reference to copy work is particularly significant. It demonstrates that photocopying and inexpensive reproductive processes could be both aesthetic strategies and practical responses to limited financial resources. Within international mail art and visual poetry, reproducible media allowed artists to produce multiples, circulate works through the postal system and maintain international exchanges outside conventional commercial art structures.
Spence then makes an important theoretical statement. He expresses approval of the exhibition project and describes visual poetry as one of the few arts that still possesses political strength. In his formulation, this political capacity exists whether works depend upon elementary signs and marks or upon the violence of the social image.
This statement provides valuable insight into Spence's understanding of visual poetry. He does not restrict the field to typographic or formal experimentation. Instead he recognises two possible poles of artistic practice. One consists of signs, marks, letters and minimal structures. The other involves social imagery capable of carrying violence, conflict and political content. Visual poetry thus becomes for Spence a field operating simultaneously through graphic form, language, social reality and political meaning.
The correspondence is especially important for understanding the international circulation of Brazilian experimental art. It proves that Avelino de Araújo, Bianor Paulino, Falves Silva and J. Medeiros were associated with the organisation or reception of an international visual poetry exhibition to which Pete Spence contributed works from Australia. It also demonstrates that the connection was not merely institutional. The message is personal and collaborative and records Spence's economic difficulties, expectations and critical position.
The other side of the sheet contains four works by Pete Spence arranged in a format resembling postage stamps or artistamps. Each composition carries the words NETLAND and VISUAL POETRY together with the name pete spence. The adoption of a postage stamp format directly connects the works to mail art, artistamp practices and experimental postal publishing.
The first composition uses a circular structure combined with fragments of musical notation, letters, graphic signs, lines and geometric forms. Fragments of musical scores enter and cross the central structure, combining musical notation, typography and abstraction within a single visual field.
The second composition presents a black rectangular field containing isolated letters connected by white lines. Characters including p, d, b, e and o are organised around horizontal and vertical axes. Rather than producing conventional words, the letters function as spatial units within what resembles a linguistic circuit or visual diagram.
The third composition consists of fragments of printed text superimposed in different orientations. Typographic lines intersect vertically and horizontally, obstructing conventional reading and transforming language into visual density. The result depends on overlap, noise and interference, strategies characteristic of international concrete and visual poetry.
The fourth composition contains a large black circular form intersected by lines, letters, numbers and geometric elements. The number 158 is among the visible components. Changes of scale, direction and orientation transform typographic signs into autonomous visual elements.
All four works carry the designation NETLAND VISUAL POETRY. This wording should be preserved in catalogue records because it functions as a shared textual and conceptual identifier for the group. The term NETLAND is especially suggestive in the context of works intended for postal circulation, evoking a territory created through networks and connections among geographically separated participants.
Within this context NETLAND can be understood as conceptually consistent with the network structure of mail art itself. However, the surviving document does not establish whether NETLAND was formally the title of a series, publication, editorial project or continuing programme created by Pete Spence. The term should therefore be recorded as an original element appearing on the works without assigning an unsupported classification.
The fact that four works are reproduced together on a single sheet also reflects a characteristic strategy of mail art circulation. Such a format could be produced economically, mailed internationally, reproduced, exhibited or incorporated into publications and archives. Spence's own reference to his financial crisis and dependence upon copy work provides an unusually direct explanation for the material logic behind this method.
The document also expands the known network surrounding Spence in Brazil. Connections with Avelino de Araújo and J. Medeiros can be reconstructed through other correspondence and publications. This sheet provides direct primary evidence that Pete Spence was also in contact with Falves Silva and Bianor Paulino, extending the documented Brazilian network of the Australian artist.
From an archival perspective, the handwritten message and the four visual poems should be preserved as a single documentary unit. The written message explains why the works were produced and transmitted, while the reverse contains the actual visual material referred to in the correspondence. Separating the two sides without recording their original relationship would remove essential historical context.
No clearly legible date appears in the images examined. A specific date should therefore not be assigned solely because other correspondence between Pete Spence and Brazilian artists survives from 1996. If archival evidence demonstrates that this document belongs to the same correspondence sequence, that relationship may be recorded as contextual information, but it should not replace a confirmed date for the sheet itself.
The document is important to the history of visual poetry and mail art because it preserves artwork, correspondence and artistic theory within the same physical object. Pete Spence not only submits four visual poems for an international exhibition in Brazil. He also records the economic conditions under which he was working and explicitly defends the continuing political strength of visual poetry.
Within archival material associated with Avelino de Araújo, Falves Silva, Bianor Paulino and J. Medeiros, the letter provides direct evidence of a transnational network connecting Brazil and Australia. It documents an international visual poetry exhibition, Pete Spence's participation, the circulation of four NETLAND VISUAL POETRY works and the artist's belief that visual poetry retained a critical and political capacity within contemporary society.


