E. F. Higgins III - Ed Higgins - NY USA
Edward F. Higgins III, conhecido principalmente como E. F. Higgins III, Ed Higgins e Edward Higgins III, foi um artista norte americano ligado à Mail Art, aos artistamps, à pintura, gravura, colagem, arte postal, performance, escultura e às práticas independentes desenvolvidas no Lower East Side de Nova York. Nasceu em 10 de novembro de 1949 em Racine, Wisconsin, Estados Unidos, cresceu na região de Chicago e posteriormente viveu em Ann Arbor, Michigan. Faleceu em 16 de dezembro de 2021, aos 72 anos. Sua trajetória tornou se especialmente relevante para a história internacional da arte postal pela criação e desenvolvimento da Doo Da Post e da Doo Da Postage Works, um sistema postal artístico fictício através do qual Higgins produziu e fez circular centenas de edições de selos de artista.Desde a infância Higgins demonstrou interesse por selos postais e carimbos de borracha. Ainda jovem produzia seus próprios carimbos e colecionava selos, estabelecendo uma relação precoce entre imagem, impressão, repetição, circulação e comunicação. Quando sua família se mudou para Ann Arbor, Higgins frequentou aulas de poesia e arte e realizou trabalhos de escultura soldada. A experiência com soldagem, impressão, composição tipográfica e produção gráfica posteriormente seria incorporada a diferentes áreas de sua prática artística.Higgins estudou Fine Arts na Western Michigan University. Deixou a instituição pouco antes de concluir o curso e posteriormente continuou sua formação na University of Colorado, onde obteve graduação e depois o Master of Fine Arts em 1976, concentrando sua formação em pintura e gravura. Durante esse período interessou se por objetos gráficos produzidos comercialmente, como cartazes, cartões postais, dinheiro fictício, certificados, selos, envelopes, mapas, plantas, etiquetas, papéis timbrados e outros materiais impressos que normalmente circulavam fora das categorias tradicionais das belas artes. Esses elementos se tornariam fundamentais para sua linguagem posterior.Por volta de 1975 Higgins começou a participar da rede internacional de Mail Art. Segundo seu próprio depoimento em entrevista a Ruud Janssen, foi nesse período que o artista Edwin Golik Golikoff lhe falou sobre a rede de correspondência artística e sobre nomes como Buster Cleveland, Ray Johnson e Anna Banana. Higgins começou então a enviar pelo correio selos, colagens e outros trabalhos. Em 1975 produziu suas primeiras folhas de selos Doo Da através de impressão offset, inicialmente com a colaboração de Jim Green.A Doo Da Post tornou se o eixo mais reconhecível de sua produção. Higgins inventou Doo Da como um país imaginário necessário para dar aos seus selos uma origem fictícia e empregou frequentemente a denominação 3P como valor postal imaginário. Desenvolveu também como emblema recorrente o Wingnut, uma porca com asas. O termo possuía para Higgins uma dimensão humorística e remetia a uma expressão coloquial do meio oeste norte americano relacionada a alguém excêntrico ou fora do convencional. Assim, país, moeda, emblema, selos, carimbos e correspondência formavam uma espécie de sistema postal paralelo criado pelo artista.Grande parte dos artistamps de Higgins nasceu de pinturas. Ele produzia a imagem em escala maior, frequentemente como pintura ou retrato, fotografava a obra, reduzia a imagem e a convertia em selo. As folhas eram depois impressas, numeradas, assinadas e perfuradas. Esse procedimento permitia que uma pintura deixasse de existir somente como objeto único e passasse a circular em pequenas unidades múltiplas através da rede postal. Retratos de artistas, figuras inventadas, animais, pescaria, iscas, cowboys, personagens cômicos, objetos populares, referências ao oeste norte americano, palavras e logotipos aparecem repetidamente em sua iconografia.Em 1976 Higgins mudou se para Nova York e instalou se em Ludlow Street, no Lower East Side, endereço onde permaneceu durante aproximadamente quarenta e cinco anos. A localização o colocou em contato direto com uma comunidade de artistas, escritores, performers e participantes da rede de correspondência artística. Seu apartamento funcionou simultaneamente como residência, ateliê, arquivo e centro informal de produção da Doo Da Post. Ali acumulou pinturas, folhas de selos, correspondências recebidas, envelopes, notas, impressos e documentação produzida ao longo de décadas.Ainda em 1976 trabalhos de Higgins foram incluídos em Artists Stamps and Stamp Images, exposição organizada por James Felter na Simon Fraser University, no Canadá. A mostra constitui um marco importante da história dos selos de artista e coloca Higgins entre os participantes de uma fase inicial de institucionalização e estudo desse tipo de produção.A relação de Higgins com o Brasil é particularmente importante para compreender sua inserção internacional. Em 1977 participou de Poéticas Visuais, realizada de 29 de setembro a 30 de outubro no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, no Parque Ibirapuera, sob curadoria de Julio Plaza e Walter Zanini. A exposição reuniu experiências relacionadas à poesia visual, comunicação, publicações, linguagem gráfica e meios experimentais, sendo um dos acontecimentos fundamentais para a circulação de práticas conceituais e de comunicação no Brasil durante a década de 1970. Documentação acadêmica sobre as redes de arte postal confirma E. F. Higgins III entre os participantes.Em julho de 1978 E. F. Higgins III também apareceu entre os colaboradores de Ephemera, publicação mensal organizada por Ulises Carrión, Aart van Barneveld e Salvador Flores em Amsterdam através de Other Books and So. Esse registro aproxima Higgins de uma das plataformas mais relevantes dedicadas naquele período à circulação de trabalhos efêmeros, livros de artista, arte postal e publicações experimentais.Em 1979 voltou a aparecer no contexto brasileiro em Multimedia Internacional, organizada por Walter Zanini na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, realizada entre 19 de novembro e 16 de dezembro. Pesquisas recentes sobre arte postal latino americana identificam Higgins entre os participantes da exposição, juntamente com sua presença anterior em Poéticas Visuais. Multimedia Internacional investigava circuitos alternativos, vídeo, comunicação, reprodução, arte conceitual e diferentes recursos tecnológicos e intermedia.Em 1979 publicou texto sobre selos de artista em Print Collectors Newsletter. No mesmo período sua atividade com Doo Da Postage Works tornou se referência dentro da produção internacional de artistamps. Em agosto de 1979 Higgins também organizou Nudes on Stamps como Commonpress número 18, publicação que reuniu grande número de participantes e selos de artista. Posteriormente publicou o ensaio On Mail Art: Doo Da Postage Works na revista Flue, ligada ao Franklin Furnace, em 1984.Um documento especialmente importante para a história brasileira é sua participação na XVI Bienal de São Paulo em 1981, na seção Mail Art Network. O catálogo da Fundação Bienal de São Paulo registra E. F. Higgins III entre centenas de participantes internacionais e inclui também Falves Silva, Paulo Bruscky, Clemente Padín, Edgardo Antonio Vigo, Anna Banana, Robin Crozier, Vittore Baroni, Jorge Caraballo e muitos outros integrantes das redes internacionais de comunicação artística. A presença de Higgins em Poéticas Visuais em 1977, Multimedia Internacional em 1979 e na XVI Bienal em 1981 demonstra uma continuidade de circulação de seu trabalho no Brasil.Essa documentação ajuda a contextualizar também a correspondência enviada por E. F. Higgins III a Falves Silva. O cartão First Day of Issue datado de 19 de agosto de 1978, preservado no arquivo de Falves Silva, demonstra que a relação entre Higgins e o circuito brasileiro não se limitava a exposições institucionais. Ela acontecia diretamente através do correio, por meio de cartões, selos de artista, carimbos, imagens e intervenções gráficas. O documento liga a Doo Da Post de Nova York à rede de arte experimental mantida por Falves Silva em Natal, Rio Grande do Norte.Durante a década de 1980 Higgins ampliou sua atuação em Nova York. Participou de ambientes ligados à performance, ao graffiti, a espaços alternativos e posteriormente à Rivington School. A Rivington School desenvolveu se no Lower East Side a partir do círculo relacionado ao No Se No Social Club e às ações conduzidas por Ray Kelly. Higgins esteve entre seus integrantes iniciais, ao lado de artistas como Ray Kelly, Toyo Tsuchiya, Linus Coraggio, Tovey Halleck, Jack Vengrow e Kevin Wendall. O grupo ocupava terrenos vagos e construía grandes estruturas com sucata e metal soldado, além de promover performances e atividades independentes.Higgins levou para esse ambiente habilidades que já possuía desde a juventude, particularmente soldagem, pintura, impressão e intervenção gráfica. Sua participação na Rivington School ampliou sua produção para além do correio, aproximando a Doo Da Post de um universo urbano formado por performance, escultura de sucata, graffiti, música, espaços autogeridos e práticas de resistência aos circuitos comerciais tradicionais.Em 1982 organizou em Nova York a 3rd International Doo Da Stamp Mail Art Show, exposição dedicada aos selos de artista. A documentação dessa mostra encontra se registrada tanto em arquivos de Mail Art quanto no fundo de Higgins preservado pela University of Iowa.Sua prática permaneceu ativa durante décadas. A Van Der Plas Gallery registra aproximadamente 780 edições de Doo Da stamps, demonstrando uma produção extraordinariamente extensa no campo dos artistamps. A partir do final da década de 1980 e durante a década de 1990 Higgins desenvolveu também a Fire Cracker Label Series, conjunto de pinturas com cores fortes, lettering gráfico, referências a rótulos, cultura popular e imagens associadas ao oeste norte americano. A série demonstra a continuidade entre sua pintura e a linguagem gráfica desenvolvida nos selos.Em 1992 um perfil de Higgins e da Doo Da Postage Works apareceu em Artistamp News, publicação de Anna Banana. Naquele momento o próprio artista registrava ter produzido aproximadamente 250 edições de Doo Da stamps. O crescimento posterior para centenas de edições permite acompanhar quantitativamente a continuidade do projeto durante décadas.Em 1995 Higgins participou do Mail Interview Project de Ruud Janssen. Na entrevista refletiu sobre o início de sua participação na Mail Art em 1975 e 1976, sobre os custos crescentes do correio internacional, sobre sua formação, sobre a Doo Da Post e sobre a natureza da comunicação entre artistas. O documento constitui uma fonte primária importante para sua biografia e para compreender como o próprio Higgins interpretava sua inserção na rede internacional.A University of Iowa Libraries preserva o E. F. Higgins III Collection, identificação MsC0855, integrante da Alternative Traditions in the Contemporary Arts Collection. O fundo reúne aproximadamente 3,5 pés lineares de documentação e inclui Mail Art, stamp art, pinturas, roupas, vídeos documentais, publicações, cartazes e correspondência. Entre os materiais encontram se folhas de selos assinadas, convites da Doo Da Post, pinturas, entrevistas em vídeo, documentos relacionados a exposições e correspondências recebidas. A existência desse fundo institucional transforma Higgins não apenas em personagem da história da Mail Art, mas também em objeto de pesquisa arquivística sistemática.A Rare Books and Special Collections da University of Notre Dame também preserva correspondência de Higgins dentro da Vagrich and Irene Bakhchanyan Collections, demonstrando a dispersão de sua produção por diferentes arquivos constituídos a partir das próprias redes postais.Após sua morte, ocorrida em dezembro de 2021, sua obra recebeu novas exposições e estudos. Em 2022 a Van Der Plas Gallery, em Nova York, realizou a exposição individual póstuma Doo Da Forever, aberta de 12 de maio a 5 de junho, reunindo pinturas e trabalhos relacionados a sua trajetória. Franklin Furnace registrou a exposição e identificou Higgins como artista ligado à instituição.Em 2023 a Van Der Plas Gallery apresentou uma exposição conjunta de Istvan Kantor, conhecido como Monty Cantsin, e E. F. Higgins III, realizada de 17 de setembro a 1 de outubro. A mostra enfatizou as relações entre a Rivington School, a Doo Da Post e as pinturas Fire Cracker.Também em 2023 a Autonomedia publicou em Nova York Roll over Picasso: E.F. Higgins III, His Life, Art, Legend, de Istvan Kantor, obra dedicada à vida, produção e ambiente artístico de Higgins. O livro combina biografia, entrevistas, memória e narrativa ligada ao universo da Mail Art e do Lower East Side.Em 2025 trabalhos de Higgins foram apresentados em Rivington Renaissance, na Van Der Plas Gallery, juntamente com Kevin Wendall, Konstantin Bokov e Christine Randolph. A mostra retomou historicamente a Rivington School e sua contribuição para a cultura experimental do Lower East Side. No mesmo ano a galeria incluiu sua obra em Joyful Apocalypse.A importância histórica de E. F. Higgins III reside especialmente na capacidade de transformar mecanismos cotidianos da comunicação postal em uma linguagem artística autônoma. O selo deixa de ser apenas comprovante de pagamento postal e passa a constituir retrato, pintura miniaturizada, múltiplo gráfico, identidade nacional fictícia, objeto colecionável e instrumento de comunicação. A Doo Da Post converteu elementos administrativos de um Estado imaginário em componentes de uma obra extensa que existia simultaneamente como pintura, impressão, correspondência, arquivo e rede social analógica.Sua relação com o Poema Processo não corresponde à participação histórica no movimento brasileiro iniciado em 1967. Não há evidência localizada de que Higgins tenha integrado o Poema Processo. Sua conexão com esse campo deve ser compreendida através das redes internacionais que aproximaram Mail Art, poesia visual, poesia experimental, arte conceitual, publicações de artista e artistas vinculados ao ambiente do Poema Processo. A participação de Higgins em Poéticas Visuais, Multimedia Internacional e na XVI Bienal de São Paulo, além de sua correspondência direta com Falves Silva, constitui uma ligação documental concreta entre sua produção e o circuito brasileiro de experimentação visual e postal.
