Marcelo Dolabela. Lira dos 60 Anos, meus poemas favoritos e prediletos. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2017.
Marcelo Dolabela
04024 - 2017 - Revista
22 x 14,5 cm
Texto para o Salsa em português
Marcelo Dolabela. Lira dos 60 Anos, meus poemas favoritos e prediletos. Belo Horizonte, Minas Gerais, 2017. Publicação de caráter poético, autobiográfico e experimental produzida por Marcelo Dolabela por ocasião de seus 60 anos. O documento articula poesia, memória, referências literárias, cultura urbana de Belo Horizonte, trajetória pessoal e experimentação gráfica, constituindo um registro relevante da produção tardia do poeta, artista visual, editor, pesquisador e participante das redes de poesia experimental e Arte Postal brasileiras.
A capa apresenta composição visual em preto e branco construída pela combinação de doze retratos fotográficos, fragmentos de letras, sinais gráficos e diferentes formas tipográficas. As imagens aparecem distribuídas nas partes superior e inferior da página, enquanto o centro é ocupado pelo título LIRA DOS 60 ANOS, seguido da indicação meus poemas favoritos & prediletos, do nome marcelo dolabela e da data 2017. Letras de diferentes tamanhos, famílias gráficas e orientações atravessam toda a composição, criando uma superfície visual próxima da colagem, da poesia visual, da tipografia experimental e das publicações alternativas que caracterizam diferentes momentos da trajetória de Dolabela.
A disposição irregular das letras transforma a capa em campo de leitura visual. O alfabeto deixa de funcionar exclusivamente como instrumento para composição de palavras e passa a atuar também como matéria gráfica. Caracteres isolados, fragmentos tipográficos e sobreposições envolvem os retratos e o título, estabelecendo uma relação entre identidade, memória, palavra, imagem e passagem do tempo.
Na página interna reproduzida encontra se o texto Minha vida com Marcelo, entre 1001 metáforas e alguns dolabelismos, datado em sete de setembro de 2017 e assinado ao final com a forma Ná. O texto constrói um testemunho pessoal sobre Marcelo Dolabela, combinando memória afetiva, poesia, referências culturais, lugares de Belo Horizonte e aspectos cotidianos de sua vida intelectual.
A abertura estabelece imediatamente uma relação entre memória e tempo. O tempo aparece associado ao flash da memória, indicando que a recordação constitui uma das estruturas fundamentais do texto. A evocação de Marcelo é construída pela acumulação de imagens, referências, hábitos, pessoas, escritores, lugares e experiências compartilhadas.
A autora ou autor do texto descreve Marcelo por meio de uma sequência de interesses intelectuais e culturais. Aparecem referências a geopolitica, metafísica, positivismo, música, Noel, Rock e Tropicália. A presença de diferentes áreas de pensamento e criação apresenta Dolabela como figura cultural de interesses múltiplos, característica coerente com sua atuação entre poesia, música, artes visuais, pesquisa, edição e experimentação.
A literatura ocupa posição central nesse retrato. O texto registra uma ampla constelação de autores e tradições poéticas relacionados aos hábitos de leitura de Marcelo Dolabela. São mencionados Maiakovski, Marina Tsvetayeva, Emily Dickinson, Bashô, Gregório de Matos, Elizabeth Bishop, Ezra Pound, Augusto de Campos, os poetas beats, Dante, Manuel Bandeira, Castro Alves e Drummond.
Essa sequência constitui informação documental importante para compreender o universo literário associado a Dolabela. As referências atravessam poesia russa, norte americana, japonesa, inglesa, brasileira, modernismo, vanguardas históricas, poesia concreta, geração beat e diferentes tradições da literatura ocidental. A amplitude da enumeração reforça a imagem de Dolabela como leitor, pesquisador e poeta cuja formação cultural não se restringia a um único movimento.
Augusto de Campos aparece explicitamente entre os poetas lembrados, estabelecendo uma conexão com a poesia concreta e com as investigações de linguagem que também contribuíram para o desenvolvimento da poesia visual brasileira. A referência não deve ser interpretada automaticamente como filiação de Marcelo Dolabela à poesia concreta, mas constitui evidência de sua atenção às experiências de vanguarda e à transformação da linguagem poética.
O texto menciona também todos os poetas da Cemflores. A referência é especialmente significativa para a história de Marcelo Dolabela, pois insere a memória de sua trajetória coletiva dentro de um conjunto mais amplo de leituras e relações poéticas. Cemflores foi um ambiente fundamental para a poesia marginal, a publicação independente, a experimentação gráfica e posteriormente para as conexões de Dolabela com a Arte Postal e a Mail Art em Belo Horizonte.
A cidade de Belo Horizonte aparece como parte inseparável dessa memória. O texto menciona BH e diversos espaços urbanos associados à convivência cotidiana de Marcelo. Entre eles aparecem Mercado Central, Maletta, Savassi e Mineirinho, além das exposições, do caminho do trabalho, das passeatas e das viagens.
Esses lugares transformam o texto em uma cartografia afetiva de Belo Horizonte. A cidade não aparece apenas como local biográfico, mas como território de sociabilidade cultural, poesia, política, música, encontros e experiências urbanas. Mercado Central, Edifício Maletta, Savassi e Mineirinho integram a memória cultural da capital mineira e ajudam a situar espacialmente a trajetória de Marcelo Dolabela.
O texto menciona igualmente passeatas e exposições, conectando a memória individual de Marcelo à participação em espaços coletivos, culturais e políticos. Essa dimensão corresponde ao ambiente no qual sua produção se desenvolveu desde o final da década de 1970, aproximando poesia marginal, publicações independentes, movimento estudantil, performances, Arte Postal e circulação alternativa.
A passagem sobre música apresenta Noel, Rock e Tropicália, evidenciando outro campo decisivo da formação de Dolabela. Sua trajetória não separou rigidamente literatura e música. A presença desses repertórios no testemunho pessoal confirma a convivência entre poesia, canção popular brasileira, rock e cultura experimental em seu universo intelectual.
O subtítulo meus poemas favoritos e prediletos atribui à publicação caráter de seleção e memória. Lira dos 60 Anos pode ser entendida como uma organização retrospectiva realizada no momento em que Marcelo Dolabela completava seis décadas de vida, utilizando a própria produção poética e suas referências culturais como elementos de construção autobiográfica.
O termo Lira estabelece relação com a tradição poética, ao mesmo tempo em que o tratamento visual da capa desloca essa tradição para o campo da experimentação gráfica contemporânea. A publicação combina assim memória literária e procedimento visual, tradição e vanguarda, repertório pessoal e composição tipográfica.
A página Minha vida com Marcelo amplia essa dimensão autobiográfica ao apresentar o poeta através do olhar de uma pessoa próxima. A sucessão de referências a escritores, música, lugares, trabalho, passeatas, exposições e viagens constrói uma biografia afetiva condensada, diferente de uma cronologia convencional. A memória é organizada por associações, afinidades e experiências.
Lira dos 60 Anos constitui documento relevante para compreender a produção de Marcelo Dolabela em 2017 e sua relação com poesia visual, poesia experimental, poesia marginal, livros e publicações de artista, cultura de Belo Horizonte, Cemflores, música brasileira e redes alternativas. A publicação funciona simultaneamente como seleção poética, memória autobiográfica, registro afetivo e objeto gráfico.
O documento possui interesse para pesquisas sobre Marcelo Gomes Dolabela, Marcelo Dolabela, Lira dos 60 Anos, Cemflores, Belo Horizonte, poesia mineira, poesia marginal, poesia visual, Arte Postal, Mail Art, livro de artista, publicação experimental, tipografia experimental, cultura alternativa brasileira, literatura brasileira contemporânea e história da poesia experimental em Minas Gerais.
Palavras chave para pesquisa e indexação: Marcelo Dolabela, Marcelo Gomes Dolabela, Lira dos 60 Anos, meus poemas favoritos e prediletos, 2017, Belo Horizonte, Minas Gerais, Cemflores, poesia brasileira, poesia mineira, poesia marginal, poesia visual, poesia experimental, publicação experimental, livro de artista, publicação de artista, tipografia experimental, colagem, memória, autobiografia, Arte Postal, Mail Art, Augusto de Campos, Maiakovski, Marina Tsvetayeva, Emily Dickinson, Bashô, Gregório de Matos, Elizabeth Bishop, Ezra Pound, poetas beats, Dante, Manuel Bandeira, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Noel, Rock, Tropicália, Mercado Central, Maletta, Savassi, Mineirinho, cultura de Belo Horizonte, vanguarda brasileira.
Salsa text in English
Marcelo Dolabela. Lira dos 60 Anos, meus poemas favoritos e prediletos. Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil, 2017. A poetic, autobiographical and experimental publication created by Marcelo Dolabela on the occasion of his sixtieth year. The document combines poetry, memory, literary references, the urban culture of Belo Horizonte, personal history and graphic experimentation, constituting an important record of the later production of the poet, visual artist, editor, researcher and participant in Brazilian experimental poetry and Mail Art networks.
The cover presents a black and white visual composition constructed through a combination of twelve photographic portraits, fragmented letters, graphic signs and different typographic forms. The images are distributed across the upper and lower areas of the page, while the center contains the title LIRA DOS 60 ANOS, followed by the indication meus poemas favoritos & prediletos, the name marcelo dolabela and the date 2017. Letters of different sizes, graphic families and orientations spread across the composition, creating a visual surface related to collage, visual poetry, experimental typography and the alternative publications that characterize different periods of Dolabela's career.
The irregular arrangement of letters transforms the cover into a field of visual reading. The alphabet no longer functions exclusively as a means for constructing words but also becomes graphic material. Isolated characters, typographic fragments and superimpositions surround the portraits and title, establishing relationships among identity, memory, word, image and the passage of time.
The reproduced interior page contains the text Minha vida com Marcelo, entre 1001 metáforas e alguns dolabelismos, dated September 7, 2017 and signed at the end as Ná. The text presents a personal testimony about Marcelo Dolabela, combining affectionate memory, poetry, cultural references, places in Belo Horizonte and elements of his intellectual and everyday life.
The opening immediately establishes a relationship between memory and time. Time is associated with the flash of memory, indicating remembrance as one of the central structures of the text. Marcelo is evoked through an accumulation of images, references, habits, people, writers, places and shared experiences.
The author describes Marcelo through a sequence of intellectual and cultural interests. References include geopolitics, metaphysics, positivism, music, Noel, Rock and Tropicália. The diversity of subjects presents Dolabela as a cultural figure with multiple fields of interest, consistent with his activities involving poetry, music, visual art, research, editing and experimentation.
Literature occupies a central position in this portrait. The text records a broad constellation of writers and poetic traditions associated with Marcelo Dolabela's reading habits. It names Mayakovsky, Marina Tsvetayeva, Emily Dickinson, Bash
, Gregório de Matos, Elizabeth Bishop, Ezra Pound, Augusto de Campos, Beat poets, Dante, Manuel Bandeira, Castro Alves and Drummond.
This sequence provides important documentary information about the literary universe associated with Dolabela. The references move across Russian, North American, Japanese, English and Brazilian poetry, Modernism, historical avant gardes, Concrete Poetry, the Beat Generation and different traditions of Western literature. Their range reinforces an understanding of Dolabela as a reader, researcher and poet whose cultural formation cannot be reduced to a single movement.
Augusto de Campos appears explicitly among the remembered poets, establishing a connection with Concrete Poetry and with linguistic investigations that also contributed to Brazilian visual poetry. The reference should not automatically be interpreted as evidence that Marcelo Dolabela belonged to Concrete Poetry, but it documents his attention to avant garde practices and transformations of poetic language.
The text also refers to all the poets of Cemflores. This is particularly significant for the history of Marcelo Dolabela because it places the memory of his collective trajectory within a larger constellation of poetic readings and relationships. Cemflores was an important environment for Marginal Poetry, independent publishing, graphic experimentation and later Dolabela's connections with Mail Art in Belo Horizonte.
Belo Horizonte itself appears as an inseparable part of this memory. The text names BH and several urban spaces connected with Marcelo's everyday life, including Mercado Central, Maletta, Savassi and Mineirinho, together with exhibitions, the route to work, political demonstrations and travel.
These places transform the text into an affective cartography of Belo Horizonte. The city is not simply a biographical location but a territory of cultural sociability, poetry, politics, music, encounters and urban experiences. Mercado Central, the Maletta environment, Savassi and Mineirinho help establish the spatial context of Marcelo Dolabela's cultural trajectory.
The text also mentions demonstrations and exhibitions, connecting personal memory with collective, cultural and political spaces. This dimension corresponds to the environment in which his production developed from the late 1970s onward, involving Marginal Poetry, independent publishing, student activism, performance, Mail Art and alternative circulation.
The passage concerning music names Noel, Rock and Tropicália, documenting another important dimension of Dolabela's cultural formation. His trajectory did not strictly separate literature from music. These references in a personal testimony confirm the coexistence of poetry, Brazilian popular song, rock and experimental culture within his intellectual universe.
The subtitle meus poemas favoritos e prediletos gives the publication the character of selection and memory. Lira dos 60 Anos can be understood as a retrospective organization created as Marcelo Dolabela reached sixty years of age, bringing together his poetic production and cultural references within an autobiographical framework.
The term Lira establishes a relationship with poetic tradition, while the visual treatment of the cover shifts this tradition toward contemporary graphic experimentation. The publication therefore combines literary memory and visual procedure, tradition and avant garde practice, personal repertoire and typographic construction.
The page Minha vida com Marcelo expands this autobiographical dimension by presenting the poet through the perspective of someone close to him. The succession of references to writers, music, places, work, demonstrations, exhibitions and travel creates a condensed affective biography rather than a conventional chronology. Memory is organized through associations, affinities and experiences.
Lira dos 60 Anos is therefore an important document for understanding Marcelo Dolabela's production in 2017 and his relationship with visual poetry, experimental poetry, Brazilian Marginal Poetry, artists books and publications, the cultural life of Belo Horizonte, Cemflores, Brazilian music and alternative networks. The publication functions simultaneously as poetic selection, autobiographical memory, personal testimony and graphic object.
The document is relevant to research on Marcelo Gomes Dolabela, Marcelo Dolabela, Lira dos 60 Anos, Cemflores, Belo Horizonte, poetry from Minas Gerais, Brazilian Marginal Poetry, visual poetry, Mail Art, artists books, experimental publishing, experimental typography, Brazilian alternative culture, contemporary Brazilian literature and the history of experimental poetry in Minas Gerais.
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, Gregório de Matos, Elizabeth Bishop, Ezra Pound, Beat poets, Dante, Manuel Bandeira, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Noel, Rock, Tropicália, Mercado Central, Maletta, Savassi, Mineirinho, Belo Horizonte culture, Brazilian avant garde.
