Xerox do prefácio escrito por Augusto de Campos em 1985 para um livro de Ronaldo Azeredo, enviado a Wlademir Dias Pino por Philadelpho Menezes em carta de São Paulo datada de 10 de abril de 1985.
Exposição poesia Intersignos - São Paulo - 1985
04019 - 10 de Abril de 1985 - Xerox
24,3 x 20,5 cm
Texto para o Salsa em português
Xerox do prefácio escrito por Augusto de Campos em 1985 para um livro de Ronaldo Azeredo, enviado a Wlademir Dias Pino por Philadelpho Menezes em carta de São Paulo datada de 10 de abril de 1985. O conjunto é formado por cinco folhas datilografadas e constitui documento de grande relevância para a história da poesia concreta, da poesia visual, da poesia semiótica e do Poema Processo no Brasil. A última página é assinada Augusto de Campos 1985. Na primeira folha existe ainda anotação manuscrita registrando o envio do texto a Wlademir Dias Pino por Philadelpho Menezes.
O ensaio de Augusto de Campos apresenta uma extensa memória crítica, biográfica e afetiva sobre Ronaldo Azeredo e sua trajetória experimental. Augusto inicia recordando que conheceu Ronaldo em 1952, quando o poeta tinha quinze anos e era irmão de sua então namorada e posteriormente esposa, Lygia Azeredo. Descreve o jovem Ronaldo como rebelde, sem formação literária convencional e introduzido no ambiente intelectual pelas irmãs Lygia e Ecila. No mesmo contexto aparece Noigandres, então recém formado e já circulando como revista.
Augusto recorda que Ronaldo inicialmente escrevia uma prosa bruta, marcada por erros e características que chamaram sua atenção. Situa esses acontecimentos no momento em que ele, Décio Pignatari e outros participantes de Noigandres buscavam uma transformação radical da poesia e começavam a formular a experiência que desembocaria na poesia concreta.
O texto recupera um episódio decisivo ocorrido em dezembro de 1954. Augusto de Campos enviou a Décio Pignatari, então em Paris, o primeiro esboço de um poema de Ronaldo. A partir dessa experiência Ronaldo começou a se aproximar definitivamente da poesia. Augusto menciona trabalhos iniciais como Prefixo, Prelúdio, Prenúncio e Poema e recorda que Ronaldo participou da Exposição Nacional de Arte Concreta de 1956, marco fundamental da poesia concreta brasileira.
São citados também textos e experiências iniciais de Ronaldo Azeredo, entre eles Observações sobre a Família, Monstro Moonzebur e Driz da Feia. Augusto relaciona essas experiências à aproximação de Ronaldo com trechos de Finnegans Wake que ele próprio traduzia, ressaltando procedimentos verbais vinculados a invenções linguísticas próximas de James Joyce e Lewis Carroll.
O prefácio reconstrói uma ampla cronologia da produção de Ronaldo Azeredo. Augusto menciona A Grande Cidade, publicado em Invenção número 3 em junho de 1963, e O Sonho e O Escravo, além dos trabalhos Ruasol, Lesteoeste e Velocidade, associados ao período de 1958. Velocidade é destacado por sua projeção internacional e pela presença em antologias como The Best of Modern Poetry, organizada por Milton Klonsky e publicada em 1973.
Um dos trechos de maior importância histórica estabelece comparação direta entre Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias Pino. Augusto de Campos observa que Ronaldo possuía grande familiaridade com linguagens não verbais e afirma haver algo em comum com o caso de Wlademir Dias Pino, com quem Ronaldo teria desenvolvido amizade. Augusto ressalta ainda a diferença de idade entre os dois e a expertise gráfica de Wlademir. Segundo o texto, apesar de características próprias, os caminhos de Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias Pino desenvolveram se paralelamente em diversos momentos.
O prefácio situa Ronaldo também na experiência da poesia semiótica de Décio Pignatari e Luis Angelo Pinto em 1964, mencionando especificamente o poema Labor Torpor. Em seguida, estabelece outra conexão fundamental com Wlademir Dias Pino ao registrar que Wlademir inspiraria o Poema Processo. Augusto caracteriza essa aproximação como parte de um ambiente de experimentações no qual Ronaldo mantinha trajetória própria e independente.
Augusto de Campos menciona ainda a participação de Ronaldo Azeredo no ambiente que chamou de salto participante. Em 1962, na revista Invenção número 2, aparecem formulações relacionadas a portões, patrões e participação social. O texto acompanha a passagem de Ronaldo por diferentes modalidades de poesia visual e experimental e descreve a forma como códigos verbais e não verbais passam a coexistir em sua produção.
Entre as obras analisadas estão O Sonho e O Escravo, de 1966, descritos como cine poemas estruturados por relações entre cores e códigos. Também são comentados trabalhos posteriores relacionados a uma mulher ambígua e suas pérolas, ao ciclo de pedra poesia iniciado por volta de 1972, ao poema ecológico de 1973, ao Pensamento Impresso de 1974 e às peças do quebra cabeças Armar, de 1977.
Augusto destaca ainda uma rara edição de 1975 composta por um poema que convidava o leitor à participação por meio de tecidos originais associados às imagens da borboleta e do pulmão. Para o autor do prefácio, diversas dessas produções podem ser entendidas como poemas livros ou poemas objetos que exigem formas próprias de apresentação e manipulação.
O texto interpreta as criações de Ronaldo como biopoemas, mapeamentos de vida e quase sinais, ressaltando que elas recusam a dependência exclusiva da palavra sem necessariamente se transformarem em pintura. Nesse contexto aparece Labirintexto, de 1976, definido como uma espécie de geografia sentimental dedicada pelo poeta ao seu universo familiar e afetivo, percorrendo lugares ligados a Vila Isabel, Perdizes, Cambuci e Rua Homem de Melo.
O prefácio também documenta uma característica importante do método de trabalho de Ronaldo Azeredo. Por atuar numa área fronteiriça entre poesia e artes visuais, Ronaldo recorria frequentemente ao conhecimento técnico de outros artistas e profissionais para concretizar determinadas obras. Augusto menciona nesse contexto nomes como Franklin Horvlka, Amedea, Flaminghi, Gilberto Mendes e Mentore.
Outra referência importante é Marcel Duchamp, cuja descoberta Augusto considera decisiva para Ronaldo. O texto menciona uma casa de bonecas realizada em 1984, relacionada ao universo duchampiano e a referências como Alice no País dos Espelhos e Apollinaire Enameled. Também é citado Enquanto Durou, igualmente de 1984, interpretado como mais um biopoema no qual a experiência vital participa da constituição da obra.
Augusto de Campos incorpora ainda uma reflexão de Antonio Risério publicada na revista GAM número 36 em fevereiro de 1977 sobre Ronaldo Azeredo e a poesia visual. A análise enfatiza que Ronaldo não abandonou completamente letras e palavras, mas passou a combiná las com traços, riscos, sinais, desenhos, fotografias e códigos semióticos. O processo é interpretado como ampliação radical do campo da linguagem poética e da visualidade.
O texto menciona também Alfredo Volpi como colaborador na produção de diversos poemas de Ronaldo. Na leitura de Augusto, a poesia de Azeredo amplia o campo poético sem se converter simplesmente em arte visual, permanecendo vinculada a uma concepção radical e experimental da poesia.
Nas páginas finais, Augusto de Campos apresenta elementos autobiográficos de Ronaldo Azeredo. Aparecem referências a Noel Rosa, Alfredo Volpi, Oswald de Andrade, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Noigandres, Invenção e à Exposição Nacional de Arte Concreta. É reproduzida ainda uma composição autobiográfica de Ronaldo, ligada ao texto Viva há poesia, publicado em 1979 no jornal único de Villari Herrmann, na qual o poeta reconstrói poeticamente sua formação, amizades e relações intelectuais.
A parte final amplia essa cartografia de relações e registra numerosos artistas, escritores, músicos e colaboradores ligados à trajetória de Ronaldo Azeredo. O prefácio encerra com Augusto de Campos refletindo sobre o enigma de Ronaldo e sobre uma poesia que define pela imprevisibilidade, pela força das ideias, pela experimentação e por uma sabedoria livre de títulos e formalidades acadêmicas.
Este documento possui excepcional importância como fonte primária para a compreensão das relações entre Ronaldo Azeredo, Augusto de Campos e Wlademir Dias Pino. Permite reconstruir conexões entre Noigandres, poesia concreta, poesia semiótica, Poema Processo, poesia visual, poemas objetos e experiências intersemióticas brasileiras entre as décadas de 1950 e 1980. Sua proveniência, como xerox enviado por Philadelpho Menezes a Wlademir Dias Pino em 10 de abril de 1985, acrescenta uma camada documental importante à circulação dessas ideias e aos vínculos existentes entre diferentes gerações e vertentes da poesia experimental brasileira.
Salsa text in English
Photocopy of the preface written by Augusto de Campos in 1985 for a book by Ronaldo Azeredo, sent to Wlademir Dias Pino by Philadelpho Menezes in a letter from São Paulo dated April 10, 1985. The document consists of five typewritten pages and is an important primary source for the history of concrete poetry, visual poetry, semiotic poetry and Poema Processo in Brazil. The final page is signed Augusto de Campos 1985. A handwritten annotation on the first page also records that the text was sent to Wlademir Dias Pino by Philadelpho Menezes.
The essay presents an extensive critical, biographical and personal account of Ronaldo Azeredo and his experimental trajectory. Augusto begins by recalling that he met Ronaldo in 1952, when the poet was fifteen years old and was the brother of his then girlfriend and later wife, Lygia Azeredo. He describes the young Ronaldo as rebellious and without a conventional literary background, introduced to intellectual culture through his sisters Lygia and Ecila. The recently formed Noigandres group and magazine also appear within this historical context.
Augusto recalls that Ronaldo initially produced a rough form of prose whose unconventional characteristics attracted his attention. He situates these events at a moment when he, Décio Pignatari and other participants in Noigandres were seeking a radical transformation of poetry and beginning to develop the experiments that would lead to Brazilian concrete poetry.
The text recounts an important episode from December 1954. Augusto de Campos sent Décio Pignatari, who was then in Paris, the first sketch of a poem by Ronaldo. From this period onward Ronaldo increasingly moved toward poetry. Augusto mentions early works including Prefixo, Prelúdio, Prenúncio and Poema and recalls Ronaldo's participation in the 1956 Exposição Nacional de Arte Concreta, one of the central events in the history of Brazilian concrete poetry.
Other early works and experiments by Ronaldo Azeredo are also cited, including Observações sobre a Família, Monstro Moonzebur and Driz da Feia. Augusto associates some of these experiments with Ronaldo's exposure to passages from Finnegans Wake that Augusto himself was translating, emphasizing linguistic invention connected with the experimental legacies of James Joyce and Lewis Carroll.
The preface reconstructs a broad chronology of Ronaldo Azeredo's production. Augusto mentions A Grande Cidade, published in Invenção number 3 in June 1963, as well as O Sonho e O Escravo and the works Ruasol, Lesteoeste and Velocidade, associated with the period around 1958. Velocidade is highlighted for its international recognition and inclusion in anthologies such as The Best of Modern Poetry, edited by Milton Klonsky and published in 1973.
One of the most historically significant passages establishes a direct comparison between Ronaldo Azeredo and Wlademir Dias Pino. Augusto de Campos notes Ronaldo's familiarity with nonverbal languages and states that this represented something he shared with Wlademir Dias Pino, with whom Ronaldo developed a friendship. Augusto also emphasizes the difference in age between the two poets and Wlademir's graphic expertise. Although their approaches remained distinctive, the text suggests that the paths of Ronaldo Azeredo and Wlademir Dias Pino developed in parallel at various moments.
The preface also places Ronaldo within the experience of semiotic poetry developed by Décio Pignatari and Luis Angelo Pinto in 1964, specifically mentioning the poem Labor Torpor. It then establishes another important connection with Wlademir Dias Pino by recording Wlademir's role in inspiring Poema Processo. Augusto situates these developments within a broader experimental environment while emphasizing Ronaldo's independent artistic trajectory.
Augusto de Campos further discusses Ronaldo Azeredo's participation in what he describes as the period of participatory engagement. In 1962, in Invenção number 2, formulations involving gates, bosses and social participation appeared. The essay follows Ronaldo's movement through different modes of visual and experimental poetry and describes the increasing coexistence of verbal and nonverbal codes within his work.
Among the works discussed are O Sonho and O Escravo from 1966, described as cine poems structured through relationships between colors and codes. Later works involving an ambiguous female figure and pearls are also mentioned, together with a cycle of stone poetry beginning around 1972, an ecological poem from 1973, Pensamento Impresso from 1974 and the Armar puzzle pieces from 1977.
Augusto also highlights a rare 1975 edition containing an interactive poem that invited reader participation through actual fabrics connected to images of a butterfly and a lung. According to the preface, several works of this kind can be understood as poem books or poem objects requiring their own distinctive modes of presentation and interaction.
The essay interprets Ronaldo's creations as biopoems, mappings of life and near signs. They reject dependence on conventional verbal language without simply becoming painting. Within this context appears Labirintexto from 1976, described as a form of sentimental geography dedicated to Ronaldo's family and emotional universe and mapping locations associated with Vila Isabel, Perdizes, Cambuci and Rua Homem de Melo.
The preface also documents an important aspect of Ronaldo Azeredo's working method. Because he operated in a territory between poetry and visual art, Ronaldo frequently relied on the technical expertise of other artists and professionals to realize particular works. Augusto mentions collaborators including Franklin Horvlka, Amedea, Flaminghi, Gilberto Mendes and Mentore.
Another important reference is Marcel Duchamp, whose discovery Augusto considers significant for Ronaldo. The essay mentions a dollhouse work produced in 1984 connected with the Duchampian universe and references including Alice Through the Looking Glass and Apollinaire Enameled. Enquanto Durou, also dated 1984, is identified as another biopoem in which lived experience becomes part of the structure of the work.
Augusto de Campos also incorporates a critical reflection by Antonio Risério published in GAM magazine number 36 in February 1977 concerning Ronaldo Azeredo and visual poetry. The analysis emphasizes that Ronaldo did not completely abandon letters and words but combined them with lines, marks, signs, drawings, photographs and semiotic codes. This process is interpreted as a radical expansion of poetic language and visuality.
The text also mentions Alfredo Volpi as having contributed to the production of several of Ronaldo's poems. In Augusto's interpretation, Azeredo expands the poetic field without simply turning poetry into visual art, maintaining a radical and experimental conception of poetic language.
In the final pages, Augusto de Campos introduces autobiographical material by Ronaldo Azeredo. References appear to Noel Rosa, Alfredo Volpi, Oswald de Andrade, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Noigandres, Invenção and the Exposição Nacional de Arte Concreta. The essay also reproduces an autobiographical composition connected with Ronaldo's text Viva há poesia, published in 1979 in the single issue newspaper produced by Villari Herrmann, in which Ronaldo poetically reconstructs his formation, friendships and intellectual relationships.
The concluding section expands this network and records numerous artists, writers, musicians and collaborators associated with Ronaldo Azeredo. Augusto de Campos closes the essay by reflecting on the enigma of Ronaldo and on a poetry characterized by unpredictability, the force of ideas, experimentation and a form of wisdom independent of academic titles and institutional recognition.
This document has exceptional importance as a primary source for understanding the relationships between Ronaldo Azeredo, Augusto de Campos and Wlademir Dias Pino. It makes it possible to reconstruct connections among Noigandres, concrete poetry, semiotic poetry, Poema Processo, visual poetry, poem objects and Brazilian intersemiotic experimentation from the 1950s through the 1980s. Its provenance as a photocopy sent by Philadelpho Menezes to Wlademir Dias Pino on April 10, 1985 adds an important documentary layer to the circulation of these ideas and to the connections among different generations and tendencies of Brazilian experimental poetry.





