Publicação experimental de arte postal Cabaret Voltaire No 2, Mistakes e Errata, editada por Steve Hitchcock em San Diego, Califórnia, Estados Unidos, no segundo semestre de 1977, com reprodução de obra de Falves Silva datada de 1976.
Cabaret Voltaire - Steve Hitchcock - California USA
03803 - 1977 - Publicação conceitual
28 x 20,8 cm
Publicação experimental de arte postal Cabaret Voltaire No 2, Mistakes e Errata, editada por Steve Hitchcock em San Diego, Califórnia, Estados Unidos, no segundo semestre de 1977, com reprodução de obra de Falves Silva datada de 1976. O documento integra a história internacional da Mail Art, das publicações independentes, da poesia visual, da arte conceitual, do Neo Dada e das redes alternativas de comunicação artística da década de 1970. A presença de uma obra de Falves Silva na própria chamada editorial constitui evidência relevante da circulação de sua produção no circuito experimental norte americano e de sua conexão com Steve Hitchcock e Cabaret Voltaire.
No alto da publicação aparece a identificação CABARET VOLTAIRE, seguida do endereço 6266 Madeline Street, Apt. 97, San Diego, California 92115. Abaixo encontra se a indicação Cabaret Voltaire No 2, Fall 1977, seguida do tema Mistakes e Errata. A publicação corresponde ao segundo número do projeto editorial criado por Steve Hitchcock em San Diego em 1977. Pesquisa histórica sobre Cabaret Voltaire confirma que Hitchcock lançou naquele ano uma revista experimental construída a partir das redes internacionais de Mail Art e que o projeto chegou a cinco números. O acesso de Hitchcock à rede internacional foi ampliado por Ken Friedman, ligado ao Fluxus e ao Fluxus West, que lhe forneceu contatos de artistas postais de diversos países.
A parte superior direita apresenta uma composição visual assinada Falves 76. A obra de Falves Silva utiliza uma figura feminina apropriada e fragmentada, combinada com diferentes campos de letras, palavras e caracteres datilografados. A imagem é reorganizada por cortes visuais que alteram o corpo e o rosto da figura, produzindo uma composição próxima da colagem, da poesia visual, da apropriação gráfica e da experimentação verbo visual. A assinatura Falves 76 documenta a autoria de Falves Silva e a data de 1976, anterior à publicação do número de Cabaret Voltaire em 1977.
A presença dessa obra é especialmente significativa porque demonstra que o trabalho de Falves Silva já circulava internacionalmente no contexto da Mail Art e das publicações experimentais. O artista brasileiro, ligado ao Poema Processo e atuante em Natal, Rio Grande do Norte, aparece inserido em uma publicação de San Diego associada a uma extensa rede postal de artistas norte americanos, europeus e latino americanos.
Logo abaixo da obra de Falves Silva aparece a identificação Errata Corrections e o nome S Hitchcock. A parte central da folha contém uma grande chamada editorial solicitando aos artistas o envio de seus erros para Cabaret Voltaire. O texto transforma o próprio conceito de erro em tema de investigação artística.
Steve Hitchcock argumenta que os erros são parte importante do processo criativo porque revelam elementos do impulso original que posteriormente podem ser ocultados pela revisão. O texto relaciona o erro tanto a influências subconscientes e internas quanto às condições externas do ambiente e amplia a proposta para incluir também erros produzidos por máquinas e pela natureza.
A publicação estabelece ainda uma distinção conceitual entre erro e acidente. Para Hitchcock, o erro precisa possuir caráter não intencional. Uma palavra escrita incorretamente de propósito não constitui verdadeiramente um erro. Da mesma forma, acidente e erro não são apresentados como conceitos equivalentes, embora um acidente possa frequentemente resultar de um erro.
Essa formulação aproxima Mistakes e Errata das estratégias da arte conceitual. O tema da publicação não é apenas uma categoria visual, mas uma proposição intelectual colocada aos participantes. O artista deveria observar o processo de criação, localizar erros, falhas, desvios e acidentes e transformá los em material para comunicação e produção artística.
O texto afirma ainda que um erro pode revelar caminhos novos e inesperados de pensamento e expressão e que reconhecer os próprios erros e aqueles produzidos por outras pessoas pode gerar conhecimento. Hitchcock apresenta essa aprendizagem através do erro como o objetivo central do número.
A chamada aceita diferentes tipos de contribuição. Poderiam ser enviados erros originais ou documentação dos próprios erros e também de erros de outras pessoas. As contribuições poderiam assumir forma verbal, incluindo história, poema, descrição e ensaio, ou forma gráfica, incluindo fotografia, desenho, carimbo e colagem. Essa abertura demonstra o caráter intermedia da publicação e sua proximidade com práticas de poesia visual, arte conceitual, Mail Art e experimentação gráfica.
As especificações técnicas indicavam trabalhos de aproximadamente 10 por 12,5 centímetros, correspondentes a 4 por 5 polegadas, adequados à reprodução por xerox. Para fotografias havia preferência por imagens preparadas para esse sistema de reprodução. O prazo indicado para recebimento das contribuições era 15 de setembro de 1977.
A escolha da xerografia como condição editorial é historicamente relevante. Cabaret Voltaire pertence ao ambiente de publicações independentes em que fotocópia, impressão de baixo custo, montagem manual e distribuição postal permitiam produzir revistas fora dos sistemas tradicionais de galerias, museus e editoras comerciais. O suporte barato e reprodutível favorecia a rápida circulação internacional de imagens e textos.
Ao final, Hitchcock introduz uma dimensão autorreferencial e irônica ao admitir a possibilidade de que toda a ideia da publicação pudesse ser ela própria um erro e aceitar essa condição. Essa conclusão sintetiza o programa conceitual do número, no qual falha, imprevisto e desvio deixam de ser elementos que deveriam necessariamente ser corrigidos para se tornarem ferramentas de produção artística.
Cabaret Voltaire surgiu em San Diego em 1977. Uma pesquisa histórica publicada pelo San Diego Reader localizou um anúncio de Steve Hitchcock de fevereiro daquele ano procurando escritores, artistas e pessoas interessadas em participar de uma revista de vanguarda. O projeto retomava deliberadamente o nome do histórico Cabaret Voltaire de Zurique, associado ao nascimento do Dada em 1916, mas o transportava para o ambiente da Mail Art, da cultura xerográfica e das publicações independentes da Califórnia dos anos 1970.
Ken Friedman foi uma conexão decisiva nesse desenvolvimento. Segundo a pesquisa histórica sobre o projeto, Friedman respondeu ao anúncio inicial e permitiu que Hitchcock tivesse acesso a uma rede internacional de contatos da Mail Art. Essa estrutura de endereços possibilitou que Cabaret Voltaire recebesse rapidamente trabalhos de artistas de diferentes regiões e países e explica como uma publicação produzida em San Diego alcançou artistas como Falves Silva em Natal.
A relação de Falves Silva com Cabaret Voltaire não parece ter sido episódica. Documentos preservados de 1977 e 1978 registram correspondência entre Steve Hitchcock, J. Medeiros e Falves Silva. Em agosto de 1977 Hitchcock escreveu a J. Medeiros agradecendo um convite para participar de um livro, mencionou Falves Silva nominalmente e solicitou a realização e devolução de um teste destinado a outra publicação de Cabaret Voltaire. Esse conjunto documental demonstra a existência de intercâmbio continuado entre San Diego e Natal.
A obra de Falves Silva reproduzida em Mistakes e Errata acrescenta uma dimensão ainda mais importante a essa relação. Não se trata apenas de seu nome em uma lista postal ou do recebimento de correspondência. Uma obra visual de Falves, datada de 1976 e claramente identificada pela assinatura Falves 76, foi incorporada ao material editorial do segundo número de Cabaret Voltaire.
Essa presença constitui evidência documental importante para compreender a projeção internacional de Falves Silva durante os anos 1970. Sua produção vinculada ao Poema Processo, poesia visual, experimentação gráfica e posteriormente à Mail Art circulava em um espaço internacional no qual também estavam presentes Fluxus, Neo Dada, correspondence art, zines, livros de artista e publicações colaborativas.
Cabaret Voltaire No 2, Mistakes e Errata deve portanto ser compreendido simultaneamente como publicação experimental, chamada internacional para participação, documento de Mail Art e registro da circulação da obra de Falves Silva nos Estados Unidos. A combinação entre texto editorial de Steve Hitchcock e obra visual de Falves transforma esta folha em fonte primária para o estudo das conexões entre a vanguarda experimental brasileira e as redes internacionais de arte postal.
O documento é particularmente relevante para pesquisas sobre Steve Hitchcock, Cabaret Voltaire, Cabvolt, Falves Silva, Poema Processo, Mail Art, poetry mail, poesia visual, poesia experimental, arte conceitual, xerografia, publicação de artista, zines, Neo Dada, Fluxus West, redes internacionais de artistas, San Diego, Natal, Rio Grande do Norte e intercâmbios culturais entre Brasil e Estados Unidos na década de 1970.
ENGLISH
Text for the Salsa program
Cabaret Voltaire No 2, Mistakes and Errata, an experimental Mail Art publication edited by Steve Hitchcock in San Diego, California, United States, in the second half of 1977, incorporating a work by Brazilian artist Falves Silva dated 1976. The document belongs to the international history of Mail Art, independent publishing, visual poetry, conceptual art, Neo Dada and alternative artistic communication networks during the 1970s. The presence of a Falves Silva work within the editorial material itself provides significant evidence of the circulation of his production in the North American experimental network and of his connection with Steve Hitchcock and Cabaret Voltaire.
The upper section identifies CABARET VOLTAIRE and gives the address 6266 Madeline Street, Apt. 97, San Diego, California 92115. Below appears the identification Cabaret Voltaire No 2, Fall 1977, followed by the theme Mistakes and Errata. The publication belongs to the experimental editorial project established by Steve Hitchcock in San Diego in 1977. Historical research confirms that Hitchcock created a publication based on international Mail Art networks and that Cabaret Voltaire eventually produced five issues. Ken Friedman, associated with Fluxus and Fluxus West, played an important role in the early development of the project by providing Hitchcock access to contacts within the international postal art network.
The upper right section contains a visual composition signed Falves 76. Falves Silva uses an appropriated and fragmented female figure combined with fields of typed letters, words and characters. The image is reorganized through visual divisions that interrupt the body and face of the figure, producing a composition related to collage, visual poetry, graphic appropriation and verbal visual experimentation. The signature Falves 76 establishes Falves Silva as the artist and dates the work to 1976, one year before its appearance within Cabaret Voltaire in 1977.
The inclusion of this work is especially significant because it demonstrates the international circulation of Falves Silva within Mail Art and experimental publishing networks. The Brazilian artist, associated with the Process Poem Movement and active in Natal, Rio Grande do Norte, appears within a San Diego publication connected to a broad postal network of North American, European and Latin American artists.
Below the Falves Silva composition appears the identification Errata Corrections and the name S Hitchcock. The central portion of the sheet contains a large editorial invitation asking artists to send their mistakes to Cabaret Voltaire. The text transforms the concept of error itself into the subject of artistic investigation.
Steve Hitchcock proposes that mistakes form a valuable part of the creative process because an error can preserve aspects of an original impulse that revision later conceals. The text connects error with subconscious internal influences and with external environmental conditions and expands the category to include mistakes produced by machines and by nature.
The publication also establishes a conceptual distinction between error and accident. For Hitchcock, an error is characterized by its unintentional nature. A deliberately misspelled word therefore cannot genuinely qualify as an error. Accident and error are likewise distinguished, although the text observes that an accident may result from an error.
This formulation places Mistakes and Errata close to conceptual art strategies. The subject of the publication is not simply a visual theme but an intellectual proposition offered to participants. Artists are asked to observe creative processes, identify failures, deviations and unintended results and transform them into material for artistic production and communication.
The text further proposes that a mistake can reveal new and unexpected channels of thought and expression and that recognizing mistakes made by ourselves and by others can become a source of learning. Hitchcock identifies this process of learning through error as the central purpose of the issue.
The call accepts a wide range of contributions. Participants could submit original errata or documentation of their own mistakes and those of other people. Contributions could be verbal, including stories, poems, descriptions and essays, or graphic, including photographs, drawings, stamps and collage. This openness demonstrates the intermedia character of the publication and its proximity to visual poetry, conceptual art, Mail Art and graphic experimentation.
Technical specifications called for works measuring approximately 10 by 12.5 centimeters, equivalent to 4 by 5 inches, and suitable for Xerox reproduction. Photographs were preferably to be prepared in a form appropriate for photocopying. The submission deadline was September 15, 1977.
The use of Xerox reproduction is historically significant. Cabaret Voltaire belongs to an independent publishing environment in which photocopying, inexpensive printing, manual assembly and postal distribution enabled artists to produce publications outside conventional gallery, museum and commercial publishing systems. Cheap and reproducible media encouraged the rapid international movement of images and texts.
At the conclusion Hitchcock introduces a self referential and ironic dimension by acknowledging that the entire concept of the publication might itself be a mistake and accepting that possibility. This conclusion summarizes the conceptual program of the issue, in which failure, accident and deviation cease to function simply as problems requiring correction and instead become instruments of artistic production.
Cabaret Voltaire originated in San Diego in 1977. Historical research published by the San Diego Reader located an advertisement placed by Steve Hitchcock in February of that year seeking writers, artists and people with ideas for an avant garde publication. The project deliberately adopted the name of the historical Cabaret Voltaire in Zurich, associated with the emergence of Dada in 1916, but translated that legacy into the environment of Mail Art, Xerox culture and independent publishing in 1970s California.
Ken Friedman was a crucial connection in this development. According to historical research on the project, Friedman responded to Hitchcock's initial advertisement and provided access to contacts within international Mail Art networks. This address structure enabled Cabaret Voltaire to receive material rapidly from artists in different regions and countries and helps explain how a San Diego publication became connected with Falves Silva in Natal.
Falves Silva's relationship with Cabaret Voltaire was not apparently limited to a single occurrence. Surviving documents from 1977 and 1978 record correspondence connecting Steve Hitchcock, J. Medeiros and Falves Silva. In August 1977 Hitchcock wrote to J. Medeiros thanking him for an invitation to participate in a book, mentioned Falves Silva by name and requested the completion and return of a test intended for another Cabaret Voltaire publication. The surviving documents therefore indicate an ongoing exchange between San Diego and Natal.
The reproduction of Falves Silva's work in Mistakes and Errata adds another important dimension to this relationship. His presence is not limited to a postal address or correspondence. A visual work by Falves, dated 1976 and clearly identified by the signature Falves 76, was incorporated into the editorial material for the second issue of Cabaret Voltaire.
This provides significant documentary evidence for understanding the international circulation of Falves Silva during the 1970s. His production associated with the Process Poem Movement, visual poetry, graphic experimentation and later Mail Art was circulating in an international environment that also encompassed Fluxus, Neo Dada, correspondence art, zines, artists books and collaborative publications.
Cabaret Voltaire No 2, Mistakes and Errata should therefore be understood simultaneously as an experimental publication, an international call for participation, a Mail Art document and evidence of the circulation of Falves Silva's work in the United States. The combination of Steve Hitchcock's editorial proposition and Falves Silva's visual work makes the document an important primary source for studying connections between Brazilian experimental art and international postal networks.
The document is particularly relevant to research concerning Steve Hitchcock, Cabaret Voltaire, Cabvolt, Falves Silva, the Process Poem Movement, Mail Art, visual poetry, experimental poetry, conceptual art, Xerox art, artists publications, zines, Neo Dada, Fluxus West, international artists networks, San Diego, Natal, Rio Grande do Norte and cultural exchanges between Brazil and the United States during the 1970s.


