Cartão de arte postal enviado pela artista brasileira Anna Carolina Albernaz a Falves Silva, datado de 10 de junho de 1981.
Anna Carolina
03695 - 10 de Junho de 1981 - Cartao
10,5 x 16,5 cm
Cartão de arte postal enviado pela artista brasileira Anna Carolina Albernaz a Falves Silva, datado de 10 de junho de 1981. A correspondência relaciona diretamente a produção gráfica da artista, a rede brasileira de mail art, uma exposição realizada no Museu de Arte Contemporânea do Paraná e o intercâmbio artístico mantido com Falves Silva. O cartão constitui documento importante para a história da gravura, da arte postal, da poesia visual e das redes alternativas de circulação artística no Brasil no início da década de 1980.\n\nAnna Carolina Albernaz nasceu no Rio de Janeiro em 1943 e desenvolveu sua trajetória como gravadora, desenhista, ilustradora e professora. Formou se no Instituto de Educação do Rio de Janeiro em 1960 e iniciou seus estudos de xilogravura com José Altino em 1973. Posteriormente estudou desenho com Aloysio Zaluar na Escolinha de Arte do Brasil, gravura em metal com José Lima e pintura e desenho com Maria Lúcia Luz. Sua produção tornou se particularmente reconhecida pela xilogravura e pela investigação crítica da imagem feminina, das relações sociais, da violência simbólica e das convenções presentes na cultura visual.\n\nA frente do cartão reproduz uma obra de Anna Carolina realizada em 1980 por meio de xilogravura e clichê, com dimensões originais informadas como 90 por 30 centímetros. A composição é formada por três painéis verticais. Em cada painel repete se a imagem de um casal em postura de beijo ou abraço. Sobre o casal aparecem sucessivamente uma corda com laço, um par de algemas e uma grande faca segura por uma mão.\n\nAo lado da sequência visual aparece um texto que subverte o encerramento tradicional dos contos de fadas. A narrativa informa que o casal se casou, viveu infeliz e permaneceu nessa condição para sempre. A alteração da fórmula romântica converte o casamento idealizado em situação marcada por aprisionamento, ameaça, violência e permanência do sofrimento.\n\nA corda, as algemas e a faca atuam como signos de coerção. Esses objetos transformam progressivamente a cena amorosa. A primeira imagem sugere risco de enforcamento ou submissão. A segunda introduz contenção, controle e perda de liberdade. A terceira apresenta ameaça física direta. A repetição do casal nos três módulos estabelece uma sequência narrativa e aproxima a obra da estrutura dos quadrinhos, do cinema e da poesia visual.\n\nO trabalho articula palavra e imagem para questionar a representação cultural do casamento e do amor romântico. A frase final funciona como comentário crítico e altera o significado das imagens. A obra pode ser relacionada à produção artística feminista brasileira por investigar relações de poder, violência contra a mulher, aprisionamento doméstico e contradições entre idealização afetiva e experiência social. Essa interpretação é sustentada pelos elementos visuais da própria composição, embora o cartão não apresente um texto teórico da artista sobre o trabalho.\n\nA técnica indicada como xilogravura e clichê combina procedimentos de impressão distintos. A xilogravura utiliza uma matriz de madeira entalhada, enquanto o clichê permite a reprodução gráfica de imagens fotográficas, desenhos ou materiais impressos. A união dessas técnicas possibilita a apropriação de imagens da cultura popular e sua reorganização em uma narrativa crítica.\n\nO verso apresenta uma mensagem manuscrita de Anna Carolina dirigida a Falves Silva. A artista agradece pela interferência recebida e informa que os cartões foram expostos junto de suas gravuras no Museu de Arte Contemporânea do Paraná. Ela acrescenta que enviava a lista dos participantes e encerra com um convite para que Falves Silva comparecesse, seguido de uma saudação afetuosa.\n\nA referência à interferência indica a existência de uma ação anterior realizada por Falves Silva sobre um cartão ou material enviado pela artista. O termo sugere um procedimento colaborativo característico da mail art, no qual uma imagem podia ser recebida, modificada e devolvida ao remetente. Dessa forma, a obra deixava de ser entendida como objeto fechado e passava a funcionar como processo compartilhado entre correspondentes.\n\nA mensagem também registra que esses cartões interferidos foram apresentados junto das gravuras de Anna Carolina no Museu de Arte Contemporânea do Paraná. O cartão documenta, portanto, a passagem de uma troca postal privada para o espaço público de uma instituição museológica. A rede de correspondência tornou se parte de uma exposição, reunindo contribuições recebidas de diferentes participantes.\n\nO Museu de Arte Contemporânea do Paraná foi criado em Curitiba em 1970 e aberto ao público em 1971. A instituição desenvolveu atividades relacionadas à arte contemporânea brasileira, ao Salão Paranaense e à documentação da produção artística nacional. Seu arquivo especializado preserva registros históricos de exposições, artistas e manifestações experimentais.\n\nA participação de Anna Carolina em atividades artísticas no Paraná é coerente com sua presença documentada em várias edições do Salão Paranaense entre 1975 e 1980. A artista também participou da Trienal Latinoamericana del Grabado em Buenos Aires em 1979 e da Seoul Print Biennale em 1981 e 1984, integrando circuitos nacionais e internacionais de gravura.\n\nA relação entre Anna Carolina e Falves Silva ultrapassava uma simples troca de correspondência. O documento revela um processo baseado no envio de cartões, na intervenção do destinatário, na devolução dos trabalhos e na exposição pública das contribuições. Esse procedimento aproxima a gravura tradicional das estratégias abertas da arte postal e da criação coletiva.\n\nAnna Carolina também aparece em documentação relacionada ao projeto Olho Mágico, organizado por Falves Silva. Os cartões dos participantes foram apresentados em Natal em 1978, no Recife em 1979 e no Núcleo de Arte Contemporânea da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, em 1980. A relação de participantes inclui Anna Carolina, Falves Silva, Neide de Sá, Paulo Bruscky, Almandrade, J. Medeiros, Leonhard Frank Duch, Ulises Carrión, Robin Crozier e outros artistas brasileiros e internacionais.\n\nO cartão de 10 de junho de 1981 confirma a continuidade dessa relação e amplia o conhecimento sobre a circulação dos trabalhos entre o arquivo de Falves Silva e a produção de Anna Carolina. A artista recebeu uma intervenção de Falves Silva, incorporou cartões de diferentes participantes a uma apresentação no Museu de Arte Contemporânea do Paraná e comunicou ao correspondente os resultados do processo.\n\nA peça deve ser compreendida simultaneamente como reprodução de obra gráfica, convite informal, confirmação de participação, registro expositivo e documento de arte postal. Sua importância reside na articulação entre xilogravura, imagem apropriada, crítica às relações conjugais, produção de mulheres, colaboração artística e circulação institucional da mail art brasileira.\n\nSALSA PROGRAM TEXT IN ENGLISH\n\nMail art postcard sent by the Brazilian artist Anna Carolina Albernaz to Falves Silva and dated 10 June 1981. The correspondence directly connects the artist
s graphic production, the Brazilian mail art network, an exhibition held at the Museu de Arte Contemporânea do Paraná and her artistic exchange with Falves Silva. The postcard is an important document for the history of printmaking, mail art, visual poetry and alternative artistic circulation in Brazil during the early 1980s.\n\nAnna Carolina Albernaz was born in Rio de Janeiro in 1943 and developed her career as a printmaker, draughtswoman, illustrator and teacher. She graduated from the Instituto de Educação in Rio de Janeiro in 1960 and began studying woodcut with José Altino in 1973. She later studied drawing with Aloysio Zaluar at the Escolinha de Arte do Brasil, metal engraving with José Lima and painting and drawing with Maria Lúcia Luz. Her practice became particularly associated with woodcut and with critical investigations of female imagery, social relationships, symbolic violence and conventions embedded in popular visual culture.\n\nThe front of the postcard reproduces a work created by Anna Carolina in 1980 using woodcut and printing block techniques. The original dimensions are identified as 90 by 30 centimetres. The composition consists of three vertical panels. Each panel repeats the image of a couple kissing or embracing. Above the couple appear, in sequence, a rope with a noose, a pair of handcuffs and a large knife held by a hand.\n\nBeside the visual sequence is a text that subverts the traditional ending of fairy tales. The narrative states that the couple married, lived unhappily and remained in that condition forever. The alteration of the romantic formula transforms the idealized marriage into a condition defined by confinement, threat, violence and the permanence of suffering.\n\nThe rope, handcuffs and knife function as signs of coercion. These objects progressively alter the meaning of the romantic scene. The first image suggests hanging, submission or psychological danger. The second introduces restraint, control and loss of freedom. The third presents a direct physical threat. The repetition of the couple across the three panels creates a narrative sequence related to comics, cinema and visual poetry.\n\nThe work combines language and image to question cultural representations of marriage and romantic love. The final phrase operates as a critical commentary and changes the interpretation of the images. The work may be connected with Brazilian feminist artistic production through its investigation of power relations, violence against women, domestic confinement and the conflict between romantic idealization and social experience. This interpretation is supported by the visual structure of the work, although the postcard contains no theoretical statement by the artist.\n\nThe technique identified as woodcut and cliché combines different reproductive processes. Woodcut uses a carved wooden matrix, while the printing block allows the reproduction of photographs, drawings or previously printed images. Their combination enables the appropriation of popular imagery and its reorganization into a critical narrative.\n\nThe reverse contains a handwritten message from Anna Carolina to Falves Silva. The artist thanks him for his intervention and states that the postcards were exhibited together with her prints at the Museu de Arte Contemporânea do Paraná. She adds that she was sending a list of participants and concludes by inviting Falves Silva to attend, followed by an affectionate greeting.\n\nThe reference to an intervention indicates that Falves Silva had previously modified a postcard or another work sent by the artist. The term suggests a collaborative procedure characteristic of mail art, in which an image could be received, altered and returned to its sender. The artwork was therefore not understood as a closed object but as a process shared between correspondents.\n\nThe message also records that these altered postcards were presented together with Anna Carolina
s prints at the Museu de Arte Contemporânea do Paraná. The postcard therefore documents the movement of a private postal exchange into the public space of a museum. The correspondence network became part of an exhibition that assembled contributions received from different participants.\n\nThe Museu de Arte Contemporânea do Paraná was established in Curitiba in 1970 and opened to the public in 1971. The institution developed programmes devoted to Brazilian contemporary art, the Salão Paranaense and the documentation of national artistic production. Its specialized archive preserves historical records relating to exhibitions, artists and experimental practices.\n\nAnna Carolina
s connection with artistic activities in Paraná is consistent with her documented participation in several editions of the Salão Paranaense between 1975 and 1980. She also participated in the Trienal Latinoamericana del Grabado in Buenos Aires in 1979 and in the Seoul Print Biennale in 1981 and 1984, becoming part of national and international printmaking circuits.\n\nThe relationship between Anna Carolina and Falves Silva extended beyond a conventional exchange of correspondence. The document reveals a process based on the circulation of postcards, intervention by the recipient, return of the works and public exhibition of the contributions. This procedure connected traditional printmaking with the open strategies of mail art and collective creation.\n\nAnna Carolina also appears in documentation connected with Olho Mágico, a project organized by Falves Silva. Postcards by the participating artists were exhibited in Natal in 1978, Recife in 1979 and at the Núcleo de Arte Contemporânea of the Federal University of Paraíba in João Pessoa in 1980. The list of participants includes Anna Carolina, Falves Silva, Neide de Sá, Paulo Bruscky, Almandrade, J. Medeiros, Leonhard Frank Duch, Ulises Carrión, Robin Crozier and other Brazilian and international artists.\n\nThe postcard dated 10 June 1981 confirms the continuation of this relationship and expands current knowledge of the circulation between the Falves Silva archive and Anna Carolina
s practice. She received an intervention by Falves Silva, incorporated postcards by different participants into a presentation at the Museu de Arte Contemporânea do Paraná and informed her correspondent of the results of the project.\n\nThe object should be understood simultaneously as a reproduction of a graphic work, an informal invitation, confirmation of participation, an exhibition record and a mail art document. Its importance lies in its articulation of woodcut, appropriated imagery, criticism of marital relationships, women
s artistic production, collaborative practice and the institutional circulation of Brazilian mail art.


