Schede é um livro de artista de Vincenzo Accame publicado pela Tool em Milão, Itália, em 1970, realizado por meio de impressão tipográfica sobre papel.
Vincenzo Accame. Milano - Italia
01413 - 1970 - Livro de Artista
15 x 10 cm
TEXTO SALSA EM PORTUGUÊS
Schede é um livro de artista de Vincenzo Accame publicado pela Tool em Milão, Itália, em 1970, realizado por meio de impressão tipográfica sobre papel. A publicação constitui documento significativo da poesia visual italiana, da poesia experimental e das pesquisas sobre escrita, signo, espacialização da linguagem e relação entre palavra e imagem desenvolvidas por Accame no ambiente da Tool no final da década de 1960 e início da década de 1970.
A capa apresenta o nome vincenzo accame em caracteres minúsculos, o título Schede em grande corpo tipográfico, a data 1970 e a identificação editorial tool. A composição austera da capa antecipa o princípio estrutural do interior, no qual letras, palavras, linhas, fragmentos verbais, sobreposições, manchas negras e espaços vazios passam a funcionar simultaneamente como elementos linguísticos e visuais.
A publicação contém uma ficha biobibliográfica do próprio Vincenzo Accame. O documento informa que o artista nasceu em 1932 e registra sua presença em revistas e periódicos como Il Verri, Marcatré, Malebolge, Tre Rosso, Le Arti, Uomini e idee, Geiger, Tool, Bollettino Tool, Approches, Labris, Phantomas, De Tafelronde, Techne, Ex, aaa, Lotus e Ovum 10, entre outros. O texto registra ainda sua participação nas mais importantes mostras internacionais de poesia e em todas as exposições do grupo Tool.
A mesma ficha fornece uma bibliografia contemporânea particularmente importante para a reconstrução da trajetória de Accame. Entre suas obras poéticas aparecem Ricercari, publicado pela Tool em Milão em 1968, Mot(s), publicado pela Tool em Milão em 1968, Prove di linearità, publicado em Milão pelas edições EA em 1970, e Schede, publicado pela Tool em Milão em 1970. A publicação constitui, portanto, fonte primária para a confirmação bibliográfica de Schede e também para a datação de Mot(s) em 1968.
No campo da atividade crítica e editorial, a ficha registra Ultime poesie d amore di Paul Eluard, antologia publicada pela Lerici em Milão em 1965 e posteriormente reeditada pela Accademia Sansoni em Milão em 1971. Registra também Poesie di Alfred Jarry, antologia publicada pela Guanda em Parma em 1968. Esses dados mostram que Accame desenvolvia paralelamente produção poética experimental, pesquisa crítica, atividade editorial e trabalho de mediação da poesia europeia.
O corpo principal de Schede apresenta uma sequência numerada de composições verbo visuais. Nas primeiras páginas observam se palavras e fragmentos distribuídos de modo descontínuo dentro de campos delimitados por linhas retangulares. Os elementos verbais aparecem em diferentes orientações, direções e distâncias, combinados com pequenos traços lineares. A página deixa de funcionar como suporte neutro e passa a ser entendida como espaço ativo de relações.
Nas páginas 1 a 4 aparecem palavras e segmentos dispersos pelo campo gráfico, com forte presença do vazio. A leitura não segue necessariamente uma direção linear. Os vocábulos são deslocados, fragmentados e separados, criando relações entre posição, distância, orientação e sentido. A palavra passa a ser percebida tanto pelo conteúdo semântico quanto por sua presença física na página.
Nas páginas seguintes essa estrutura sofre progressiva transformação. Letras, palavras, linhas e sinais começam a se aproximar, sobrepor e produzir zonas de maior densidade. Na página 6, a composição concentra palavras e fragmentos em uma pequena área central. Na página 7, sucessivas sobreposições tipográficas formam um bloco visual denso, no qual a legibilidade parcial é substituída pela percepção do texto enquanto massa gráfica.
A página 8 apresenta a expressão ATTO TESTO organizada de forma espacial, com letras que descem e se deslocam verticalmente. A formulação aproxima ato e texto e sintetiza uma questão fundamental na pesquisa de Accame, na qual escrever pode ser entendido como ação e o texto como acontecimento visual.
Nas páginas 9 e 10 surgem novas relações entre palavras, linhas e zonas de apagamento. A página 10 apresenta vocábulos relacionados a intenção, dizer, dar e continuar, combinados a extensas áreas formadas por traços horizontais negros. O processo sugere simultaneamente escrita, rasura, permanência e interrupção, transformando o gesto de cancelar ou encobrir o texto em elemento constitutivo da composição.
Nas páginas 11 a 15 ocorre uma alteração mais intensa da linguagem visual. Massas negras, impressões, manchas e estruturas de aparência gestual passam a ocupar áreas importantes da superfície. O texto permanece presente, mas frequentemente é parcialmente ocultado, atravessado ou absorvido pelas formas. A oposição entre palavra legível e matéria gráfica torna se uma das forças estruturais dessas páginas.
As páginas 14 e 15 formam uma sequência visual explicitamente articulada pelas palavras seguo e consegue, acompanhadas por setas indicativas de direção. A sequência enfatiza continuidade, deslocamento e relação temporal entre as páginas, aproximando o livro de uma estrutura narrativa visual na qual a passagem de uma folha para outra participa da construção de sentido.
A página 16 retorna à sobreposição tipográfica e apresenta a frase è un tempo che segue se, acompanhada por outras ocorrências fragmentadas e superpostas. A obra explora a relação entre tempo, sequência, repetição e leitura, transformando a própria sucessão das páginas em elemento poético.
Nas páginas 17 a 20 a escrita torna se progressivamente mais compacta. Palavras, frases e caracteres são impressos uns sobre os outros até formarem blocos densos. O texto continua existindo materialmente, mas sua leitura convencional é dificultada pela acumulação. O excesso de informação produz uma nova imagem, fazendo com que a escrita atravesse o limite entre linguagem verbal e estrutura visual.
As páginas 21 e 22 apresentam grandes formas negras associadas a textos curvos ou parcialmente sobrepostos. A figura da página 21 é acompanhada por uma sequência verbal disposta em arco, enquanto a página 22 apresenta uma forma orgânica negra acompanhada por palavras concentradas em sua parte inferior. Essas páginas sintetizam a integração entre impressão, forma, texto, gesto e espaço que percorre toda a publicação.
Schede pode ser entendido como uma investigação sistemática das possibilidades da página enquanto campo de escrita. O livro emprega deslocamento tipográfico, fragmentação verbal, repetição, superposição, alteração de orientação, saturação, apagamento, mancha, linha, direção e vazio para romper a leitura linear. A unidade básica deixa de ser apenas a palavra e passa a incluir sua posição, sua densidade, sua distância dos demais signos e sua relação com a estrutura gráfica.
A publicação está diretamente vinculada à Tool, iniciativa fundamental para as pesquisas italianas sobre escrita experimental e poesia visual. O próprio exemplar relaciona Vincenzo Accame ao grupo Tool e registra sua participação em todas as mostras promovidas pelo grupo. Schede deve, portanto, ser compreendido tanto como obra individual de Accame quanto como documento de um ambiente coletivo de experimentação com linguagem, poesia e comunicação visual em Milão.
Dentro da história da poesia visual e experimental, Schede evidencia a passagem da palavra como elemento exclusivamente linguístico para a palavra entendida como matéria. Os processos de acumulação, ruptura, sobreposição e espacialização fazem com que a leitura dependa tanto do olhar quanto da decodificação verbal. A publicação aproxima poesia, desenho, tipografia e imagem sem eliminar completamente nenhuma dessas categorias.
No contexto de um acervo relacionado ao Poema Processo, Schede possui importância comparativa por documentar uma pesquisa italiana contemporânea às experiências brasileiras de radicalização do poema visual. Não se deve afirmar, apenas com base neste exemplar, que Vincenzo Accame ou o grupo Tool participaram formalmente do Poema Processo. A relevância está na proximidade histórica e conceitual entre pesquisas que investigavam a ruptura da linearidade, o caráter visual do signo, a estrutura espacial da página, a serialidade e a transformação do livro em campo ativo de experimentação.
Schede, Vincenzo Accame, Tool, Milano, 1970, constitui assim um livro de artista e publicação experimental fundamental para compreender a produção verbo visual de Accame e o ambiente da poesia visual italiana no início da década de 1970. O exemplar combina documentação biobibliográfica, poesia visual, escrita experimental, tipografia e construção sequencial, tornando se simultaneamente obra artística e fonte primária para o estudo de Vincenzo Accame e do circuito Tool.
TEXTO SALSA EM INGLÊS
Schede is an artists book by Vincenzo Accame published by Tool in Milan, Italy, in 1970 and produced through typographic printing on paper. The publication is a significant document of Italian visual poetry, experimental poetry and research into writing, signs, spatial language and the relationship between word and image developed by Accame within the Tool environment during the late 1960s and early 1970s.
The cover presents the name vincenzo accame in lowercase letters, the title Schede in large typography, the date 1970 and the publishing identification tool. The restrained cover anticipates the structural principle of the interior, where letters, words, lines, verbal fragments, superimpositions, black masses and empty spaces operate simultaneously as linguistic and visual elements.
The publication contains a biobibliographical entry devoted to Vincenzo Accame himself. The document states that the artist was born in 1932 and records his texts in journals and periodicals including Il Verri, Marcatré, Malebolge, Tre Rosso, Le Arti, Uomini e idee, Geiger, Tool, Bollettino Tool, Approches, Labris, Phantomas, De Tafelronde, Techne, Ex, aaa, Lotus and Ovum 10, among others. It also states that Accame participated in the most important international poetry exhibitions and in all exhibitions organized by the Tool group.
The same entry provides an important contemporary bibliography for reconstructing the development of Accame work. His poetic publications are listed as Ricercari, published by Tool in Milan in 1968, Mot(s), published by Tool in Milan in 1968, Prove di linearità, published in Milan by EA in 1970, and Schede, published by Tool in Milan in 1970. The book therefore functions as a primary source confirming Schede as an autonomous publication and also documenting Mot(s) as a 1968 publication.
In the field of critical and editorial activity, the biographical entry records Ultime poesie d amore di Paul Eluard, an anthology published by Lerici in Milan in 1965 and subsequently reissued by Accademia Sansoni in Milan in 1971. It also records Poesie di Alfred Jarry, an anthology published by Guanda in Parma in 1968. These references demonstrate that Accame was simultaneously engaged in experimental poetry, criticism, publishing and the dissemination of European poetry.
The principal section of Schede consists of a numbered sequence of verbo visual compositions. The opening pages show words and fragments distributed discontinuously within fields enclosed by rectangular lines. Verbal elements appear at different angles, orientations and distances and are combined with small linear marks. The page no longer functions as a neutral support but becomes an active field of relationships.
Pages 1 to 4 contain words and fragments dispersed throughout the graphic field, with empty space playing a substantial structural role. Reading does not necessarily follow a linear direction. Words are displaced, fragmented and separated, creating relationships among position, distance, orientation and meaning. Language is perceived through both semantic content and physical presence.
In the following pages the structure progressively changes. Letters, words, lines and signs begin to approach one another, overlap and create increasingly dense zones. On page 6 the composition concentrates verbal fragments within a small central area. On page 7 successive typographic superimpositions produce a dense visual block in which partial legibility gives way to the perception of text as graphic mass.
Page 8 presents the expression ATTO TESTO spatially organized, with letters descending and shifting vertically. The formulation brings together act and text and summarizes a fundamental question within Accame research, in which writing can be understood as an action and the text as a visual event.
Pages 9 and 10 introduce new relationships among words, lines and areas of cancellation. Page 10 contains words associated with intention, saying, giving and continuing, combined with extensive areas of horizontal black marks. The process simultaneously suggests writing, erasure, persistence and interruption, transforming cancellation into a constituent element of the composition.
Pages 11 to 15 introduce a more radical transformation of the visual language. Black masses, printed impressions, stains and gestural looking structures occupy substantial areas of the surface. Text remains present but is frequently partially obscured, crossed or absorbed by these forms. The opposition between readable language and graphic matter becomes one of the principal structural tensions of the work.
Pages 14 and 15 form a visual sequence explicitly articulated by the words seguo and consegue, accompanied by arrows indicating direction. The sequence emphasizes continuity, movement and temporal relationships between pages, bringing the book closer to a visual narrative structure in which turning from one page to the next participates in the construction of meaning.
Page 16 returns to typographic superimposition and contains the phrase è un tempo che segue se, accompanied by other fragmented and overlapping occurrences. The work explores relationships among time, sequence, repetition and reading, transforming the succession of pages itself into a poetic element.
On pages 17 to 20 writing becomes progressively more compact. Words, sentences and individual characters are printed over one another until they form dense blocks. The text remains materially present, but conventional reading becomes difficult through accumulation. The excess of information produces a new image, causing writing to move across the boundary between verbal language and visual structure.
Pages 21 and 22 present large black forms associated with curved or partially superimposed text. The figure on page 21 is accompanied by a verbal sequence arranged in an arc, while page 22 presents an organic black shape with words concentrated below it. These pages synthesize the integration of printing, form, text, gesture and space that structures the entire publication.
Schede can be understood as a systematic investigation of the possibilities of the page as a field of writing. The book employs typographic displacement, verbal fragmentation, repetition, superimposition, changes in orientation, saturation, erasure, stains, lines, direction and empty space to disrupt conventional linear reading. The basic unit is no longer only the word but also its position, density, distance from other signs and relationship with the graphic structure.
The publication is directly connected with Tool, an important initiative in Italian investigations of experimental writing and visual poetry. The volume itself associates Vincenzo Accame with the Tool group and records his participation in all of its exhibitions. Schede should therefore be understood both as an individual work by Accame and as a document of a collective environment devoted to experimentation with language, poetry and visual communication in Milan.
Within the history of visual and experimental poetry, Schede demonstrates the transformation of the word from an exclusively linguistic element into material. Processes of accumulation, rupture, superimposition and spatial organization make reading dependent on looking as well as verbal decoding. The publication brings poetry, drawing, typography and image together without completely dissolving any of those categories.
Within a collection associated with the Brazilian Process Poem Movement, Schede has comparative importance as documentation of an Italian investigation contemporary with Brazilian experiments in the radical transformation of visual poetry. The surviving volume does not by itself demonstrate formal participation by Vincenzo Accame or Tool in the Process Poem Movement. Its relevance lies in the historical and conceptual proximity between practices investigating the disruption of linearity, the visual character of signs, spatial organization of the page, seriality and the transformation of the book into an active field of experimentation.
Schede, Vincenzo Accame, Tool, Milano, 1970, is therefore an important artists book and experimental publication for understanding Accame verbo visual practice and the environment of Italian visual poetry at the beginning of the 1970s. Combining biobibliographical documentation, visual poetry, experimental writing, typography and sequential construction, the volume functions simultaneously as an artwork and as a primary historical source for the study of Vincenzo Accame and the Tool circuit.












